Clemente Zamora é o protagonista da montagem em cartaz no Ziembinski: barreira do sotaque estrangeiro

Crítica publicada em O Globo – Segundo Caderno
Por Marília Coelho Sampaio – Rio de Janeiro – 11.04.2004

 

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O Patinho Feio: Escolhas da direção criam obstáculos para o público

Um conto atualizado de Andersen

Os contos infantis do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen fizeram grande sucesso na época de seu lançamento, na metade do século XIX, e até hoje encantam crianças do mundo. O Patinho Feio, uma das obras mais conhecidas de Andersen, já adaptada várias vezes para o palco, ganha agora uma nova versão, de Marcus Vinícius Faustini, em temporada no Teatro Ziembinski.

A história do pequeno cisne que nasce num ninho de patos, sofrendo as piores discriminações até descobrir sua verdadeira identidade, sempre comoveu crianças e adultos em todo o mundo. Isto porque a peça toca num ponto crucial: a dificuldade do ser humano em aceitar a diferença. A versão de Faustini procura trazer esse questionamento para os nossos dias, misturando várias referências. No espetáculo, os narradores usam expressões em diferentes idiomas para mostrar como o significado de uma palavra pode ser alterado de uma língua para outra, o que não deixa de ser uma informação interessante para o público infantil.

Texto fragmentado enfraquece o personagem

Na realidade, a peça começa bem, mas parece que o autor, mais precisamente a partir da cena em que o patinho chega à cidade, vai se perdendo em suas próprias ideias e afastando este patinho feio daquele criado por Andersen. Mas não é só a estrutura do texto, fragmentado e amarrado pela presença de dois narradores em cena, que enfraquece o personagem. Ao escolher o cubano Clemente Zamora para vive-lo, Faustini cria um problema para a montagem.

Ao que tudo indica, o diretor quis ressaltar a importância da aceitação da diferença, já na escolha do protagonista. Mas provavelmente o teatro é o lugar em que a presença de um sotaque estrangeiro é mais perturbadora para o público. Para compensar essa barreira, o ator precisaria ter uma atuação surpreendente, o que, infelizmente, não acontece. Zamora parece muito pouco à vontade na pele do patinho e suas falas, embora muito poucas, são bastante inexpressivas. Como não há identificação do público com o sofrimento do patinho e com toda a discriminação que ele sofre, não há nenhuma emoção no momento de sua redenção.

O espetáculo tem um elenco grande, formado por dez atores. Entre eles, destacam-se os narradores vividos por Alexandre David e Poena, e a atriz Suzana Fuentes, uma presença marcante no palco, em seus diferentes personagens. A parte técnica está bastante equilibrada. As músicas de Kiko Horta, Pedro Miranda e Teresa Cristina são bem interpretadas pelos músicos, que se revezam em diferentes instrumentos. A iluminação de Aurélio de Simoni enriquece o espetáculo e o figurino de Lídia Kosovsky tem boas criações, como a das abas da saia da mamãe pata que se transforma num lago.

Em sua estreia no teatro infantil, Marcus Vinícius Faustini esbarra em alguns obstáculos que impedem O Patinho Feio de conquistar o público – o que normalmente se espera da transposição das obras de Andersen para o palco.