Drica de Moraes e Malu Valle em
Pianíssimo.
Foto Guga Melgar

Crítica publicada no Jornal do Brasil – Caderno B
Por Lucia Cerrone – Rio de Janeiro – 12.06.1993

 

Barra

Impacto da magia 

A famosa magia do teatro de que tanto se fala pode parecer para alguns mais um folclore dos trabalhadores de artes cênicas. O mais certo, no entanto, seria dizer que ela não se revela com a frequência desejada, mas quando acontece é, sem dúvida nenhuma, um fenômeno arrebatador para palco e plateia.

Pianíssimo, em cena no Espaço 2 do Teatro Villa Lobos, é um desses casos. O espectador que percorre o sombrio corredor que antecede a sala de espetáculos não tem de longe a ideia do que está para acontecer.

O texto e Tim Rescala conta num humor bem dosado a história da menina Clara às voltas com as aulas de piano e a preparação para o primeiro recital num elegante piano Steinway. O que poderia ser mais uma historinha do tipo criança sofre, torna-se um bem acabado espetáculo de musicalidade onde até a campainha da casa é uma citação a Mozart. Rescala oferece ao público um menu variado dos clássicos muito bem colocados na encenação.

A aconchegante encenação de Karen Acioly tira da plateia a condição de mera espectadora, criando um irresistível clima de cumplicidade sem que para isso utilize nenhum truque apelativo. A história se desenrola num ritmo atento, onde a próxima cena é esperada com ansiedade que antecede o prazer.

Num elenco em que todos cantam, dançam, representam e tocam mesmo os seus instrumentos musicais, Drica de Moraes numa extraordinária composição da personagem Clara traz à cena todos os trejeitos infantis da menina tímida, num tom verdadeiro, poucas vezes alcançada no palco, e sem que com isso perca a teatralidade do gesto.

Malu Valle interpreta a austera professora Euterpe sem os exageros da vilã convencional, enquanto Doriana Mendes empresta à simpática dona Leilinha o toque das visitas inconvenientes. Felipe Rocha é um Krikri sem caricaturas do menino mau, o mesmo acontecendo com Márcio Vianna na concepção do bom Steinway. Karen Acioly faz de dona Gema a exata mãe confusa com os talentos de sua filha.

Com tudo funcionando em tom mais do que afinado, Lídia Kosowski investe na criatividade construindo um gigantesco piano cenográfico, onde se desenrola grande parte da ação, e que com luzes estrategicamente colocadas transforma o móvel, a cada momento num piano diferente. A iluminação de Renato Machado e Aurélio di Simoni pontua a encenação como se acompanhasse realmente uma pauta musical. Com todos esses elementos assinadíssimos, o figurinista Ney Madeira, não foge à regra e coloca, delicadamente, flores e borboletas de chitão misturados à seda.

Pianíssimo dá ao público o impacto do inesperado e acaba se revelando um acontecimento teatral dos mais felizes.

Cotação: 4 estrelas (Excelente)