Um musical com elenco
afiado. Foto Guga Melgar

Crítica publicada no Jornal do Brasil – Caderno B
Por Lucia Cerrone – Rio de Janeiro – 18.07.1992

 

 

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Uma surpresa divertida e bem-cuidada

A intolerância, uma das mesquinharias cultivadas pelo ser humano sem muita cerimônia, pode acabar privando-o da agradável sensação que provoca surpresa. Chegar hoje ao teatro Vannucci, onde por três anos esteve em cartaz Apenas um Conto de Fadas, com o mesmo elenco e direção, e assistir a peça As Alegres Comadres, pode ser uma dessas surpresas. O espetáculo anterior, também dirigido por Fernando Carrera, não era dos mais elaborados, mas o que se vê hoje em cena é surpreendente.

As Alegres Comadres, baseado em original de Shakespeare, ganhou adaptação de Paulo Afonso de Lima, mas a versão final é do próprio Carrera, que acabou por transformar o texto num delicioso musical, onde o afiado elenco canta, dança e representa, dando excelente ritmo a encenação.

A direção de Carrera, investindo tanto na representação de seus atores quanto na concepção cênica, recebeu da equipe técnica o apoio adequado. Assim, as músicas de Oscar Carrera estão perfeitamente identificadas com os arranjos de Newton Luís e Charles Khan. O mesmo acontece com as coreografias criadas por Rosana Fachada e Toni Rodrigues, que se inserem no espetáculo não como um momento estanque, em que o elenco para de representar para cantar e dançar, mas fluem naturalmente sem que se sinta a passagem.

A história, ambientada numa pequena cidade do interior europeu, recebeu toques de brasilidade sem exageros, fazendo com que o público a identifique com tantas outras cidadezinhas onde a figura das comadres nas janelas é imprescindível, bem como a do prefeito e seus assessores, do carteiro, do leiteiro e das crianças. A chegada do ator João Faustino a esse pequeno paraíso acaba tendo consequências inusitadas e hilariantes.

Mesmo com o elenco bastante equilibrado na interpretação de seus personagens, alguns atores se destacam na performance. Roberto Wagner faz um prefeito interiorano com todos os tiques dos antigos políticos dos vilarejos. Horácio Vetter empresta a seu ator João Faustino a dose exata da canastrice exigida pelo personagem. As comadres Isaurinha, Santinha, Rosilda e Nonoca, vividas respectivamente pelas atrizes Flávia Oliveira, Ingrid Thomas, Valéria Chaves e Mônica Areal, dão um especial colorido à encenação. Com Rosana Fachada, porém fica o grande desafio de interpretar um personagem masculino, o secretário do prefeito, sem utilizar a caricatura.

As Alegres Comadres é um divertido e bem-cuidado musical, que chega em boa hora, trazendo saudades de outras produções do gênero como Sete Noivas para Sete IrmãosOnde Canta o Sabiá e Aí vem o Dilúvio, entre outras. Imperdível.

Cotação: 3 estrelas (Ótimo)