Carlos Augusto Nazareth

Barra

Eu não Faço Trabalhos pra Crianças, e sim para a Minha Criança

Um terapeuta disse que quem escreve para criança faz um expurgo da alma, com o que existe de mais puro. Na verdade trabalhar para a criança é trabalhar com a essência do ser humano antes de se corromper com o passar do tempo. O que me atrai no teatro pra crianças é possibilidade da concretização do onírico.

O trabalho teatral para crianças permite trabalhar com o mágico, com a fantasia, com o impossível e ali a ficção e realidade ocupam, mais que nunca, o mesmo plano. Chega-se à criança pelo sensível, muito mais que pela palavra; é o conjunto de estímulos que sensibilizam a criança e a preparam para receber o que o autor deseja dizer e interagir com o espetáculo, penetrando nele por brechas criadas pelo autor e pelo diretor que permitem a empatia, simpatia, o vivenciar sentimentos e emoções que estão no palco, permitindo, assim que o teatro cumpra a sua função.

Além disso, a minha formação é de professor. Sou um educador. Me formei em Literatura Brasileira pela UERJ e durante quinze anos dei aulas nos Município, no Colégio Andrews, CEL, Anísio Texeira; fui diretor e dono de colégio; sempre lidei, portanto, com esse universo. E é um lidar definitivo, pois quanto mais escrevo para crianças, mais aprendo sobre a essência do ser humano, da parte que mais me atrai no ser humano, pelo menos. Nunca tive a menor vontade de montar nenhum espetáculo adulto; o que não quer dizer que não o faça nunca.

Na Verdade, Eu Sempre Fui um Grande Espectador

Quando me perguntam por que teatro é claro que eu não sei responder. Por parte de meu avô materno, toda minha família é de musicistas, concertistas, cantores de ópera, além do que meu avô materno foi dono de circo e dos Pavilhões Azuis, onde se apresentaram Jararaca e Ratinho, Arrelia, Chincharrão, Dercy Gonçalves. Eu cresci em meio as histórias que ouvia como aquela da prima que fugiu com o domador do circo – melhor mote do que este para um texto não há.

Por parte de pai os Nazareth têm uma história. Na música o expoente é Ernesto Nazareth, no Teatro tem o Cândido Nazareth, ator consagrado, avô da Zilka Salaberry, irmã de Lurdes Mayer e Alair Nazareth que são filhas de Luiza Nazareth. Eu vivi toda minha infância entre a música, o teatro e o circo. Além disso, eu morava na Tijuca e ia todo sábado ao teatro no centro da cidade. Tinha dez anos e ia sozinho assistir Eva Tudor, Alda Garrido, Dulcina de Moraes e até Conchita de Moraes, mãe de Dulcina, já em cadeira de rodas, mas no palco, em As Árvores Morrem de Pé. Isto para mim é um privilégio e não que tenha cem anos, como pensam quando conto isto. É que era incomum para a minha idade e para aquela época.

Nessa época eu alimentava um grande desejo de ser ator. Mas incoerentemente minha família, de artistas, era tradicionalmente contra e eu não consegui romper a barreira. Mas sempre fui um bicho de teatro. Aos sete anos ia assistir ensaios de óperas e ballett no Municipal, para mim, imenso… E apaixonante. Me apaixonei ali pelo “backstage”, até hoje. Jitman Vibranowsky, meu amigo há 30 anos, é que, tempos depois dizia, este teu rondar o palco é vontade de subir nele.

O Encontro Definitivo com o Teatro. 

A minha formação acadêmica foi em Literatura Brasileira em 1973, pela UERJ. Me especializei em crítica Literária e Literatura Infantil, cujo universo era de grandes e poucos nomes. Eram Lobato, Cecília, Maria Clara. Dei aula durante quinze anos e sempre me utilizei dos textos de teatro da Maria Clara Machado, levava meus alunos ao Tablado e trazia Ilo Krugli em 1975 ao Colégio Andrews. Era o teatro no DNA, na minha formação, e o paralelo na profissão. Mas só em 1980 fui ter um contato efetivo com fazer teatro, em 1980, através de Amir Haddad.

Comecei frequentando as Oficinas dadas por Amir e o Grupo Tá na Rua na CEL. Ali, durante três anos fiz parte do que o Amir chamava do Instituto do Tá na Rua. Éramos nós, aprendizes de feiticeiros, que com o mestre Amir aprendíamos tudo. Marilena Bibas, Sérgio Lutz, Ricardo Pavão, Lucy, Rosa, eram muitos os mestres.

