Temos assistido, cada vez com maior frequência, a um triste espetáculo no teatro nacional: a degradação galopante do comportamento do público dentro das salas de apresentação. Muito contribuiu para isso a invenção dos telefones móveis, os tais smart phones, que, como o nome diz, são ‘espertos’ e fazem de tudo um pouco. (De vez em quando, os usuários até se lembram que esse aparelho também funciona como telefone.) Os avisos de “favor desligar os celulares ou quaisquer outros aparelhos sonoros” já são quase inúteis no teatro. O ser humano do século 21 está mais individualista do que nunca. Atos feitos em nome do coletivo não são mais cultivados, tampouco praticados. Cidadania? Pra quê?

A falta de educação do público para frequentar teatro é um caso sério em todo o Brasil. Não é exclusividade de São José do Rio Preto, minha querida cidade natal. Mas, no mês de janeiro, como curador convidado e debatedor do 13º Festival ‘Em Janeiro Teatro pra Criança É o Maior Barato’, promovido pela companhia local Fábrica de Sonhos, tive a chance – durante dez dias seguidos e 21 espetáculos na grade de atrações – de me decepcionar bastante com as plateias rio-pretenses.

Ouvi justificativas bem convincentes dos parceiros do festival, como, por exemplo, o fato de que o público dessa mostra específica de teatro para crianças só vai ao teatro nessa ocasião do ano. Não tem o hábito de frequentar teatro durante o ano todo em Rio Preto. E, por isso, realmente não consegue estabelecer com os espetáculos uma relação adequada de ‘comportamento de plateia’. De fato, quanto mais se vai ao teatro mais se compreende a importância do silêncio para o trabalho dos atores e técnicos. Não o silêncio sepulcral e distanciado, de quem tem medo, tédio ou desprezo. Mas um silêncio respeitoso e reverente, que também admite arroubos participativos, desde que esses momentos de risadas, choros, gritos e palmas sejam jogados a favor do espetáculo, e não contra.

Em pleno século 21, sinto-me bastante constrangido por constatar que ainda é necessário bater nessa tecla, escrever textos como este – e que ainda é necessário relembrar as regras básicas de bom comportamento, cidadania e educação em sociedade. Tudo isso já deveria estar introjetado nas pessoas que gostam de ir ao teatro. Mas, não. Ainda se faz necessário um trabalho de base, uma campanha educacional. Não seria exagero confeccionar cartilhas básicas de bom comportamento e distribuí-las nas salas de espetáculos para toda a faixa da população com condições de frequentar teatros em nosso país.

As numerosas famílias que vi durante o festival infantil, em Rio Preto, conversam o tempo todo entre si durante a peça, como se estivessem na sala de suas casas com as crianças. Os pequeninos fazem perguntas sobre a peça ou sobre assuntos diversos da vida e os pais respondem naturalmente, sem nem imaginar que aquilo está incomodando as pessoas ao seu lado e, pior, o elenco no palco. Por que não dizer à criança: “Filho, vamos ver a peça, depois você me faz todas as perguntas que quiser”? Por quê?

Em vez disso, os pais e as mães e as tias e as avós, enfim, todos os tipos de adultos acompanhantes das crianças demonstram que ainda encaram o teatro como puro lazer e entretenimento, não como arte. Só pode ser essa a explicação para tamanho desrespeito. Pensam que estão em um parque de diversões, onde todo ruído é tolerado, e não na solenidade de uma sala de espetáculos. Teatro infantil ainda é muito confundido com lazer de shopping center – infelizmente, constatei isso em Rio Preto. Por exemplo: Basta que comece uma música no palco e, pronto, todos na plateia já começam a acompanhar o som com palmas. Nunca vi isso ser tão comum e frequente quanto nas plateias de teatro infantil de Rio Preto. É como se peça infantil não fosse peça infantil se não proporcionasse os momentos de acompanhar canções com palmas.

Não me entendam mal: não é proibido bater palmas durante as músicas. Aliás, nada no teatro pode ser proibitivo, senão a liberdade de praticar e de usufruir arte perde o sentido. Mas existe algo chamado bom senso, que as pessoas parecem ter perdido por completo. Já pensou em parar para ouvir a letra da canção, e deixar seu filho ouvir também, em vez de estimular nele essa atitude pueril de bater palminhas sem necessidade? O teatro para crianças já atingiu um nível no Brasil em que cada canção não está ali por mera ilustração, ou para o momento de descanso da história… Teatro não é programa de auditório. Nem atividade de escolinha maternal. As canções dialogam com a dramaturgia, complementam o trabalho de narrar uma trama. Preste atenção, antes de sair freneticamente puxando palminhas.

Outro ponto básico: se um bebê chora, reparei que a mãe não sai com ele da plateia, salvo raras exceções. Ela permanece ali, com seu rebento se esgoelando em seu colo, sem se ‘tocar’ do quanto aquilo está atrapalhando. Isso é, repito, básico: saia da plateia se seu filho não estiver gostando e, mais ainda, se ele estiver chorando. Ninguém faz teatro para traumatizar as crianças ou para forçá-las a uma linguagem que ainda não conseguem usufruir sem sustos. Tenha certeza de que os atores preferem que você saia, a obrigar seu filho a gostar do que ele não está gostando. Incrível como tudo isso ainda precise ser dito e escrito.

Não posso deixar de citar o quanto o teatro que abrigou o festival, Teatro Paulo Moura, está despreparado para receber justamente teatro em seu palco. O descaso do governo anterior com os equipamentos culturais da cidade fez, conforme apurei, com que muitas das melhorias técnicas previstas ficassem só na promessa. Iluminação e acústica precisam urgentemente de um upgrade, sob o risco de ocorrerem falhas graves durante os espetáculos, como presenciei em muitas atrações do festival infantil.

Para finalizar, faço justiça a determinadas sessões do festival em que, sim, houve um lindo silêncio das plateias, provando que há mais mistérios entre o céu e a Terra do que supõe a nossa vã filosofia. Ou seja, nada do que eu disse/escrevi acima pode ser generalizado. Rio Preto é uma cidade com tradição teatral. O teatro, com seus festivais amadores ou profissionais e conhecidos no mundo todo há muitas e muitas décadas, faz parte da história desta cidade. Há, sim, em Rio Preto, um público interessado e respeitoso. Faça parte dele você também.

E, ademais, muito dessa responsabilidade pelo ‘não-silêncio’ das plateias rio-pretenses deve também ser creditado à má qualidade de alguns espetáculos, que não conseguem se resolver artisticamente, de forma a impactar o público, silenciando-o pela via da criatividade e do talento.  É como se, ao público, só restasse bagunçar, diante de tanta bagunça e despreparo no próprio palco. Mas, ainda assim, defendo que se levante e vá embora. Vai ser mais proveitoso tanto para o grupo em cena quanto para você. Tempo é precioso. Não fique no teatro se, na sua avalição ou do seu filho, a peça não merecer que vocês fiquem. Saia antes de acabar. Combinado?

Dib Carneiro Neto

Jornalista e dramaturgo, editor-responsável pelo site Pecinha é a Vovozinha!. Mantém uma coluna semanal de críticas de teatro infantil no site da revista Crescer (Ed. Globo).

Obs.
Este artigo foi originalmente publicado no jornal Diário da Região, de São José do Rio Preto, caderno Vida & Arte, no dia 5 de fevereiro de 2017. Posteriormente publicado no Site Pecinha É a Vovozinha.