Crítica publicada no Site da Revista Crescer
Por Dib Carneiro Neto – São Paulo – 26.07.2013

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Malabarismos em dia de muita chuva

Cia. Suno, de Santos, marca seus 15 anos de celebração da arte circense com o espetáculo Ensaio Sob a Chuva

Termina neste sábado (27) no Sesc Consolação, em São Paulo, a mostra dos 15 anos de trabalho da Cia. Suno, que surgiu em Santos, em 1988, quando um grupo de amigos artistas iniciou suas pesquisas sobre teatro do absurdo. Hoje, com 12 espetáculos no repertório, o que eles fazem é celebrar, com talento e graça, a força da arte circense. Vale a pena conhecê-los. Depois deste último fim de semana, ocuparão em agosto outra unidade do SESC, a da Vila Mariana, com o espetáculo Carpinteiros em Domicílio, em que se destacam o malabarismo com trenas de operários, a percussão em marmitas e as contorções na escada. Mais tarde, em setembro, haverá uma nova mostra de repertório,menor, desta vez no SESC Pinheiros.

O casal formado por Helena Figueira, que foi aluna do CPT de Antunes Filho e da École National du Cirque Annie Fratellini, e por Duba Becker, acrobata com especialidade em malabares, enche o palco de carisma e de alegria, dominando as técnicas com segurança, ao mesmo tempo em que faz arte de forma sincera e com muita entrega. Seus palhaços fixosse chamam Fiorella e Sanduba, que se garantem com trejeitos e malemolências de uma brasilidade marcante.

O espetáculo que você poderá ver neste fim de semana (só amanhã) é Ensaio Sob a Chuva, que estreou especialmente na mostra do SESC Consolação, coroando o fim da programação com um gosto de estreia. É uma atração bastante curiosa, dentre tantas que surgiram no teatro nas últimas décadas em torno da arte circense. Como o forte da companhia são os números de malabares, o público se delicia durante 50 minutos com os mais variados e criativos esquetes dessa modalidade acrobática que tomou conta do cotidiano das grandes cidades brasileiras, nas faixas de pedestres dos grandes cruzamentos.

É certo que, em alguns momentos, senti falta de uma direção mais firme, que apertasse um pouco os tempos dos dois atores-palhaços e cuidasse melhor do ritmo. Mas, no geral, Ensaio Sob a Chuva, do diretor André de Araújo, encanta a plateia de todas as idades. A dramaturgia (com roteiro assinado pela própria atriz Helena Figueira) é simples e eficiente: em um dia chuvoso, como não dá para sair de casa, vamos inventar brincadeiras para passar o tempo? Eis o fiapo de enredo, que abarca as deliciosas estripulias com bolas, guarda-chuvas, baldes, velas.

O casal de palhaços está muito bem caracterizado pelos figurinos de Maria Eugênia Ramos (macacões amplos, com botões enormes e cores que remetem ao escuro de um dia chuvoso, sem perder o tom lúdico). A cena da goteira nos baldes fica linda e rica, graças ao auxílio luxuoso da acertada iluminação de Marcos Tadeu Diglio. A poesia cênica brota inusitadamente de detalhes simples e ingênuos, como o lenço que a gente pensa que voa por causa dos sopros de um miniventilador – mas é pura trucagem de circo!

Os números finais de equilíbrio em arame são os mais fracos: carecem de um pouco mais de graça e de agilidade. No telão, as intervenções harmônicas do videodesigner Giuliano Scandiuzi enriquecem bastante a montagem, com simulação da própria chuva, geleiras, tempestades de neve e até a ‘participação’ de um elefante com sua tromba sapeca.

Quem gosta de desfile de escolas de samba conhece, talvez sem saber, outros talentos da Cia. Suno, que já assinou a coreografia da comissão de frente de escolas como a X9 Santista (em 2008) e a Gaviões da Fiel (desde 2009 até o ano passado).

Serviço

Teatro Anchieta – SESC Consolação
Rua Dr. Vila Nova, 245
Tel.: (11) 3234-3000
Amanhã (sábado, dia 27/7), última sessão da mostra, às 11h
R$ 8,00 (inteira), R$ 4,00 (meia) e R$ 2,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e seus dependentes)