Em 1984 fomos para o Teatro Villa-Lobos com o projeto Novos Rumos Novas Caras. Não era uma formação acadêmica, formal, e não podia ser sendo Amir. Tudo que aprendi de teatro além do genético, do espectador que sempre fui, da paixão, vocação e intuição, aprendi com Amir. Tanto que dedico a ele e ao Tá na Rua um dos meus espetáculos. Amir foi quem, sem dúvida, pelo seu brilhantismo e carisma me inoculou o vírus do teatro. Gênio, bruxo, tenho uma enorme dívida com ele. Fazer teatro, para mim é viver e Amir me presenteou com a vida.

O Caminho até a Profissionalização

Nesse ínterim pedi transferência para a Secretaria de Cultura, onde trabalhei no Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, em Santa Tereza, no Palco sobre Rodas, na Diretoria de Bibliotecas, como assistente da diretora Ana Maria Deslandes. No Centro Cultural, fui chamado para dar a parte de texto num curso de teatro, onde Rogerinho Wiltgen dava os primeiros passos na luz, acabei codirigindo o espetáculo, chamado Recorte e Colagem. Foi quando João Gomes, através de amigos comuns, me chamou para produzir Palhaçadas de João Siqueira, no Teatro de Arena. Xodó fazia a trilha João dirigia, fazia cenários e figurinos e atuava.

Na verdade eu devo a três pessoas minha vinda para o teatro. A primeira é o Amir por ter me contaminado, o segundo o João por ter me chamado para fazer uma produção e ter me mostrado os bastidores, que é uma coisa que me fascina até hoje e a terceira é a Alice Koënow que, objetivamente me pediu que escrevesse um texto para teatro. E já que eu gostava tanto de Cecília Meirelles, que fosse sobre ela.

O texto Cecília era uma adaptação de Olhinhos de Gato, uma autobiografia de Cecília, com alguns poemas de Ou Isto ou Aquilo. Ali trabalharam pessoas pelas quais tenho, até hoje, imenso carinho. Mônica Biel, Ana Barroso, Zeca Bithencourt, Caíque Botkay. O espetáculo teve uma excelente crítica de Eliana Yunes, então na Tribuna da Imprensa, e do saudoso e competentíssimo Sérgio Melgaço. Foi indicado no Coca-Cola para Melhor Direção, Melhor Música e Melhor Iluminação; além do texto era coprodutor do espetáculo e me senti premiadíssimo.

Uma produtora de Belo Horizonte, Beth Haas, que havia levado Cecília para Minas me pediu um texto para dois atores, e eu escrevi A História de Tony e Clóvis, que é um espetáculo de palhaços, cujo texto foi escrito em cinco horas – da meia-noite as cinco, sem a menor pretensão. Hoje vejo que ali estava toda a memória das histórias dos circos de meu avô. As histórias e até mesmo as piadas de Chincharrão e Arrelia, contadas por minha mãe. Foi montado em Minas, no SESC com o nome Vida de Palhaço.

Ao voltarmos para o Rio resolvi remontá-lo com outro elenco, para projeto-escola, apresentações em entidades de classe, e sempre as pessoas diziam que eu não valorizava o texto que tinha em mãos. Meu amigo Jorge Crespo dizia que o papel de Tony era para dar prêmio a um bom ator que o fizesse. E deu. Wilson Belém foi, nesse ano, o Prêmio Coca Cola de Melhor Ator.

Tony e Clóvis foi minha primeira direção profissional. Tinha uma ideia na cabeça, uma câmera na mão, meus 30 anos de espectador, e minha experiência com Amir. Resolvi dar uma nova roupagem ao espetáculo e tive sorte de me cercar da melhor equipe. Mirella Noccera, talentosa, fez os figurinos, Alexandre Pring os cenários e adereços. Chamei Vera Lopes, minha amiga até hoje para coreografar. Procurava músico e ela me indicou um “rapazinho que está começando, que ganhou o festival amador de Cabo Frio”. Era Marco Aurê que chegou, ficou e foi meu diretor musical por quase dez anos. Recebeu depois o Prêmio Coca Cola com outras indicações e fez muito sucesso. Os atores eram Wilson Belém, Matheus Esperança, o palhaço Pam Pam que é a quinta geração de uma família de palhaços, todos Tonys e Mamma Nanny.

