Crítica publicada em O Globo
Por Clovis Levi – Rio de Janeiro – 20.06.1981

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Repetição de achados marca Kalunga-Le-Lê

Kalunga Le-Lê, musical infanto-juvenil de José Facury (texto e direção), em cartaz no Teatro Glauce Rocha, é uma peça que procura apresentar a plateia algumas ideias ecológicas, utilizando-se de mitos (Iara, Iemanjá, Netuno, Boto). Ao mesmo tempo, trabalha com dados do real; o texto faz uma relação entre os pescadores e os habitantes do mar, já que ambos estão sendo exterminados por projetos econômicos que se desenvolvem sob a desculpa do progresso. Da mesma forma como, no nosso atual mar poluído, “uma estrela-do-mar vira uma roda dentada, uma água viva é um saco plástico e uma gaivota é uma asa voadora”, da mesma forma como os elementos do mar vão se extinguindo, sendo afastados cada vez mais para longe, também os pescadores estão sendo expulsos gradativamente do litoral para dar lugar ao avanço imobiliário.

Para passar tais ideias, entretanto, o autor se utiliza de uma trama demasiadamente linear; a saída para o mar, à revolta das entidades, o encontro dos pescadores com as entidades, o regresso para casa. Para uma hora de espetáculo, sem aprofundar e desenvolver cada um desses momentos citados acaba ficando tempo demais para ação dramática de menos, o que carrega o texto para a monotonia. Monotonia essa acentuada ainda mais pela concepção do espetáculo. A encenação de José Facury tem um belíssimo achado: a formação das ondas do mar através de uma armação de finíssimos panos verdes e azuis, que são movimentados pelos atores com momentos de grande beleza plástica. Mas essa chave visual, que poderia deflagrar novos achados, se transforma na totalidade da concepção visual do espetáculo.

Para o espectador, os efeitos iniciais das ondas são estimulantes: mas ninguém resiste à repetição exaustiva desse recurso (desse e de mais nenhum outro) durante uma hora. Outro fator que amplia o crescente desinteresse pela peça está no trabalho dos atores, que parecem soltos (ou perdidos?), sem que José Facury conseguisse colocar ordem na casa e soubesse extrair mais de cada elemento; falta direção de atores. E isso é mais visível com o trabalho dos pescadores; os atores não têm energia, não tem vida e realizam um trabalho sem emoção, sem verdade.

Nós, na plateia, não nos tornamos cúmplices dos pescadores, pois não somos convencidos de que estão passando por problemas de vida ou morte. E isso tanto é verdade que, quando chega o instante do julgamento, a surpresa é total: eles estavam realmente presos? A interpretação dos atores é tão inexpressiva que eles não transmitem a angústia, a agonia, o instinto de sobrevivência. Por isso, quando são libertados e pulam de contentamento, esse contentamento se torna injustificável, já que não houve um comportamento anterior que mostrasse algum sofrimento ou alguma ameaça.

As atrizes que representam as entidades (Ana Porto e Lu Menezes) e o ator que faz a Onda Amarela, O Boto, etc, (Neu Fucks) são os responsáveis por uma levantada no ânimo do espectador, dando uma dinâmica maior à encenação. Em resumo, Kalunga-Le-Lê tema colocação de ideias interessantes; um visual belíssimo que vai se desgastando pela repetição; uma monotonia progressiva; atores mal dirigidos e criando até confusões no entendimento do espectador; e uma música gostosa, de Carlos Adriano, Edgar Bandeira e César Schimitz, no clima do que a encenação se propunha e utilizando-se de cantos de candomblé, em que se destaca a bela voz de Lu Menezes.