Crítica publicada no Jornal do Brasil – Caderno B
Por Lucia Cerrone, Rio de Janeiro – 31.08.1991

Barra

Um pesado teste de paciência

Já dizia Franco Zefirelli: “Tudo é exequível!”. Assim, poderíamos pensar que seria de extrema facilidade levar para o palco obras quilométricas como E o Vento Levou ou mesmo Os Dez Mandamentos. Mas isso é o cinema. O primeiro, cercado de lendas, mistérios e brigas de morte, só chegou às telas porque a determinação do produtor David O. Selznick era muito maior do que a da própria Scarlett O’Hara em reconstruir Tara. O segundo, cercado de figurantes, se realiza como mais uma megalomania do diretor Cecil B. de Mille, que entre um “Corta!” e um “ação!” entregava seus companheiros ao Comitê de Atividades Antiamericanas. Com muito glamour, é claro.

Obras quilométricas são exequíveis ou não? Don Quixote, em cartaz no Teatro de Arena, enfrenta esse problema. Adaptada por Wagner Campos diretamente da obra de Cervantes, o texto chega pesado ao palco, numa sucessão de cenas desamarradas, não como uma alegoria da loucura do Cavaleiro Andante,mas como um teste ao poder de concentração da platéia.

Divulgado para o horário das 16h30, o espetáculo começa meia hora antes, atendendo somente aos ansiosos que sempre chegam com antecedência. Uma hora depois de iniciada a peça, o público continua chegando e se acomodando da pior maneira possível, todos espremidos numa única lateral.

Se a extinta TV Tupi, criou o Teatro Vanguarda, poderíamos dizer que a direção de Cláudio Torres Gonzaga, propões o teatro de retaguarda. Cenas inteiras são passadas com os atores de costas para a citada lateral ocupada, como se a montagem fosse concebida para o palco italiano. Apesar desses contratempos, o espetáculo é cuidadoso em seu aparato cênico e mesmo a direção tem momentos brilhantes de ocupação da arena. As cenas, embora soltas e utilizando como fio condutor apenas a narração monocórdia do ator Jaime Leibovicht no papel de Cervantes, são feitas com seriedade e se revelam, em alguns momentos, praticamente interessantes.

Os figurinos de Rosa Magalhães retratam suas duas especialidades: figurinista e carnavalesca. Em alguns momentos a artista nos mostra uma commedia del’arte perfeita: quando veste personagens do povo, é a figurinista que está atuando. Os nobres e as damas da corte, porém, são para verem vistos de longe, como na Passarela do Samba.

Se o texto é prolixo e carregado de expressões há muito em desuso, a atuação super dramática de Almir Martins como Don Quixote não lhe empresta maior agilidade. O mesmo não acontece com Sancho Pança de Marcelo Salgado, composto com ingenuidade e ternura. Jairo Lourenço, coringando diversos personagens, dá vitalidade às cenas de que participa, assim como a atriz Carmen Frenzel, principalmente quando encarna a desengonçada Mari-tornes.

Com 1h45 de duração, Don Quixote é um espetáculo para o público infanto-juvenil que já conhece a obra em alguma de suas versões publicadas. Como aconteceu no último domingo, quando a platéia era composta, na totalidade, pelas alunas do Saint Patrick, que lá estavam a conselho da professora e que “entenderam tudo”.

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