Estreamos no Mercado São José, também sem nenhuma pretensão, com luz então do já profissional de mão cheia, Rogério Wiltgen. Fui para fora, não convidei críticos, nem jurados. Até que meu produtor executivo, Paulo Nunes, me ligou e pediu que eu voltasse, porque a crítica queria fotos, os jurados a ficha técnica, etc. O Prêmio Coca-Cola fez indicações para Melhor Texto, Melhor Produção, Melhor Coreografia, e Melhor Ator, como já disse.

Depois remontei o espetáculo com o Rogério Freitas e Diógenes Pessoa que viajaram por vários estados do Brasil para um público de cerca de dez mil pessoas em três anos.

Nessa época começava o “boom” do teatro para crianças. E minha amiga Lúcia Cerrone começava a trabalhar no JB; era a sua segunda crítica. Ficou vivo até o ano passado, em sua última versão com Fábio Freitas e Leonardo Carnevalle.

Paixão, Patrocínio e Ofício

Nesta época não havia patrocínio. Apenas a paixão e o desejo de fazer teatro. A gente era contaminado, queria fazer e fazia… Nesse ano do Tony e Clóvis, a Márcia Frederico fez O Segredo Bem Guardado, também sem patrocínio e era aquela preciosidade de espetáculo. Era muita paixão, pouco dinheiro e um resultado maravilhoso, porque as pessoas que entravam nos projetos entravam pelo coração.

Depois da instituição do patrocínio, mudou muito a cara do teatro infantil. Muitas coisas boas aconteceram, mas, hoje, não consigo ver um saldo positivo consistente. Abro hoje o jornal e me parece que retrocedo 15 anos. Perdemos muito espaço, a maioria dos realizadores sumiram, restaram aqueles que bravamente lutam quase que sozinhos: Karen Accioly, com a Light, Dudu Sandroni, com o Ziembinski e Cacá Mourthé com o Tablado. Os patrocínios trouxeram um bem: a profissionalização. Difícil é conseguir se exercer o teatro como ofício.

E esta é uma questão pessoal pela qual sempre me bati. Depois de Tony e Clóvis me propus a dois objetivos: ser um profissional respeitado e viver do meu ofício. E vivi durante sete anos, trabalhando 24 horas por dia em função de teatro, até 1997, quando fui obrigado a parar por questões de saúde. Acho que para você se sentir realizado tem que sobreviver da sua profissão. Se o teu produto é bom, alguém tem que comprar.

A partir daí fiz tudo, fui produtor, vendedor de espetáculos, aprendi a fazer luz, som, bilheteria, administração. Hoje, não tem nada que não saiba fazer. Eu acho isso fundamental para você dirigir. Conhecer a “cozinha” do seu “métier” é fundamental. Fiz cursos de roteiro, de luz e outros mais. Era uma sede de me preparar prática e teoricamente.

A Continuação do Ofício

Em 1992 montei O Misterioso Rapto de Flor de Sereno. Também estreou no Mercado São José, com luz de Rogerinho e figurinos, indicação para o Prêmio Coca Cola, e cenário de João Gomes. O texto é uma adaptação do clássico da Literatura Infanto-Juvenil, Prêmio Jabuti de literatura, de Haroldo Bruno. Esse trabalho foi a minha grande experiência com texto, adaptado de cordel.

Logo depois Magda Modesto me convida para fazer um curso de direção de teatro de bonecos com Margaretha Nicolescu, diretora do Teatro da Romênia, e do Centro de Teatro de Marionettes de Charleville sur Mèziere, na França. Em Arcozelo reuniram 15 diretores da América Latina, e do Rio estavam Susanita Freire e eu. Foi um aprendizado intensivo, com aulas das oito da manhã até a noite, vídeos até a meia-noite, com paradas só para almoço e jantar. Nesse curso levei o esboço de O Pássaro do Limo Verde para ser analisado.

Eu sempre tive um interesse imenso pela cultura popular. Quando estive no Nordeste, em João Pessoa, na Praça dos Cem Réis, comprei um cordel: O Pássaro do Limo Verde, contado pela Maria das Neves Pimentel, a primeira cordelista do Brasil e como mulher não podia publicar cordel, usava o pseudônimo de Altino Pimentel. Mais uma vez a encomenda. Susanita Freire me havia pedido um texto para teatro de bonecos. Adaptei o cordel que havia trazido de João Pessoa: O Pássaro do Limo Verde. Como este texto era baseado num conto de fadas e ela já havia montado muitos do gênero, não se interessou por montá-lo. Resolvi então montar, com uma leitura bem brasileira do conto de fadas.

