A - Tatiana Belinky 10, desenho da bisneta Luciana Belinky

Tatiana Belinky, desenho da bisneta Luciana Belinky

Esta pesquisa foi elaborada por Júlio Carrara,  diretor, amigo pessoal e colaborador de Tatitana Bellinky.

SUMÁRIO

Introdução

Capítulo I.     Da Rua dos Navios á Rua Jaguaribe

Capítulo II.    O Casamento de duas Bibliotecas

Capítulo III.   Monteiro Lobato e Rei George

Capítulo IV.   Fundação do TESP

Capítulo V.    Trapézio sem Rede

Capítulo VI.  Primeiro Congresso Brasileiro de Teatro

Capítulo VII. Resgate de um Tesouro

Capítulo VIII. Revista Teatro da Juventude

Capítulo IX.   Literatura

Capítulo X.    Entrevistas

Prêmios Recebidos

Conclusão

Bibliografia Tatiana Belinky

Bibliografia Geral

INTRODUÇÃO

Quando fui convidado por Antonio Carlos Bernardes para preparar um material sobre a vida e obra de Tatiana Belinky para o site da CBTIJ, senti-me lisonjeado e ao mesmo tempo com certo temor. É muita responsabilidade para um pobre mortal como eu falar sobre uma imortal da Academia Paulista de Letras que viveu e produziu intensamente durante os seus bem-vividos 94 anos de vida e 64 de profissão. São tantas histórias de vida, milhares de laudas escritas em sua velha e inseparável máquina de escrever, enfim, tanta informação que simplificarei neste trabalho, já que sua vida e obra dariam uma odisseia.

Tive o privilégio de conviver com Tatiana por mais de 15 anos. O material que compõe este trabalho é fruto de nossas conversas, trechos de seus livros autobiográficos, de crônicas e entrevistas para jornais, revistas, TV e vídeos que encontrei na internet.

Os capítulos são lineares e como numa linha do tempo mostra desde o seu nascimento em São Petersburgo, na Rússia; seu “transplante” para o Brasil; o casamento com Júlio Gouveia, o nascimento dos filhos; o encontro com Lobato; a fundação do TESP (Teatro-Escola de São Paulo); os programas para a TV; os roteiros resgatados; a criação da importante revista Teatro da Juventude; sua rica contribuição para a literatura infanto-juvenil; até a sua morte, melhor dito, “encantamento” como gostava de dizer, parafraseando Guimarães Rosa.

O que posso escrever a respeito de Tatiana Belinky, essa “bruxinha” que me ensinou tantas coisas boas e a quem devo grande parte da minha formação como artista e educador? Acho que o ideal é começar pelo começo.

Foi assim que tudo começou…

Em 1998, estava procurando uma peça infanto-juvenil para encenar com os adolescentes do meu grupo, a Cia. das Artes Dramáticas (CAD). Todos os textos que caíram em minhas mãos não me agradaram. Eram extremamente didáticos, cheios de liçõezinhas de moral e sempre com um adulto com aquele dedinho em riste dizendo para uma criança o que era “certo” ou “errado”. Isso me incomodava tanto que passei a detestar o gênero.

Estava quase desistindo e partindo para outro projeto quando ganhei um exemplar da Revista Teatro da Juventude (dos anos de 1990).  Mas não era só uma revista que estava ganhando, não. Era um tesouro. Quando terminei a leitura de A Sopa de Pedra, que estava neste volume, meu conceito sobre o teatro infanto-juvenil havia mudado. Os personagens desta peça não eram príncipes ou princesas que viveram felizes para sempre, mas espertalhões que tentam ludibriar um ao outro. Foi o que me atraiu: o fato de esses personagens serem politicamente incorretos.

Minutos depois, estava ao telefone com Tatiana. Sem titubear, pedi para conhecê-la pessoalmente. E ela, generosamente, abriu-me as portas de sua residência no bairro do Pacaembu. Na semana seguinte eu estava lá, sentado ao teu lado, trêmulo e gaguejante, pedindo a liberação dos direitos autorais do texto. Ela não só autorizou a encenação como também me presenteou com outros textos de sua autoria que foram lidos naquele mesmo dia.

