Crítica publicada no Site da Revista Crescer
Por Dib Carneiro Neto – São Paulo – 20.09.2013

Barra

Teatro interativo feito com inteligência e agilidade

O Senhor das Chaves faz das crianças da plateia atores ativos da história

É corajoso, ousado e arriscado conduzir sozinho um espetáculo que depende tanto da participação da plateia. Mas Alexandre Roit dá conta do recado em O Senhor das Chaves, em cartaz no Teatro Cacilda Becker, na Lapa, em São Paulo. Um ator menos experiente e menos talentoso poderia ser tragado pela espontaneidade irrefreável do público mirim. Roit sabe até onde dar corda e o momento certo de voltar ao texto.

Felizmente para o espetáculo, é um domínio que o intérprete exerce com delicadeza, o que no caso dele se facilita pela voz suave que possui e com a qual impregna sua composição, ainda que o personagem seja um grandalhão barbudo, meio ranzinza e desmemoriado. O velho pescador, que surge da plateia e vacila em ocupar o palco, termina por se render à sua vocação de proseador e nos inunda com três histórias ligadas ao mar.

Adultos e crianças da plateia, cada qual à sua vez, auxiliam o ator na condução da narrativa. É quando a química se estabelece, claramente sustentada também por uma boa dramaturgia, fazendo deste um dos mais bem sucedidos espetáculos interativos das temporadas recentes. A peça tem direção de Pedro Pires, a partir do argumento do próprio Alexandre Roit, e dramaturgia de Rodrigo Matheus. Um trio e tanto!

Os “causos” de pescador, um deles sobre a mítica cidade submersa de Atlântida, se desenrolam intercalados por números de malabarismo e pontuados por intervenções de sons ao vivo produzidos por instrumentos musicais variados. Quase no final, para marcar a passagem do tempo e falar de saudade de forma lúdica e não piegas, algumas charadas tão difíceis quanto encantadoras desafiam a plateia – que, de novo, se sai muito bem.

Os baús da cenografia de Nani Brisque são referências diretas à possível perda de memória do personagem, que precisará contar com a ajuda da plateia para recuperá-la. O figurino de Gal Gruman remete a contento ao universo dos caiçaras e dos náufragos, ao mesmo tempo em que criativamente inspira renovação. Destaque também para a ótima trilha sonora original de André Abujamra, que faz intervenções pontuais na trama, sem manipular a emoção do público.

Serviço

Teatro Cacilda Becker.
Rua Tito, 295, Lapa – São Paulo
Tel.: (11) 3864-4513
Sábados e domingos, às 16 horas
Duração: 50 minutos
Recomendação: livre
Ingresso: R$ 2,00
Até 13 de outubro