Neste espetáculo eu consegui articular toda a minha bagagem adquirida. Eu tenho certeza que a maneira como foram realizados os ensaios, foi fundamental para o sucesso que foi. Não se tinha um tostão. Eu transformei a minha casa numa sala de ensaios. Foram quatro meses em que de manhã, eu ensaiava os músicos, de tarde os dançarinos, de noite os atores. O cenário foi construído aos poucos. É um processo que é impossível de se fazer hoje em dia. Ninguém mais topa. A primeira coisa que se quer saber é quanto se vai ganhar. Não vai nenhuma crítica nisso, mas teve uma mudança de mentalidade que é uma coisa da profissionalização do mercado. Se comprava um café, um pão com manteiga e se trabalhava. Ninguém perguntava antes mesmo de começar os ensaios se tinha apoio de restaurante para jantar. E é claro que com este espírito sempre sai um espetáculo divino, porque as pessoas estão inteiras, envolvidas até a medula. Não que eu pregue a pobreza, mas seria muito bom se a gente tivesse essa relação, além das condições financeiras necessárias.

O Pássaro e depois do Pássaro

O Pássaro estreou no Paço Imperial em 1994, tendo tido indicações para o Coca-Cola nas categorias de Melhor Texto, Melhor Direção, Melhor Música, Melhor Coreografia, Melhor Cenário, Melhor Figurino, Melhor Produção, e pela primeira vez se indicava na categoria Melhor Espetáculo. Ganhamos os Prêmios de Direção, e Melhor Espetáculo; no Mambembe foi indicado para Melhor Direção, Melhor Texto, Melhor Ator, Melhor Cenário e Melhor Figurino, vencendo nas categorias de Melhor Diretor e Melhor Ator – Rogério Freitas. Foi ainda indicado como Melhor Espetáculo do eixo Rio-São Paulo para o Prêmio Sharp. O texto teatral foi editado pelas Memórias Futuras e vendeu mais de 40.000 exemplares. Sucesso absoluto de crítica, público e um dos espetáculos de teatro infantil mais premiado de todos os tempos.

O Pássaro foi um espetáculo que me deu muito prazer. É um espetáculo que me agrada até hoje, embora não seja o que eu mais goste. Hoje eu não faria um outro Pássaro. Minha cabeça já mudou, mas foi um espetáculo que atendeu a todo mundo. Agradava crianças, adultos. Um teatro popular. Ficamos muito tempo trabalhando com ele, mas chega um tempo que a gente tem que parar. O espetáculo acaba se deteriorando e não se consegue mais o brilho que tinha. E ficar fazendo um espetáculo que era tão luminoso, sem brilho é muito triste.

A Lúcia Coelho quando foi ver o espetáculo me disse: “Cada diretor tem um espetáculo seu, que não se livra nunca mais. Assim como o Ilo Krugli tem Histórias de Lenços e Ventos, eu tenho o Tá na Hora, Tá na Hora, o seu será O Pássaro do Limo Verde. A tua referência sempre será este espetáculo, e isso vai ter uma hora que vai te irritar, mas não tem jeito. E o pior não vai ser isso. Será o espetáculo que você vai fazer depois dele.” E realmente foi – sábia Lúcia.

Eu poderia repetir a fórmula do Pássaro trinta vezes com sucesso, mas eu acho que isso um erro e uma chatice. Mas muitos fazem. Cada espetáculo meu é diferente um do outro embora as pessoas reconheçam minha assinatura. É uma característica que eu procuro seguir, não me repetir. É uma maneira de me exercitar, enquanto criador.

Com o reconhecimento, chegam os convites. Fui convidado para fazer parte do júri do Prêmio Coca-Cola e também dirigir a festa das Premiações, ano seguinte, pela primeira vez no Canecão. Um desafio, que deu certo.

Comecei a fazer crítica para o Jornal do Comércio e também recebi meu primeiro patrocínio da Coca-Cola, que foi para o espetáculo Petruska, que considero minha mais desastrosa experiência no teatro. Não posso dizer que foi um fracasso, mas foi a que menos prazer me deu. Menos retorno em qualquer sentido.

