Celso e Denise: homogeneidade no elenco

Aracy Balabanian: defendendo a quase indefensável Kay Conway. Fotos: Denildo Pinto

Critica publicada na Revista Isto É
Por Marília Martins – Rio de Janeiro, 27.11.1985

 

Barra

Corrosivo retrato do tempo

Flagrantes de um aniversário, em 1919. Família inglesa de classe média. A sra. Conway e seus filhos recebem os convidados. Fim da I Guerra Mundial. E, em meio a estas cenas, relampeja, no presente, um futuro potencial. No segundo ato, truque do teatro, lá está a mesma família, no mesmo aniversário, dezoito anos depois. Começa outra guerra, a decadência financeira. O tempo não é fluxo, nem acaso. É corrosão, perceptível por um contraste violento. Em 1919, Kay Conway tem um sonho, antecipação do futuro. Mas somente a ela e ao espectador se reserva a consciência deste tempo-corrosão. No terceiro ato, retoma-se a festa original. E o fluxo vira destino, amarga ironia.

Escrita em 1937, esta peça do inglês J. B. Priestley (1894-1984) faz parte de uma trilogia sobre o tempo. Trabalha um realismo refinado, onde a ação dramática quase se congela, para privilegiar os esboços de personagens, o meio-tom, as pequenas implicâncias que se tornam ironias ferinas. Um realismo que exige um exercício de contenção e, pelos acertos da montagem, representa uma sensível ampliação dos recursos cênicos do grupo Tapa.

Neste O Tempo e os Conways permanecem as marcações coreográficas, as citações musicais, mas se retiram as ênfases. Tudo é esboço, precisão, da luz sépia e do clima de euforia de 1919 aos jogos de claro-escuro, aos movimentos vagarosos de 1937. Ao lado de uma Aracy Balabanian que defende com ardor a quase indefensável sra. Conway, a direção afinada de Eduardo Tolentino imprime uma certa homogeneidade ao elenco, onde se destacam Emilia Rey e Denise Weinberg. Enfim, o que se vê é um espetáculo bonito, emocionado, de cenários e figurinos primorosos. Mais uma produção cuidada – a sexta, apenas este ano, sem qualquer patrocínio, deste importante grupo carioca, com perfil de companhia de teatro, cada vez mais ágil e surpreendente.

Serviço:
O Tempo e os Conways, de J.B. Priestley. Direção de Eduardo Tolentino. Com Aracy Balabanian, Pedro Veras, Celso Lemos e o grupo Tapa. Teatro Ipanema, Rio