A Sopa de Pedra, Os Dois Turrões, Beijo, Não!, João Magriço e Quem Casa, Quer Casa – Ou Não? foram os espetáculos encenados por mim e que me deram muita satisfação. Não só a mim, mas ao elenco (que entrava em cena com imenso prazer) e ao público. Vez por outra encontro com algum espectador que me fala, empolgado, de determinado espetáculo, como por exemplo: “Quem Casa, Quer Casa – Ou Não! marcou a minha infância.”

É essa a força que tem uma obra de Tatiana Belinky. Atinge a todos os públicos, e não subestima ninguém. As peças de Tatiana são educativas-formativas, nunca didáticas. É isso que a diferencia de alguns dramaturgos que acham que teatro infantil é escolinha e que é necessário pregar uma moral com peças que fazem a cabeça e não que abrem a cabeça, como deveriam ser.

Obrigado por tudo, Tati. Sinto muita falta das inúmeras tardes agradáveis em que passamos juntos, ouvindo suas histórias, tomando vinho do Porto, saboreando as ameixas secas e os bombons Ferrero Rocher (seus prediletos) e trocando impressões sobre a vida e a arte rodeados por cães e gatos em seu sobrado localizado à Rua Itajaçú, 81, no bairro do Pacaembu. Sei que o seu laboratório de ideias, sua poltrona bergère no canto da sala, sua almofada-escrivaninha, seus cadernos, canetas e lupas, suas bruxas e Emílias não estão mais lá, mas este cenário estará para sempre gravado em minha memória e em meu coração. E tenho absoluta certeza que esse cenário está gravado também nas mentes e nos corações de todos que tiveram o privilégio de estar contigo neste ambiente.

E agora vamos começar a contar a história de uma contadora de histórias. O teatro está lotado, já soou o terceiro sinal, as luzes da plateia se apagaram e o pano se abre lentamente revelando o

LOCAL: São Petersburgo, Rússia.

e a

ÉPOCA: Século XX (1919).

Capítulo I – DA RUA DOS NAVIOS À RUA JAGUARIBE

Natural da Rússia, da cidade de São Petersburgo (que na época se chamava Petrogrado, em 1922, e voltou a ser São Petersburgo, em 1991), Tatiana Belinky veio ao mundo em 18 de março de 1919, em plena guerra civil. Filha do estudante de psicologia Aron Belinky, que não concluiu o curso por causa da guerra e de Rosa Belinky, uma dentista-comunista, numa época em que era raro uma mulher estudar e fazer carreira, Tatiana é a primogênita do casal, já que Rosa perdeu o seu primeiro filho no meio da gravidez, em um comício a Leon Trotsky, espremida pela multidão.

A certidão de nascimento de Tatiana Belinky foi escrita à mão pelo seu pai porque nem máquina de escrever eles tinham nesta época. O sobrenome Belinky, em russo, quer dizer branquinho.

A vida era muito difícil devido à guerra (lembremos que a Primeira Guerra Mundial durou de 1914 a 1918 e a Revolução Russa eclodiu em 1917), os alimentos estavam racionados, havia fome na cidade e a família se mudou para Riga, quando Tatiana tinha um ano de idade. Nesta cidade nasceram seus dois irmãos menores: Abraham e Benjamin (o primeiro, dois anos e meio; o segundo, temporão, quase dez anos mais novo que Tatiana).

Com quatro anos de idade, em 1923, a pequena Tatiana aprende a ler e fala quatro idiomas: russo, letão, alemão e ídiche. Pouco depois aprende a escrever. Cada idioma que fala tem alfabetos diferentes: o russo era ciclico, o alemão era gótico, o letão latino e o ídiche hebraico.