Ganhei um bom patrocínio da Coca-Cola, ainda coloquei uns oito mil reais meus, além das permutas. Na época eu calculo que a produção tenha saído por uns sessenta mil reais. Não sei hoje, corrigindo os valores quanto daria. O que aconteceu é que espetáculo era plasticamente deslumbrante, mas como teatro ele não te prendia. Teve muitas causas. Mas eu acho que uma delas, foi a relação com o dinheiro. O compromisso das pessoas era completamente diferente. Fui trabalhar com pessoas com quem nunca tinha trabalhado antes. A única pessoa com quem eu já havia trabalhado era a Vera Lopes. Toda a equipe fez o melhor que pode, acredito, mas a gente não tinha aquele aceitamento dos espetáculos anteriores, nem a paixão. Era tudo muito frio, muito burocrático. Nunca tomamos chopp depois do ensaio… A relação com os atores era muito difícil, tudo era muito comercial. Vai ter hora extra? Não tem, não ensaio! Que era uma forma de relação que eu nunca tinha vivido. E isso foi uma coisa que me desgastou profundamente.

Houve um erro meu fundamental que na época ninguém detectou. Quando eu via o espetáculo eu dizia, eu não gosto, mas não conseguia entender o porquê. Peguei o texto e juntamente com o Luís Carlos Maciel fomos analisar o que acontecia. Ele descobriu em segundos um erro de dramaturgia elementar. Eu tive a pretensão de desenvolver dois núcleos centrais que se alternavam durante a narrativa. O que acontecia? O público não se envolvia, nem com um nem com o outro. Quando ele começava a se envolver com um, entrava o outro núcleo. E é fundamental essa entrada do espectador na história para criar empatias e antipatias, ficar contra ou a favor, e essa falha dramatúrgica não permitia. Queriam que eu reescrevesse e remontasse, mas eu acho que se uma coisa dá errado, o melhor é botar um ponto final e partir pra outra.

Foi o espetáculo depois do Pássaro – já previa Lucia Coelho. Havia uma expectativa da classe, que antes do Pássaro não me conhecia e que foram ver “o que é que esse cara fez agora”. A classe queria ver o que eu tinha feito – três dias antes da estreia, o teatro já estava lotado pelo final da semana inteiro. Os atores queriam o sucesso e os prêmios do Pássaro como isto fosse uma fórmula. Não havia, enfim, entrega nem paixão. Foi uma experiência traumática. Enfim, cumpriu a temporada mínima e necessária de três meses. Mesmo assim, tivemos boa crítica e fui indicado na categoria de Melhor Produção e o Ronald Teixeira ganhou o Prêmio de Cenografia. E novamente o Prêmio Sharp, indicado como Melhor Espetáculo. No Mambembe foi indicado nas categorias de Melhor Atriz, Melhor Cenário e Melhor Figurino.

Outras Atividades

Logo em seguida lancei o Jornal Vertente, dedicado a toda produção cultural destinada a criança e ao adolescente. Foi um sucesso editorial, mas economicamente é impossível manter um jornal alternativo por muito tempo. Continuei a fazer críticas no Jornal do Comércio, fui jurado da Coca-Cola. Ocupei-me um pouco mais da literatura e publiquei um livro novo: O Menino Detrás das Nuvens. Não era minha intenção transformá-lo em texto teatral. Eram três contos: o primeiro que dava o nome ao livro, os outros O Menino Atrás do Morro, O Menino Atrás do Circo. Era a trajetória de uma menino do interior até se encontrar através da magia da arte. Uma profissão de fé do artista. O livro foi muito bem aceito pela crítica, teve resenhas ótimas e ganhou o selo “Altamente Recomendável” da Fundação Nacional de Literatura Infantil e Juvenil. Mas… acabamos no teatro.

Para mim, O Menino Detrás das Nuvens  é o espetáculo que eu mais gosto. O Pássaro é um espetáculo alegre, popular. Tem música, dança, humor, tem bonecos, tem enfim todos os elementos possíveis para cativar o público. O Menino é um espetáculo introspectivo, mas que prende a atenção das crianças de uma maneira tão forte ou mais que O Pássaro. Dava para se ver as crianças emocionadas. Era um espetáculo que eu quis fazer propositalmente todo coreografado, lento. Era operístico, uma vez que construído sobre uma partitura, onde buscamos um som ímpar. É um espetáculo que veio muito mais de dentro que os outros, e é o que mais tem a minha cara. É o meu espetáculo mais maduro e mais querido.

