Chiquita Bacana no Reino das Bananas

Crítica publicada no Site da Revista Crescer
Por Dib Carneiro Neto – São Paulo – 08.04.2016

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O texto fala de uma menina que é proibida de comer bananas justamente no Reino das Bananas

A montagem ganhou uma atualidade incrível. Fotos: Cacá Bernardes

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Fábula sobre abuso de poder intriga filhos e pais

Encenada como um jogo interativo e com belas canções, Chiquita Bacana no Reino das Bananas estimula o pensamento político de forma divertida

As infinitas possibilidades do jogo teatral são o que fazem dessa arte um mundão a ser constantemente desvendado, descoberto e redescoberto. Proporcionar essa multiplicidade de linguagens e formatos às crianças só poderá sempre reverter em “saúde artística” para elas, algo a se levar para a vida toda. Falo disso porque há em cartaz em São Paulo um espetáculo infanto-juvenil que traduz muito bem, e de forma clara, essa característica do teatro praticado assumidamente como um jogo: Chiquita Bacana no Reino das Bananas, com direção do premiado ator e diretor Dagoberto Feliz e texto do igualmente consagrado Reinaldo Maia, falecido em 2009.

Os atores e atrizes (Bruno Camargo, Camila Spinella, Clarissa Moser, Gabriel Hirschhorn, Juliana Tedesch, Laruama Alves, Leandro Goulart, Lui Seixas, Marcellus Beghelle, Nuno Carvalho, Rafael Sampaio, Tarcila Tanhã, Thomas Basso) são todos jovens e ficam vestidos de preto o tempo inteiro (figurinos assinados por Fause Haten, que incluiu saias para os homens). Surgem, apresentam-se e anunciam as regras do jogo: “Nessa peça temos macacos, elefantes, gorilas, homens, mulheres. Não sabemos que papel cada um de nós vai fazer. Vocês nos ajudam a sortear?” O sorteio é feito na hora, por pessoas da plateia. Não que seja algo inédito no teatro, mas, para crianças acostumadas a ir sempre ao teatro infantil, deparar-se com essa proposta interativa resulta bem estimulante e divertido. É como ler as regras antes de começar um jogo de tabuleiro. É mais do que isso:  é como começar a entender do que são feitos o teatro e a arte de interpretar.

A fábula criada e escrita por Reinaldo Maia em 1977 ganhou aqui boa música, graças ao talento extra do diretor Dagoberto Feliz nesse quesito. As canções são deliciosas, cativantes, e bem executadas pelo elenco afinado. O texto fala de uma menina que é proibida de comer bananas justamente no Reino das Bananas. O rei é despótico e o povo, submisso. Aos poucos, descobrem-se outras proibições sem sentido naquele reino. Há um narrador que frequentemente é interrompido e impossibilitado de contar sua história. Um julgamento se instala.

Neste momento atual da história política do País em que a polaridade dá o tom, nada melhor do que uma fábula teatral que alegorize todas essas questões e mexa com a realidade por intermédio de metáforas, sugestões, alusões e fantasias. Nesse sentido, a montagem ganhou uma atualidade incrível. “O real é irreal, e o absurdo tão real quanto o mais real do absurdo”, diz um dos personagens, dando a chave para toda a dramaturgia nonsense que se instala e mexe inteligentemente com a lógica do público mirim.

A interatividade se estabelece desde o início, mas nunca de forma agressiva ou impositiva. Ao final, o ápice do jogo: o dramaturgo deixou o final em aberto, não escreveu uma conclusão. O público terá de decidir o que fazer com o rei ditador e com a menina que comeu bananas sem autorização oficial. Como acontece nesses casos, imagino que isso funcione melhor em certos dias do que em outros, sobretudo deve ficar melhor quando há público mais numeroso e participante. No domingo passado, quando lá estive, os atores tiveram bastante dificuldade em “arrancar” uma solução final da plateia tímida, até que uma garota decidiu destituir o rei e tomar ela própria o seu lugar. Foi levada ao trono pelo elenco e fim. Reinaldo Maia escreveu: “Não fiquem preocupados, ao lerem essa peça, em ver se está bem escrita ou não, se há erros de português ou não, se é original ou não, mas sim em descobrir as intenções que ela esconde, em discutir sua posição, em se prepararem para o mundo. Antes de tudo, duvidem.”

Serviço

Galpão do Folias
Rua Ana Cintra, 213 – Santa Cecília – São Paulo
Sábados e Domingos às 11h
Ingressos a R$20 (inteira) e R$10 (meia)
Informações e reservas: Tel. (11) 3361-2223
Até 12 de junho