Também aos quatro anos, Tatiana passou por uma experiência dramática: teve um problema no couro cabeludo provocado por algum bicho de pelúcia, uma parasita qualquer que a deixou careca. Seu cabelo era liso, que nem japonês, com franjinha. Depois da queda, quando o cabelo voltou a nascer, veio crespo, como carneirinho; e uma experiência boa: seu contato com o teatro. Seu primeiro papel foi uma mosca. Uma mosca com asinhas e antenas que representou em um monólogo durante a festa de seu aniversário. Ela andava pelo chão e cantava, em russo, uma canção que dizia: Estou andando pelo teto e vou visitar meu amigo besouro. E a sensação que tinha e que conservou a vida toda, era que, realmente, estava andando no teto, de cabeça para baixo.

A vida em Riga também não era fácil. A situação econômica ruim, a política, pior ainda e as coisas não andavam boas para seus pais, gente de classe média remediada. Até que a situação se tornou insustentável, e seus pais resolveram tentar a vida em outras terras – em outras palavras emigrar até melhorar de vida, resolver alguns problemas e quem sabe “fazer América”. E fazer América significava ir para os Estados Unidos da América do Norte, tido como país de fartura e da oportunidade. Ou então, na pior das hipóteses, para a Argentina, que era considerado o país mais rico, civilizado e “europeu” da América Latina. Ninguém pensava em Brasil, pois ninguém, nunca sequer ouviu falar dele.

Como era impossível ir para os Estados Unidos por causa das “cotas” de imigração vigentes (a cota da Letônia para lá estava esgotadíssima e a fila de espera por um visto permanente era enorme) e com a Argentina acontecia coisa parecida, a solução encontrada pela família Belinky era vir para o Brasil, que estava em pós-guerra e necessitando de mão-de-obra para a lavoura e a indústria. Mas as chamadas para a imigração eram, principalmente, para os imigrantes proletários, e a família de Tatiana pertencia a outro tipo de emigrante, bem menos numeroso. Não eram proletários, mas gente de classe média, profissionais liberais, comerciantes, intelectuais – gente da chamada burguesia urbana. Dessas pessoas, as que tinham pressa de emigrar, aproveitavam as facilidades oferecidas por países como o Brasil e vieram instalar-se nas cidades maiores, onde poderiam exercer melhor as suas atividades, com proveito para si mesmas e para o país que as recebia.

No primeiro semestre de 1929, Aron vem para o Brasil para sondar o terreno, três meses antes da família. Rosa e as crianças passam por Berlim para comprar instrumentos de dentista e seguem de Hamburgo no navio General Mitre, da companhia de navegação Hamburgsuedamerikanische Dampfdchiffahrtsgesellschaft (Hamburgo-americana-do-sul Companhia-de-viagens-a-vapor), palavra que impressionou Tatiana, pois parecia um jogo de trava-língua.

Rosa e os três filhos chegam ao Brasil, no Rio de Janeiro, no dia 29 de setembro de 1929 após três semanas de viagem. O pai, Aron, aguardava pela família no porto, com um dicionário de português na mão. Poliglota, Aron falava inglês, francês, alemão e russo. E aprendeu a falar português no navio, com sotaque e com razoável domínio. Tinha um talento impressionante para idiomas e Tatiana não ficou atrás. Poliglota, Tatiana era canhota, mas Aron sugeriu que ela experimentasse a outra mão e a menina tornou-se ambidestra.

No cais do porto, Tatiana admira o primeiro cacho de bananas que viu na vida, mais alto que ela, parado muito tranquilo, como que zombando do seu espanto, pois só tinha visto uma banana de cada vez, uma ou duas vezes ao ano e que repartia com o irmão e imaginava que aquela fruta crescia em altas e esguias palmeiras tropicais, uma em cada galho, no máximo. E banana sempre foi uma de suas frutas preferidas.

A família permaneceu uma semana na pensão Laranjeiras, e nesta pensão conheceu outra fruta, a carambola, doce-azedinha, que cortada, formava estrelinhas e outras frutas estranhíssimas, exóticas e nunca vistas como jabuticaba, morango, goiaba, mamão, manga e caqui. O primeiro caqui que Tatiana mordeu estava verde e adstringente e contraiu sua a boca numa cica tal que levou anos até se atrever a provar outro.

