Cena da montagem que conta a história da iluminação no Rio: atraindo multidões de crianças.
Foto Ana Branco

 

Crítica publicada no Jornal do Brasil – Caderno B
Por Lucia Cerrone – Rio de Janeiro – 05.06.1999

 

 

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Peça de Karen Acioly vira ‘cult’

O Centro Cultural Light, já no segundo ano de projeto voltado para o público infantil, vem cumprindo, muito bem, a difícil tarefa de formar plateias. Por lá, todos os sábados e domingos uma pequena multidão de crianças se reúne para rever Iluminando a História, espetáculo de Karen Acioly que se tornou um cult da temporada. A peça, que conta a história da iluminação na cidade do Rio de Janeiro, é estranhamente a de enredo menos próximo à jovem plateia. No entanto, lá estão crianças de muito pouca idade repetindo o texto da peça e cantando hits de Lamartine babo, como se fosse a música mais tocada nas paradas de sucesso. Como não deve nem mais existir a tal parada musical, fica cada vez mais difícil explicar um sucesso. Ainda bem.

Para contar a chegada da iluminação na cidade, Karen Acioly usa como fio condutor a trama romântica dos canais Vasco e Josephina, Vaga-Lume e Joaquina, que começa ainda quando o Rio era iluminado com lampiões de querosene. Num bonito jogo de luz e sombra, a peça vai se iluminando com a chegada da luz elétrica e do bonde, na mesma medida em que avança o namoro do quarteto. O resgate histórico através da vida cotidiana talvez seja o grande trunfo do espetáculo, que não acaba quando termina a sessão, mas vai embora com o espectador que sempre quer aprender um pouco mais.

Em cena, o teatrinho de bonecos de Fernando Sant’Anna dá início ao jogo teatral. Acompanhadas pelo piano de Claudia Marques, as cenas de namorico se desenrolam ao sabor proibido. Como pano de fundo das turbulências amorosas, “o Rio civiliza-se” com Pereira passos. Chega o bonde e, com ele, “tudo na vida é passageiro, menos o condutor”. Ainda na linha do tempo, uma referência bem-humorada à revolta da vacina com Oswaldo cruz. Tudo é história e diversão.

Para montar esse quadro, o elenco, que canta, dança e representa na medida certa, ocupa todo o teatro com performance impecável. Mônica Muller, muito bem no papel da mãe controladora, faz contraponto à histriônica Josephina de Carla Andrade. A outra dupla de opostos se completa com Fernando Sant’Anna e Flávio Bauraqui nos papéis de Vasco Medina e Vaga-Lume. Irreconhecível sem o nariz vermelho das Marias da Graça, Vera Lucia Ribeiro é uma interessante Joaquina.

Se no palco tudo vai bem, a técnica também marca boa presença. Em especial, os figurinos de Rui Cortez, que retratam a época com humor grifado. São vestidos de anquinhas com frasqueiras combinando. Na linha da mistura certa, as sedas com recorte de chitão tem especial colorido. O melhor de tudo fica com a cena da Vacina, onde os personagens se vestem no rigor da caricatura de J. Carlos. Rui Cortez está de volta em grande estilo.

Iluminando a História, espetáculo montando dentro do projeto Light, Aprendendo com Energia, que era para ser apresentado apenas para um público específico, acabou ganhando da plateia comum o seu grande incentivo. A temporada, que se estende por mais um mês, vai deixar saudade.

Cotação: 3 estrelas (Ótimo)