Voltei para a minha velha e conhecida equipe, feliz, depois da experiência de Petruska. Marco Aurê na direção musical, minha amiga Marilena Bibas, dos tempos do Tá na Rua, Marisa Avellar, uma de minhas atrizes favoritas dando um banho de talento. Rogério Wiltgen, um banho de luz deslumbrante. Estreamos no Centro Cultural Gama Filho, que nos patrocinou e lá ouvi de Lucia Coelho: “É a luz mais linda de teatro infantil que já vi em toda a minha vida.” Muitas vezes os prêmios não são os oficiais.

Depois fomos para o Cacilda, onde também foi lindo, e depois seguiu sozinho para São Paulo, na mão de outras pessoas que acabaram com o filho mais querido. Mas a memória e o prazer do Rio ficaram eternos. Novamente muitas premiações. No Mambembe indicado para Melhor Texto e Melhor Ator, vencendo na categoria Melhor Ator. No Festival Nacional de S. José do rio Preto levou nove dos onze prêmios.

Afastamento Forçado

No decorrer dos ensaios de O Menino eu comecei a ter problemas de saúde. Um mês antes da estreia tive que ser internado, mas aquela adrenalina me fez chegar até o final, mas quinze dias depois da estreia eu estava operado do coração. Não foi uma operação bem sucedida. Fiz três safenas, duas logo entupiram. Tive que fazer várias angioplastias, colocar vários stents para compensar esse fechamento. Foram quatro intervenções nestes dois anos.

Eu me afastei completamente nesses dois anos. Fui morar numa casa no Recreio dos Bandeirantes, em frente à praia, com piscina, para descansar e criar cachorros. Não queria saber de nada. Só jardim e rede. Não ia ao teatro. Fiquei absolutamente isolado de tudo. Repensando a vida. Não adiantava eu querer começar um projeto e não ter fôlego para continuar. Agora, depois da última operação, há seis meses eu tive uma melhora considerável.

Voltando à Literatura: A Coleção Vertente Teatral

Depois de 1997, eu comecei a me dedicar muito mais à literatura, porque é uma atividade mais tranquila. Eu sempre escrevi para o teatro. Nunca com o objetivo da publicação em si. Assim mesmo eu já havia publicado vários livros. (N.R. ver no final a relação dos livros) Com esse afastamento, eu comecei a escrever mais. Já estou com cinco livros de histórias de ficção para crianças que saem em 2001.

Com o Marcus Queiroz da Editora EDC, consegui organizar uma coleção de textos teatrais, que era uma ideia minha antiga. O documento que se tem do teatro é o texto. O CBTIJ, agora, está fazendo um trabalho fundamental de Memória, resgatando informações neste site. Mas o documento principal é o texto. O teatro é efêmero, embora eterno; o texto é eterno, enquanto documento. Eu vi espetáculos maravilhosos Marat, Marat, O Balcão, O Último Carro. É fundamental o registro da Memória do nosso teatro, por todos os meios que dispomos hoje.

Levamos muito tempo até encontrar uma fórmula para publicar a coleção. Na verdade eu não queria só fazer o texto. Queria também colocar uma grande gama de informações. Depois chegamos à conclusão que se fosse muita informação, só o profissional e o amante de teatro se interessariam. Tinha também que se ver o lado comercial da publicação. Até encontrar esse meio termo, foi um tempo.

A coleção abordaria, de início, dos anos 70 em diante, com peças que tiveram uma grande repercussão. Nos anos 50, se tem basicamente os textos de Maria Clara Machado, que já tinham sido publicados. Só que, quem escreve especificamente para teatro, faz uma coisa meio que roteirizada, sem muitas explicações para um público apenas leitor. E essa é uma razão de não termos escolhido peças que foram grande sucesso e que são marcos na história do teatro infantil, porque eu precisei equalizar o espetáculo e texto.

Às vezes um texto, enquanto montagem é maravilhoso, enquanto lido, já não é tão interessante, porque na verdade são as outras linguagens, que não a textual, que fazem o espetáculo. Não que o texto seja ruim, mas o texto entra como um elemento a mais na montagem. Encontramos muitos textos assim, de espetáculos de sucesso.

