Programa, 2009

Convite do espetáculo que estreou no Teatro do CCBB em 15 de abril de 2009

Barra

(INFORMAÇÕES DO PROGRAMA)

(Capa)

Banco do Brasil e Prefeitura do Rio / Cultura
apresentam

A CHEGADA DE LAMPIÃO NO INFERNO

PeQuod

(Interior)

Do Alto do Moura Até Aqui
Há anos eu me cobrava insistentemente por um espetáculo com uma cara brasileira, por um colorido mais próximo da nossa realidade e por uma estética com elementos mais familiares à nossa cultura. A verdade é que o trabalho da Cia. PeQuod , nestes dez anos, sempre dialogou muito fortemente com referências estrangeiras: o cinema americano em Filme Noir, o folclore norueguês em Peer Gynt, a literatura portuguesa em O Velho da Horta, a tradição fantástica britânica em Sangue Bom, o Oriente Médio antigo em Noite Feliz. A brasilidade sempre esteve presente, mas mais nos detalhes, em uma música, na escultura de um boneco, na mecânica de um cenário, no humor de uma cena.

E eis que cresceu um desejo enorme de trabalhar com as cores da nossa terra, com o ritmo de nossa música, com o imaginário popular e o artesanato nordestino. Nessa busca, me deparei com as possibilidades cênicas e dramatúrgicas de Lampião, rei do cangaço, herói e bandido, homem e personagem, mito contraditório eternizado pela admiração de uns, pelo medo de outros, pelos livros de História, pelos cordéis, pela tradição oral, pela fotografia, pela cultura de massa e pela arte popular. Esse foi o Brasil que mais nos fascinou.

Assim como há muitos brasis, há muitos lampiões. E o Lampião que nos interessou foi aquele de barro, feito pelas mãos de Mestre Vitalino. Diante disso, nossa jornada de redescoberta do Brasil nos levou ao Alto do Moura, em Caruaru, interior de Pernambuco, lugar onde o admirável ceramista viveu e desenvolveu sua arte. Lá, até hoje, dezenas de seguidores usam daquele mesmo barro para expressar a identidade de um povo e levar adiante o legado de Vitalino. Entendemos que a excelente argila daquele lugar só poderia gerar uma arte de tão alta expressão, assim como as videiras que, em certas regiões do mundo, dão os melhores vinhos  graças à química nascida de uma composição perfeita de elementos.

No Alto do Moura, encontramos as cores, o ritmo, o cheiro e as feições do nosso novo espetáculo. Encontramos também naquelas terras nosso Lampião, o de barro, artesanal e expressivo como nossos bonecos. E nos fornos dos artesãos seguidores de Vitalino  identificamos o inferno adequado à nossa narrativa. Um inferno paralelo ao que Dante Alighieri descreveu em A Divina Comédia, mas de raízes pernambucanas , relacionado a um microcosmo da arte brasileira. Se o homem vem do barro e ao barro retorna, em a Chegada de Lampião no Inferno também é assim.

Aos artesãos do Alto do Moura, cujas mãos criam esculturas únicas e primorosas todos os dias, como deuses a forjar criaturas, este espetáculo é dedicado.
Miguel Vellinho

Elenco

Liliane Xavier
Marise Nogueira
Gustavo Barros
Márcio Nascimento
Thiago Picchi
Voz Off: Othon Bastos

Ficha Técnica

Direção: Miguel Vellinho
Dramaturgia: Mario Piragibe e Miguel Vellinho
Cenário: Carlos Alberto Nunes
Iluminação: Renato Machado
Figurino: Daniele Geammal
Música: André Abujamra
Direção Musical: Thiago Picchi
Design Gráfico: Roberta de Freitas e Ana Carolina Braz
Fotografia: Simone Rodrigues
Modelagem dos Bonecos: Andréa Kossatz
Confecção dos Bonecos: Andréa Kossatz, Márcio Newlands, Michel Souza e Thiemy Katayama
Pintura de Arte: Nilton Katayama
Assistência de Confecção: Flaviane Penafort, Gabriela Christ, Joanna Pacheco e Luiza Paes
Assistência de Figurino: Renata Cortes e Caio Braga
Divulgação: Bruno Pacheco
Cenotécnico: Marcos Souza, Renan Cardoso e Álvaro de Souza
Operação de Luz: Giba de Oliveira
Operação de Som: Telma Lemos
Costureiras: Marilene e Terezinha
Direção de Produção: Sérgio Saboya
Produção Executiva: Erick Ferraz
Equipe de Produção: Alex Nunes, Gabriele Dracxler, Nina Solon, Paula Almeida, Pedro Yudi e Rafaela Sales.