O navio que os trouxe para o Brasil fez uma escala de quatro dias no Rio de Janeiro (por esse motivo se instalaram na pensão Laranjeiras, como foi citado) antes de desembarcarem em Santos, de onde vieram numa locomotiva a carvão, puxada por outra máquina fortíssima que subia a montanha íngreme da Serra do Mar com destino a São Paulo, a oitocentos metros acima do nível do mar. Depois de duas horas, passando por uma sucessão de túneis, com várias paradas e com os olhos ardendo pela fumaça, a família Belinky chegou a Estação da Luz, onde desembarcou.

Do lado de fora da estação, junto à calçada, havia uma fila de coches de aluguel à espera de passageiros, mas Aron resolver tomar um táxi, um carrão enorme de capota de lona, onde cabia toda a família com as malas. Ao passar pelo centro, Tatiana teve a primeira verdadeira visão de São Paulo, uma visão impactante que não esqueceu jamais: a Praça Ramos de Azevedo, o Anhangabaú, o Teatro Municipal, o Viaduto do Chá, mas o que mais a impressionou foi o edifício da Light, hoje shopping Light, dominando a praça inteira, iluminado por todos os lados por possantes holofotes.

Depois de alguns minutos, a família chegou ao seu destino final: a Rua Jaguaribe, nº 44, numa pensão que não existe mais. Ficaram os cinco amontoados num quartinho, junto com a bagagem e o conforto não era muito maior do que a cabina do General Mitre. Durante o dia, Aron saía para procurar trabalho e casa para alugar e Rosa ficava com os filhos.

A permanência da família na pensão durou pouco tempo. Menos de um mês depois, na mesma Rua Jaguaribe, algumas quadras adiante, vagou um sobradinho de dois quartos, sala, cozinha e banheiro. E o melhor é que ali, já instalado e funcionando, existia um gabinete dentário, modesto mas completo, que o proprietário-dentista queria passar para adiante. Rosa, com seu diploma universitário europeu, logo conseguiu com o auxílio de alguns amigos, uma permissão do “Serviço Sanitário” para exercer a profissão como “prático licenciado”. Em pouco mais de um mês de permanência em São Paulo, começou a trabalhar, mesmo sem falar a língua. Fazia-se entender por mímica, e também em latim, com os médicos e as freiras.

O ano de 1929 estava no fim e faltavam alguns meses para o começo do ano letivo quando Tatiana e Abraham seriam matriculados numa escola. Ela aproveitava as tardes para passear com os irmãozinhos pelas redondezas (naquela época as crianças podiam andar sozinhas pelas ruas, melhor dizendo, pelas calçadas) e enfrentou muitos preconceitos devido aos seus costumes e por não dominar a língua.

A primeira escola em que foram matriculados, era uma escola alemã, a Olinda Schule, porque seus pais achavam que seria mais fácil a adaptação se fossem estudar uma língua conhecida. Mas não permaneceram nem três meses na escola devido aos castigos corporais. Nesta escola os professores batiam nos alunos, davam tapa na cara, principalmente nos meninos. Aron e Rosa tomaram conhecimento do fato e matricularam os filhos no Mackenzie, uma escola americana, um ambiente muito bom, democrático, fraternal, cordial e com classes mistas.

Em 1931, Tatiana leu o primeiro texto em português, Jeca Tatuzinho, sequência de Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, no Almanaque do Biotônico Fontoura, que era lido em todo o Brasil.

No Mackenzie, Tatiana foi procurar a biblioteca do colégio. Seus pais já estavam inscritos em duas bibliotecas circulantes, uma russa e uma alemã, onde retiravam livros para a filha, mas a biblioteca do Mackenzie era brasileira, estava à mão e tinha livros em português. E era isso que ela precisava, tanto para aprender o idioma como para entrar em contato com a literatura da língua portuguesa. Foi direto para uma das grandes estantes, escolheu alguns livros de ficção sem saber quem eram os autores e se dirigiu à bibliotecária, a fim de registrar a retirada e sua decepção veio quando a bibliotecária disse que não podia emprestar aqueles livros porque não eram livros para menina. “Como assim? Existem livros para meninos e livros para meninas? Por que não pode?”, questionou Tatiana. E a bibliotecária respondeu: “Porque não pode”, e indicou uma prateleira com livrinhos cor-de-rosa, tipo Coleção das Moças.