Isso acontece muito. Comigo mesmo, quando a Nova Fronteira me convidou para publicar A História de Tony e Clóvis, eu tive que colocar o vídeo e reescrever a história toda para o leitor leigo. Nesta coleção já publicamos Histórias de Lenços e Ventos de Ilo Krugli e O Segredo Bem Guardado de Márcia Frederico. Até o final do ano serão lançados Tudo por um Fio da Maria Clara Machado e Cacá Mourthé, Papagueno do Tim Rescala, O Cavalo Transparente da Sylvia Orthof e o meu O Pássaro do Limo Verde.

Esta coleção não tem a intenção de ser finita. O que temos que fazer é trabalhar e vender, afinal uma editora vive de suas publicações e já temos mais um livro engatilhado para o ano que vem, da Sonia Rodrigues A Princesa do Meio, outros em entendimentos, um mais para jovens da Ana Maria Machado, uma adaptação de Os Três Mosqueteiros e a trilogia do Rogério Blat, espetáculos sobre o Rio, que foram montados no Calouste Golbenkian.

Projetos

Voltar a dirigir. Um projeto ainda em segredo. Continuar a me dedicar cada vez mais à literatura. Publicar novos livros e coordenar novas coleções de literatura. Um desejo grande de reerguer o Vertente.

Teatro Ainda não Faz Parte da Vida do Brasileiro

Para você ver como existe um desconhecimento absoluto do fazer teatral, estive outro dia num Shopping. Estavam apresentando uma pseudo peça. Eu fiquei com vergonha do que via. E isso acontece por quê? Eu perguntei a produtora quanto eles estavam ganhando pela apresentação “Cento e cinquenta reais”. Na verdade o Shopping está tendo o espetáculo que merece. É claro que o público não. Merece o melhor, mas quem faz a programação, não deve ter noção do que seja teatro.

Durante a temporada de Petruska, o Sérgio Brito contava que uma amiga sueca veio morar no Brasil e tinha pedido que ele a ajudasse a fazer uma previsão de custos de sua despesa mensal. Entre os itens que ela havia arrolado, estavam: apartamento, comida, transporte, roupa, remédio, teatro. Porque teatro para ela era tão importante quanto moradia, alimentação e transporte.

Para o brasileiro não, isso não faz parte da nossa cultura. Para melhorar essa situação deve-se fazer uma ação muito eficaz, de todos os lados. Dos órgãos governamentais, das entidades civis, da classe, das editoras, porque se não… Mesmo se fazendo, as coisas já demoram a acontecer, não se fazendo não vão acontecer nunca.

De Crise em Crise

Há quinze anos atrás, além de O Tablado, não existia teatro infantil. É claro que sempre houve ações isoladas, alguns autores. Havia a Denise Crispun e afora algumas outras produções, nada que me tenha marcado. Quando eu era pequeno ia à vesperal ver Eva Todor e não teatro infantil, porque eu odiava, era muito ruim.

Quando comecei a fazer teatro infantil era dificílimo conseguir uma pauta em teatro. Havia produtores que faziam coisas horríveis, mas enchiam teatro. Como eles faziam? Pegavam um texto conhecido, geralmente da Maria Clara Machado, arregimentavam os atores na esquina, sempre adolescentes. Pagavam 1% da bilheteria, e todo elenco ficava fantasiado na rua distribuindo filipetas, e enchiam os teatros. Não adiantava você levar seu projeto, que eles monopolizavam as pautas, e a gente não conseguia espaço.

Há Crise, mas Creio que esse Tempo Troglodita já Passou.

A crise do teatro infantil é a crise do ser humano. O livro tem, por detrás, uma indústria, assim como o cinema; hoje, o futebol é a própria indústria. Cultura e lazer têm que ou dar lucro ou primeira página de jornal para interessar a quem quer que seja: Governo ou Empresa. O teatro é artesanal. E o artesão é o homem, o indivíduo. Como sobreviver com este artesanato? Está em crise O Homem.

E não é só a eterna crise do teatro, é a eterna crise do infantil. Dos professores os mais mal preparados e os mais mal remunerados. A Literatura Infantil sobrevive bem, e em expansão, não pelo leitor autônomo. O leitor é o aluno que a escola faz ler. Essa mudança ocorreu em 1973 com a primeira lei de Diretrizes e Bases que tornava obrigatória a leitura de livros de ficção na escola. As editoras têm o poder de manter esta situação, mas ela não reverte. Não somos um país ledor. E hoje o Banco Mundial se preocupa com isto. E se espantem! Descobriram que não lemos teatro! Se nem estamos nem conseguindo fazer!!!