Uma produção Cia. PeQuod  – Teatro de Animação
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil

A Cia. PeQuod – Teatro de Animação surgiu de uma oficina realizada por Miguel Vellinho, em 1999. Nestes dez anos de existência, a inquietação artística desta equipe de profissionais gerou seis montagens que buscaram conjugar coragem, ousadia e profundo detalhamento artístico através de um entrelaçamento de tradição e cultura pop contemporânea. Em seus espetáculos, a PeQuod procura refazer os limites do seu teatro aproximando-se de outras manifestações artísticas, como a dança, a literatura, os quadrinhos, o cinema, a fotografia. Tudo isso sem jamais perder o caráter artesanal da confecção dos bonecos, figurinos e cenários. Estas foram, desde o princípio, as bases do trabalho da companhia, que completa sua primeira década de existência com um repertório sólido, ativo e reconhecido em todo o país.

Sangue Bom –1999

Sem palavras, apenas com ação, o espetáculo faz uso de um humor ferino para falar de solidão, desilusão, amor, perdas e danos, misturando referências do desenho animado, dos  filmes de terror e da literatura gótica.

Noite Feliz
– 2001

Com músicos e cantores ao vivo, interpretando canções criadas especialmente para a peça, o espetáculo conta os fatos que se estendem do casamento de Maria e José até a fuga da Sagrada Família para o Egito, sempre com graça e leveza.

O Velho da Horta – 2002

Para comemorar os 500 anos da obra de Gil Vicente, o espetáculo traz para a linguagem dos bonecos a poesia e o humor típicos do autor para narrar a história de um hortelão idoso que se apaixona por uma jovem freguesa.

Filme Noir – 2004

Espetáculo adulto que adapta para o Teatro de Animação o estilo genuinamente cinematográfico que lhe dá nome. Estão lá a mulher fatal, o detetive durão, a atmosfera de desilusão, a voz off do narrador, os flashbacks e tudo mais.

Peer Gynt – 2006

Texto de Henrik Ibsen que conta a saga de um anti-herói que sempre foi fiel a si próprio – e a mais ninguém. Atores e bonecos contracenam em pé de igualdade, complementando-se de forma incomum.

Retrospeq! – 2008

Mostra retrospectiva de repertório, oficina e exposição de bonecos, cenários e fotografias que repassaram os dez anos da PeQuod. Uma oportunidade para ver ou rever toda a trajetória da companhia.

(Verso)

Lampião: Emblema

Creio que para nós da companhia PeQuod o maior desafio em se montar uma peça de Lampião está mais em entender quem somos, do que em entender quem foi o Capitão Virgulino Ferreira. A nau que decidimos ser tem por destino carregar seus integrantes na direção de mares encapelados, moradias de feras esquecidas e perigosas, apenas para mostrar, preto no branco, o nosso profundo parentesco com os fantasmas que assombram os sonhos que transformamos em teatro. São deixadas marcas doloridas e indeléveis daquilo que de fato somos, mas não sabíamos. Hoje somos tanto cangaceiros e demônios quanto já somos vampiros, espantalhos, foras-da-lei, anjos e pequenos mentirosos à procura de uma alma.

Com Lampião não poderia ser diferente. Aliás, foi complicado e doloroso encontrar em Lampião o boneco por trás do homem. O exemplo de Lampião não parece mais comportar a figura de um herói convencional, sequer de um herói. Nem de um lutador pela liberdade ou pela justiça social. É hoje em dia muito ingênuo, no mínimo sedutor, a exaltação de sua vida de bandidagem em nome de uma suposta cruzada contra uma classe de poderosos, classe essa com a qual, sabe-se hoje, o Capitão Virgulino mantinha negócios e parcerias, e da qual fazia um pouco parte.