Ao chegar em casa, Tatiana contou o fato ao pai, que, indignado, escreveu um bilhete para ser entregue à bibliotecária: “Minha filha Tatiana tem a permissão de escolher e retirar desta biblioteca todo e qualquer livro que ela queira ler.” Feliz da vida, levou o bilhete para a escola e todos se escandalizaram. Se o pai autorizava, estava autorizado e ponto final. Autoridade paterna. Não existia essa de Ministério Público para interferir.

Júlio Gouveia

Correu o ano de 1931 e aproximava a data de seu aniversário. O aniversário de onze anos no Brasil nem foi comemorado em meio à afobação e aos problemas da mudança. A proposta de fazer uma festa para comemorar o aniversário de doze anos partiu de seus pais. Felicíssima, Tatiana convidou dez ou doze meninos e meninas com quem se relacionava melhor. Naquele 18 de março de 1931 – um sábado, dia sem aulas no Mackenzie – Tatiana preparou tudo: vestiu sua melhor roupa, enfeitou a sala e a mesa com guloseimas e refrigerantes e esperou. Uma, duas, três horas… A tarde chegou ao fim, anoiteceu e ninguém compareceu. E diante de seus pais aflitos, que não sabiam o que fazer, Tatiana não chorou. Mas assim que todos foram dormir, sozinha em sua cama, deixou as lágrimas escorrerem. E no ano seguinte, não quis festa alguma.

Em 1932, Tatiana conquistou o seu espaço com os professores e com os colegas que não zombavam mais do seu sotaque nem a discriminavam. E logo depois de completar treze anos, Tatiana “ficou mocinha” como se dizia naquele tempo.

No mesmo ano, estourou a Revolução de 32.  O fim da Revolução, em setembro do mesmo ano, com a derrota das forças constitucionalistas, marca também o fim da infância de Tatiana.

Em 1933, no início do ano, mudaram-se da Rua Jaguaribe. Foram para a Rua Pará, onde moraram em três casas, depois para a Rua Itacolomy, e finalmente para a Rua Itajaçú, nº 81, no bairro do Pacaembu, onde viveu por mais de 50 anos.

Em 1939 conheceu Júlio Gouveia, com quem se casou.

Capítulo II – O CASAMENTO DE DUAS BIBLIOTECAS

Tatiana conheceu Júlio Gouveia em uma festa de casamento, em julho de 1939. Ela era convidada da noiva, e ele, do noivo, o médico-chefe da enfermaria da Santa Casa, onde ele, ainda estudante, trabalhava, como conta em seu livro Acontecências. (1)

Após a cerimônia religiosa, um banquete estava sendo oferecido num amplo palacete para mais de uma centena de convidados. Alexandre, amigo de Tatiana e um outro estudante de Medicina, tencionava apresentar um amigo para ela. E lá foram os dois procurar o tal Júlio no meio da multidão de convidados. Como não o encontravam em lugar algum, Alexandre dirigiu-se até a mesa do banquete – uma mesa muito grande, muito comprida, com muitos metros, cobertas com lindas toalhas que chegavam até o chão e começou a levantar a toalha, metro por metro, e espiar por baixo até encontrar o amigo Júlio, já meio “alto” debaixo da mesa, com uma taça, uma garrafa de champanhe e uma travessa de ovos recheados. Alexandre chamou Júlio, que apareceu e ao ser apresentado à Tatiana, perguntou com uma voz um tanto arrastada e lenta:

– Taaatiaana? Quer casar comigo?

E, gargalhando, Tatiana respondeu?

– Quero sim. Vamos marcar a data!

E continuaram rindo, festejando e se regalando.

