Crítica publica na Folha de São Paulo
Por Edélcio Mostaço – São Paulo – 1986

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Apuro técnico e artístico

Cada coisa tem o seu tempo. Esta verdade simples encontra-se questionada, nos dias presentes, pela avassaladora presença dos meios de comunicação de massa, pela cibernética, bem como pelos estudos científicos profundos. O dramaturgo inglês J. B. Priestley (1894-1984), autor de sucesso em Londres, especialmente nos anos 30 e 40, tratou da problemática humana do tempo em três textos: Esquina Perigosa, Eu já estive aqui antes e O Tempo e os Conways, escrita em 1937. As duas primeiras foram influenciadas pelo “fluxo de consciência” então em moda naquela época. Conways recicla teorias de J. W. Dunne, segundo as quais experimentamos, em situações diversas, variadas sensações do transcorrer temporal.

Ambientada em dois tempos diversos, os anos de 1919 e 1939, é a figura da filha Kay que enfeixa a narrativa da peça. No primeiro ato completa 21 anos, o ambiente rescende alegria pelo fim da guerra e pelas possibilidades de todos os jovens da casa. No segundo ato, vinte anos depois, desmoronam-se os castelos sonhados e o prenúncio de uma nova guerra infunde medo e desesperança a todos. O terceiro ato, uma continuação do primeiro, faz a ação regredir de onde havia parado.

Teatro de equipe

Os Conways são gente simples, ainda que ricos, e possuem traços que toda família classe média possui, razão das identificações que o espetáculo dirigido por Eduardo Tolentino de Araújo soube muito bem captar. Seu trabalho é sóbrio, elegante, tendo construído com grande desenvoltura uma montagem cheia de armadilhas técnicas, resolvidas com soluções imaginativas. Beatriz Segall, encabeçando o elenco, comanda com desembaraço a ação, apoiada num elenco de ótimas atrizes jovens, integrantes do grupo Tapa, do Rio de Janeiro. É a primeira vez que o elenco vem a São Paulo e demonstra com brilhantismo por que mereceu tantos prêmios no Rio. A excelente cenografia de Ricardo Ferreira resolve com inteligência o problema do transcurso do tempo e os figurinos de Lola Tolentino, sóbrios, simples e elegantes, completam o acabamento desta produção de primeira qualidade.

Exemplo de um teatro realista que facilmente poderia dar a impressão de desgastado, O Tempo e os Conways evidencia como o apuro técnico e artístico nos desempenhos ajuda a ultrapassar a barreira da temporalidade e projetar no presente um enredo capaz de preencher o espectador. Teatro de equipe, como há muitos anos não se via sobre nossos palcos, o espetáculo é uma lição de competência cênica dificilmente alcançável. Razões que o colocam, desde já, como um dos marcos da atual temporada.

Serviço:
O Tempo e os Conways – Texto de J. B. Priestley, direção de Eduardo Tolentino de Araújo, cenografia de Ricardo Ferreira e figurinos de Lola Tolentino. Com Beatriz Segall, Luiz Carlos Buruca, Denise Weinberg, giuseppe Oristanio e outros. De quarta a sexta, às 21h, sábados às 20h e 22h30, domingos às 18h e quintas-feiras às 17h. Teatro Aliança Francesa (r. Gal. Jardim, 182, tel. 259-8412, Vila Buarque, zona central). Ingressos entre Cz$ 80,00 e Cz$ 100,00.