O cangaço pode ser entendido hoje como uma qualidade de banditismo gestada e provocada pelas agruras do ciclo do gado nordestino. Terra dura criando gente dura; lugar criando gente criando lugar. Estamos por fim deixando de lado uma mentalidade que escava sem critérios nossa história em busca de heróis desvalidos e símbolos das lutas proletárias.

Lampião não resta como o emblema daquilo que o sertanejo deveria ou gostaria de ser. Não é um exemplo, mas uma síntese. Seus atos, sua moral, seu humor e sua fúria implacável são marcas daquilo de que são feitos os seus conterrâneos, independente de vontade ou chamamento ideológico. Lampião é cria do ambiente sertanejo, assim como o são todos os outros. Creio que seja daí, justamente, que se justifique a sua profunda identificação com as camadas mais humildes da população nordestina. Claro, além do sempre popular desprezo à autoridade, ao medo que inspirava em seus inimigos e ao humor de suas tiradas, imortalizadas na gesta local.

Ao Lampião-símbolo é barrada a entrada no inferno. Isto marca a resistência e o espanto que provocam toda tentativa, por meritória que seja, de humanização de um objeto-síntese. Seria como dar um rosto e uma identidade àquela força irresistível e sempre presente que arrasta os homens à ruína e dá à tragédia o seu sentido. Lampião precisa completar seu destino de tornar-se idéia, de fundir-se ao conjunto de noções que faz o nordestino ser o que é.

E por isso, Vitalino.
Mario Piragibe

O Centro Cultural Banco do Brasil recebe a Companhia PeQuod – Teatro de Animação, em um espetáculo para o público adulto no ano em que são comemorados os 20 anos de criação do CCBB e os 10 anos da Companhia.

Na montagem de A Chegada de Lampião ao Inferno estão implícitos os sentidos de brasilidade, quando enfoca o cangaceiro Virgulino Ferreira, cognominado Lampião – um fora-da-lei que viveu no nordeste e a contemporaneidade traduzida num espetáculo novo que reúne a artesania do tradicional teatro de bonecos com um texto inventivo, em que são discutidos o real e o imaginário acerca do personagem.

O Banco do Brasil, ao acreditar na fusão entre tradição e renovação inseridas no texto, traz ao público um espetáculo que integra atores e bonecos e enfoca aspectos da história do país sem perder o senso da diversão.
Centro Cultural Banco do Brasil

Agradecimentos

Aderbal Freire-Filho, Adriana de Quadros Mendes, Alexandre Santos, Ana Dias, Andréa Beltrão, Angela Vieira, Angela Leite Lopes, Arlete Rua, Arthur Dutra Reis, Elena Constantinovna, Felipe Lourenço, Giulia Caminha, Gracinha, Helena Vieira, Humberto Costa Barros, José Luiz Coutinho, Manoel Puocci, Márcia Lopes, Marcio Malard, Maria do Carmo Xavier Barbosa, Maria Helena Nunes, Marieta Severo, Marilene Siqueira, Mateus de Souza, Maurício Durão, Myriam Nogueira, Natascha Martins Memolo, Norma Nogueira, Norma Pereira da Silva, Pedro Iuá, Regina Vieira, Roberta Rangel, Rosângela Nascimento, Rui Marques, Thaís Boulanger, Vidocq Casas

Apoios

Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro-UNIRIO
Werner Tecidos, Lunetterie, Confeitaria Nova Tall

Não recomendado para menores de 16 anos

PeQuod teatro de animação

PeQuod é o nome da embarcação que sai em busca da baleia Moby Dick, no romance de mesmo nome. Herman Melville, seu autor, fez uma homenagem ao nome de uma tribo de índios da América do Norte que foi exterminada com a colonização européia.

www.pequod.com.br

Patrocínio

(Logos) Rio Prefeitura Cultura , BR Petrobras

Realização

Fundação Nacional de Artes – FUNARTE, Ministério da Cultura, Lei de Incentivo à Cultura
Centro Cultural Banco do Brasil – 20 Anos

Este espetáculo foi contemplado pelo Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz com o patrocínio da Petrobras

Rua Primeiro de Março, 66 Centro – Rio de Janeiro
Informações: (21) 3808-2020
bb.com.br/cultura