Três meses depois, em outubro, Tatiana estava em um ponto de ônibus com uma amiga na Praça do Patriarca esperando pela condução quando Júlio apareceu. Depois do casamento eles nunca mais se encontraram. E desta vez, ele estava sóbrio. Após alguns minutos de conversa, ele convidou-as para uma matinê no cinema. Tatiana disse que não gostaria de ir ao cinema em trio e resolveram a questão tirando cara-ou-coroa. Quem ganhasse, iria ao cinema com o rapaz. E adivinhem quem ganhou? E lá foram, Júlio e Tatiana, ao cinema para ver a um filme da garotinha Shirley Temple.

Naquele mesmo dia, de madrugada, Júlio passou em casa de Tatiana e deixou um raminho de flores e um bilhete em sua varanda. Tratava-se de um acróstico, no qual, como cabe a este tipo de poema, cada estrofe começa com a primeira letra de um nome, lido na vertical.

Trazes no peito um sonho de ventura,
Amável sonho que te embala a vida
Tornando-a suave e menos malsofrida
Irmão do teu, sequioso de ternura,
Arde outro sonho dentro do meu peito…
Não te parece assim, bela medida
Amarmo-nos os dois, num só proveito?

O namoro começou assim. E dali em diante, continuou com muitas conversas, poesias, idas ao teatro e ao cinema, comentários e discussões sobre livros, músicas e muitas coisas mais.

Em 4 de outubro de 1939, Tatiana recebeu uma missiva com a seguinte dedicatória numa fotografia do “cantor” em pleno “dó de peito” (2)

Ofereço-te a fachada
De um cantor tolo e pateta:
Fez uma bruta “cantada”
Numa Canção Indiscreta.

Canção Indiscreta

De cantar, só, no meu canto
Já estou a desencantar;
Pro canto ter mais encanto
Contigo quero cantar

Já cantei muitas cantigas
Em cantos de outros lugares:
Mas são canções tão antigas
Que almejo novos cantares

Há tanto tempo que eu canto
Meus solos desencantados!…
E há tanto lugar, no entanto,
Neste canto decantado…

Há lugar pra outros cantores,
Ou melhor, pra uma cantora.
Que queira cantar de amores
Em canção mais promissora.

Cantando solos há tanto,
Procure alguém que me encante,
Alguém que ouvindo o meu canto,
Também se torne cantante.

Alguém que cante contente
De cantar com tal cantor:
Eu, de Canções, sei somente
Cantar as canções de amor

Tu cantas belas cantigas
No mesmo tom das que eu canto:
Cantoras minhas amigas
Nenhuma tem tanto encanto.

Por isso conto contigo
Pra vir cantar no meu canto:
Será que um dia eu consigo
Catequizar o teu canto?

Porém preciso contar-te
Que condições vou impor:
Minha canção tem tal arte
Que só permite um cantor

O canto será constante
Concatenada a canção:
Cantarás só quando eu cante
Seguindo o meu diapasão

E assim nós dois cantaremos
No nosso canto, sozinhos;
Num dueto, formaremos
Dois ou três cantorezinhos.

E o canto terno e dolente
Jamais será cantochão:
Há de ser, eternamente,
A mais formosa canção
Julio

Em várias entrevistas, Tatiana contou diversas vezes sobre seu namoro.

– Meu namoro como Julio foi muito rápido. Quando ele me perguntou, muito timidamente, se eu queria me casar com ele e se aceitaria ir com um médico recém-formado para o interior porque em São Paulo não tinha muita oportunidade, aceitei no ato. Ele suspirou aliviado e me disse:

– Que bom que aceitou. Eu vou falar com seu pai e pedir sua mão a ele.

– Julio, quem manda em minha mão sou eu. Por isso mesmo que quero me casar só com 21 anos para eu resolver essas coisas. Quero ser a responsável pelo que resolver de certo ou de errado. Outra coisa: tenho minhas condições. Sem ciúmes, porque acho ciúme uma coisa horrorosa, feia, mesquinha e não aceito. (Não aceito até hoje). Dizem que ciúme é o tempero do amor. É o veneno de qualquer amor. Não quero ouvir de “ciumadas”. Isso é uma condição.

– E você não vai trabalhar, porque mulher minha não trabalha…

– O que? Que ataque de machismo sul-americano foi esse? Mulher minha não trabalha! Eu gosto de trabalhar e vou trabalhar.

