Critica publicada no site Pecinha é a Vovozinha
Por Dib Carneiro Neto – São Paulo – 07.08.2017

Foto: Anderson Glicor

Os atores: GiulianoCaratori e Paulo de Pontes. Foto: Marcelo Sarmento

Livro de Ruth Rocha sobre guerras ganha nova leitura no teatro

Montagem dirigida por Stella Tobar realça a polaridade dos personagens antagonistas e atinge em cheio o atual quadro de polarização da história política do Brasil

A veterana escritora de livros infantis Ruth Rocha, em Dois Idiotas Cada Qual Sentado em Seu Barril, criou uma história que fala de intolerância, de guerra, de disputa pelo poder. Volta e meia este livro vira peça de teatro, tamanha é a importância da temática para todas as gerações. A diretora Stella Tobar nos oferece aqui uma versão divertida e impactante, que potencializa nas cenas – muitas delas bastante coreografadas – a polaridade existente entre os dois personagens, o Mandão e o Teimosinho, cada qual ameaçando explodir o seu barril de pólvora, sem que seja possível um entendimento, um acordo, uma conciliação, uma compreensão.

Curiosamente, no Brasil de hoje, ou seja, o Brasil de 2017, em que a política e as investigações de corrupção polarizam e praticamente dividem o País em torno de duas vertentes principais, a montagem ganhou uma curiosa leitura extra, uma atualidade que faz dela mais ainda uma montagem necessária e importante.  A diretora optou por vestir os dois personagens com o mesmo figurino, mas com cores diferentes, para marcar o quanto são parecidos, embora pertençam a vertentes diversas. Nada mais atual, nesse Brasilzão que se divide entre camisetas vermelhas e amarelas. Escolas, portanto, poderiam aproveitar muito bem esta montagem para falar com seus alunos tanto das guerras históricas quanto da história recente do Brasil.

A linguagem de circo e de clown cai como uma luva neste texto de Ruth Rocha e, aqui, a proposta de palhaçaria se deu muito bem graça aos intérpretes Paulo de Pontes e Giuliano Caratori. Ambos estão muito bem repetindo as clássicas cenas e gags de duplas consagradas do circo e da TV, como o Gordo e o Magro. A escolha da dupla foi bem acertada. O jogo entre eles é perfeito, sempre um auxiliando o outro, levantando a bola para o outro, fazendo “escada” para o outro, como se diz na linguagem de teatro. A competente trilha sonora também ajuda muito.

O cuidado com os detalhes, aliás, é um ponto bem positivo da montagem. Logo no início, por exemplo, antes ainda de entrar qualquer texto, o público já vê que cada um dos dois antagonistas tem no bolso uma flor, que um tenta entregar para o outro mas não consegue. Ou seja, é uma bela simbologia de o quanto ambos lutam um contra o outro sem saber direito o motivo, tentando se entender, amolecer, mas em vão, por causa da teimosia, da intolerância, do poder. É o que alimenta as guerras. A direção usa esse recurso em muitos outros momentos, fazendo os dois personagens quase se entregarem um ao outro com carinho e amizade, mas sempre tudo fica por um triz, porque sempre lhes volta à mente a repulsa, o ódio latente, o autoritarismo, o egoísmo. E assim caminha a humanidade. Só nos resta aplaudir e abençoar o teatro que ainda é feito para nos fazer pensar e recuperar causas humanistas. Como este Dois Idiotas, de Stella Tobar e seu grupo. Parabéns.

Serviço

Local: Teatro João Caetano
Rua Borges Lagoa, 650 – Vila Clementino, São Paulo
Telefone: (11) 5573-3774
Capacidade: 438 lugares
Duração: 50 min
Quando: Sábados e Domingos, 16h.
Ingressos: R$ 15,00 e R$ 7,50 (meia)
Temporada: De 5 a 27 de agosto de 2017