Mais particularmente é impossível não falar da era Coca-Cola de boas e más heranças. O dinheiro foi injetado neste segmento do mercado. Com isto, por um lado se inflacionou o mercado, por outro, se profissionalizou o teatro infantil. Mas como toda empresa patrocinadora, não estava interessada no Teatro e sim na sua divulgação e no ganho dos seus gerentes; como projeto de Marketing Institucional durou até mais tempo que o normal. E o que restou? Cinzas sobre cinzas. Não adianta colocar outra empresa no lugar. O governo tem que querer, a classe tem que querer, o CBTIJ tem que ganhar força política para ter poder de ação, a exemplo da FNLIJ na Literatura Infantil que cada vez mais ganha espaço, poder e com isto poder de fogo, de pressão, de realização. Dizer que a classe é desunida é uma bobagem. Com exceção talvez das dos metalúrgicos, todas são. Sempre há um grupo de heróis que levam à frente, por idealismo, paixão, ou sei lá mais o quê.

Para terminar gostaria de dizer que sempre me incomodou falarmos em formação de plateia, quando espetáculos de qualidade de Teatro Infantil, só existe da Tijuca (depois do advento do Ziembinski) à Barra. E o teatro ao longo da linha do trem??? Em Belford Roxo, numa palestra pelo Leia Brasil, para 300 professores, ávidos de saber, 95% nunca tinha ido ao Teatro. “Apesar de Thereza Rachel ter nascido aqui” ironizavam eles.

O Teatro não morre jamais! Mas ouvi uma lição da que considero mestra, minha querida Lídia Kosovski. Ela dizia mais ou menos isto: “o espaço de todas as artes se reduz com o tempo. Na era palaciana o pintor era o repórter de seu tempo. Hoje nas poucas galerias de Artes Plásticas há duas pessoas vendo uma exposição. Mas as artes plásticas, a pintura, especificamente falando, não morre. Se reduz seu espaço.”

O Teatro teve o seu momento desde o início dos tempos e não morrerá jamais, mas seu espaço já se reduz, sem dúvida. Os cinemas, que têm a indústria por trás, fecham. Num bairro do Rio fecharam 14 cinemas em um ano abriram apenas três num Shopping. Não há mais as filas quilométricas para nenhum filme. Os tempos mudam e nada é catastrófico. Apenas um novo tempo, onde vamos encontrar um novo espaço, uma nova forma de realizar o nosso fazer artístico. O perigo é querer ficar repetindo situações passadas que não voltam jamais, pois a dinâmica do mundo contemporâneo é cada vez mais célere. É buscar novos caminhos, novas formas, sem saudosismos – caminhar em busca do novo sobre 2.000 anos de tradição. É saber da História para continuar escrevendo-a e atualizando-a dia a dia, companheira de seu tempo.

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Participação em Espetáculos para Crianças e Jovens

Como Autor

1989 – Cecília, texto a partir de Cecília Meireles, direção Alice Koënow

Como Autor e Diretor

1991 – A História de Tony e Clóvis
1992 – O Misterioso Rapto de Flor do Sereno
1994 – O Pássaro do Limo Verde
1997 – O Menino Detrás das Nuvens
2004 – O Menino Detrás das Nuvens

Como Diretor

1995 – Petruska, da obra de  Igor Stravinsky, Alexandre Benois e Michel Fokine
2002 – O Cavalo Transparente, texto de Sylvia Orthof
2005 – As Incríveis Aventuras de Zé Grande e Seu Fiel Companheiro Manduca, da obra de Haroldo Bruno
2007 – Viajante das Estrelas, texto de Silvana Lima

Livros Publicados

O Pássaro do Limo Verde – Memórias Futuras
A História de Tony e Clóvis – Nova Fronteira (Prêmio Altamente Recomendável – FNLIJ)
O Menino Detrás das Nuvens – Contos – EDC
O Menino Detrás das Nuvens – Teatro – EDC (Prêmio Altamente Recomendável – FNLIJ)
Coleção Vertente Teatral, Coordenação – EDC (Prêmio Altamente Recomendável – FNLIJ)
O Pássaro do Limo Verde, Narração – Ilustração Elvira Vigna – Franco Editora
Filomena, Novela Infanto-Juvenil – DCL Editora
O Que é Qualidade em Literatura Infantil, Organização Leda Oliveira – DCL Editora

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Depoimento prestado em 26 de outubro de 2000 a Antonio Carlos Bernardes.