Crítica publicada no Jornal O Globo
Por Mànya Millen – Rio de Janeiro – 1996

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O Futuro Era Hoje: Impecável exercício de futurologia

Parábola Contundente Sobre a Força do Povo

Que o futuro pode ser repelente, sujo, incerto, com ruas povoadas por mutantes viciados e seres andróginos, ninguém duvida. Este mundo já foi vislumbrado de diversas maneiras, por diversos autores, em versões mais ou menos hard. Mas em O Futuro Era Hoje, quarta e última parte de uma empolgante saga sobre o Rio iniciada em Funk-se e que está de volta ao Teatro Calouste Gulbenkian, o autor Rogério Blat e o diretor Ernesto Piccolo vão além dos meros exercícios de futurologia.

Como nos outros espetáculos da série, eles cutucam o espectador de forma contundente, mas sem perder de vista o bom-humor, alertando para o fato de que o futuro, aquele tenebroso, começa agora. Ou melhor, começa no passado, nos desmandos dos políticos, nos descuidados dos cidadãos para com a cidade e os próximos, na violência gratuita que gera mais violência.

Uma espécie de parábola esperta sobre a força que reside nos cidadãos unidos, o espetáculo empolga, às vezes choca e, mesmo que o espectador não tenha visto Com o Rio na Barriga e O Passado a Limpo, cujas histórias se interligam e terminam nesta última, ninguém fica boiando na plateia. Personagens-chaves da saga sobre a salvação da cidade voltam a aparecer, como Severino, o nordestino íntegro e ingênuo que torna-se o herói ao combater o mal, embora morra na peça anterior, e a narrativa incorpora novos e impagáveis tipos.

O principal é Creuza, filho de dois transexuais que foi gerado em proveta para ser, em tese, o representante de algumas minorias: negros e homossexuais. Só que a experiência dá “errado” e Creuza, macho e revoltado com o mundo enlouquecido e decadente ao seu redor, torna-se a pessoa responsável pelo conserto do presente, no caso, o futuro. Através de experiências feitas por cientistas execrados pelo poder atual, composto por um velho rei dopado e uma velha rainha ninfomaníaca, que são destronados por outros inescrupulosos, Creuza volta ao passado e vai salvar Severino da morte.

Toda a história é contada num ritmo frenético, auxiliada por uma trilha sonora e iluminação idem e por figurinos que, embora simples são extremamente precisos e funcionais. Nada disso daria certo, entretanto, sem a conjunção do texto impecável de Blat com a direção brilhante de Piccolo, que coordena, com perícia, cerca de 60 atores em cena. O resultado faz de O Futuro Era Hoje mais um espetáculo imperdível desta dupla.