Markus Avaloni  e  Marisa Avellar : o par da peça


Crítica publicada no Jornal do Brasil – Caderno B
Por Lucia Cerrone, Rio de Janeiro – 06.06.1992

 

Barra

Versão tropical para um clássico

Quem poderia imaginar que a história do casamento do mais odiado dos insetos com um execrável roedor fizesse sucesso por tanto tempo? O máximo que se poderia esperar seria o maldoso comentário: eles se merecem. Retirado da clássica literatura infantil lusitana, a saga de Dona Baratinha e Dom João Ratão chega ao Brasil e cai no esquecimento por longo tempo, não pela espécie animal de seus protagonistas, mas porque a heroína, comentava-se na época, já havia passado da idade de casar.

O Casamento da Dona Baratinha, em cartaz no Teatro Cândido Mendes, é uma inesperada versão tropical para o clássico português, onde o texto de Matkus Avaloni brinca com os elementos das comédias de costumes, as chanchadas da Atlântida e os filmes da Sessão da Tarde, que a plateia infantil se sinta excluída dessa viagem ao túnel do tempo.

Marisa Avellar empresta a sua personagem, Maria José Barata, todo o charme de uma Sandra Dee trintona. O flat em que mora fica no subúrbio e é decorado no mais alto estilo dos anos 50, tendo como adereços uma revista O Cruzeiro, que fica em cima da mesinha, e um rádio que toca Rita Pavone em Non’ è fàcile, para citar um certo clima. Maria José, como suas antigas ancestrais, também acha um tostão debaixo do tapete, mas se recusa a cantar na janela em busca de um marido, preferindo os classificados do jornal.

Markus Avaloni compões os três pretendentes com interessantes características de interpretação. O primeiro, um leitão punk, bem ao estilo do Joelho de Porco; o segundo, um Dr. Carneiro metido a galã, que revela a sua verdadeira personalidade depois do terceiro cálice de licor, e por último um irresistível e romântico Dom Ratão, que chega conquistando primeiro a plateia e logo a seguir o coração da protagonista.

A direção de Carlos Arruda tira o melhor de seus atores, revelando uma cumplicidade cênica poucas vezes alcançada. Os cenários de Eduardo Minich e os figurinos de Mirella Cocera apresentam a montagem um toque de humor visual que lhe cai muito bem.

Ao final, depois da trágica cena da feijoada, Dona Baratinha e Dom João Ratão se encontram num paraíso tropical e dançam felizes para sempre, como faziam Carmem Miranda e Don Ameche nos inesquecíveis musicais dos anos 40.

Cotação: 2 estrelas (Bom)