Crítica publicada em O Globo
Por Clovis Levi – Rio de Janeiro – 19.12.1981

 

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Jamelaço tem falhas sérias, nos conceitos e na fantasia

Jamelaço, o Primeiro Super-Herói Nacional, peça de Jorge Lins, em cartaz no Teatro da Galeria, com direção de Adélia Sampaio, pretende realizar um teatro politicamente participante para as crianças. Diferente do modelo alemão do Teatro Emancipatório, que nos visitou anos atrás. Jamelaço utiliza não apenas conceitos, mas trabalha também com a fantasia, tanto que o personagem principal é um super-herói. Entretanto, Jamelaço, o Primeiro Super-Herói Nacional tem problemas sérios, tanto na área conceitual quanto na área da fantasia.

No que se refere à tentativa de passar ideias nacionalistas e provocar atitudes participantes (em oposição a rotineiras passividade e omissão), Jamelaço consegue apenas tomar posições ingênuas e esquemáticas, obtendo, como resultado, o oposto do pretendido: as crianças e os adultos ficam muito distantes nesse tipo de tomada de posição política já tão ultrapassada, maniqueísta e vazia.

No que se refere à fantasia, havia um bom caminho a ser percorrido e talvez até tenha sido essa a intenção: a realização de um trabalho com duas leituras, com as crianças curtindo as aventuras coloridas do super-herói e recebendo, de quebra, uma visão de defesa dos interesses da Pátria, enquanto os adultos se deliciariam com a crítica à nossa colonização econômica. Entretanto, também o nível de fantasia deixa a desejar, tanto no que se refere ao texto propriamente dito quanto à montagem, com visual fraco (figurinos, cenários, luz, marcação dos atores) e sem conseguir criar climas expressivos. O autor quis ir além sem parecer ter, ainda, pernas para tanto (consta ser esse seu primeiro texto), na medida que pretendeu misturar jogos de domínio político internacional com um alerta sobre a morte do circo e com a necessidade que têm as pessoas de viver saudavelmente as suas emoções (mas, infelizmente, reprimindo-as, na maioria das vezes).

De tantas intenções, o que fica para a criança é a história (tola) de um super-herói pouco convincente, já que o personagem é representado por um ator com voz sem ênfase, um corpo mal utilizado e, principalmente, destituído de uma característica básica em todo super-herói que se preza: uma grande dose de energia.