– Mas você não vai precisar. – respondeu ele, sem-graça.

– Se eu não precisar eu arranjo um jeito de fazer alguma coisa, ficar sem trabalhar eu não fico. Qualquer que seja o trabalho eu vou trabalhar. (Ele me respeitou cem por cento). Vamos ser colaboradores, vamos ser amigos e não me venha com essa de fidelidade que fidelidade é virtude de cachorro. Eu espero LEALDADE.

– Está certo, então vamos falar com seus pais.

– Vamos co-mu-ni-car, não pedir nada, não pedir licença, nada disso, comunicar que estamos noivos e que vamos nos casar.  Em 11 de fevereiro de 1940, oficializamos o noivado e nos casamos no dia 25 de maio de 1940, só no civil. Esses contratos religiosos tanto judaicos, como cristãos, como qualquer outro, são uma porção de promessas bobas, que não podem ser cumpridas, e não se pode fazer promessa que não pode ser cumprida. Que negócio é esse de: “Até que a morte nos separe?”, pode acontecer que a morte os separe: um pode assassinar o outro ou então um ser atropelado e morrer, aí a morte os separa. Agora porque não dá certo, porque está tudo errado, ruim, ter que esperar a morte separar?  Não aceito uma coisa dessas.

Tatiana costumava dizer também que seu casamento com Júlio foi “o casamento de duas bibliotecas”.

No mesmo ano em que se casou, seu pai Aron, morreu aos 46 anos num acidente aéreo da VASP. O avião caiu no mar e todos morreram. Tatiana virou arrimo de família e assumiu os negócios do pai, como quis Rosa, sua mãe. E enfrentou um grande período de depressão.

Em 31 de dezembro de 1942, Tatiana deu a luz ao primeiro filho do casal: Ricardo Aron Belinky de Gouveia, a quem Júlio dedicou este poema:

São Paulo, 31 de dezembro de 1942 (3)

Os sinos do Ano Novo estão tocando,
a esperança dos homens renasceu.
Que me importam, porém, tais sinos, quando
também nasce a esta hora um filho meu?

O Tempo prometido vem chegando,
o tempo que passou, já se esqueceu.
Bem perto, a vida nova vem cantando
que, se alguém é feliz, este sou eu!

Filho meu, que nasceste neste instante,
gerado por dois sangues desiguais,
sê generoso, impávido e constante.

Nem desejes do mundo nada mais,
que, para seres feliz, será bastante
encontrares o amor, que uniu teus pais!

Anos mais tarde, Ricardo Gouveia, excelente escritor, dramaturgo e tradutor hoje com 72 anos, escreveu na orelha de um de seus livros a respeito de seu nascimento:

A primeira vez que brinquei de teatro na vida foi quando nasci: dramática e teatralmente, pus literalmente a boca no mundo no dia 31 de dezembro de 1942, às 22:30. Por pouco-pouco não foi bem na passagem do ano, estraguei o réveillon de todo mundo e, provavelmente como castigo, não apenas estraguei o meu próprio como também o meu aniversário, para o resto da vida: ele jamais viria a ser nem bem uma coisa, nem bem outra.”

Três anos depois, em 1945, veio ao mundo o segundo filho do casal, André Belinky de Gouveia.

Alguns anos mais tarde, o casal conheceu uma pessoa a quem admiravam muito.

(01) Tatiana Belinky. Acontecências. Dimensão. São Paulo. Pág. 13-15
(02) Tatiana Belinky. Acontecências. Dimensão. São Paulo. Pág. 21-24
(03) Tatiana Belinky. Acontecências. Dimensão. São Paulo. Pág.

Capítulo III – MONTEIRO LOBATO E O REI JORGE

Como foi dito anteriormente, o primeiro texto em português que caiu em mãos de Tatiana Belinky, foi Jeca Tatuzinho, continuação de Jeca Tatu, um folheto do Biotônico Fontoura escrito por Monteiro Lobato, de quem Tatiana se tornou fã (apesar de ser antitiete). Julio Gouveia, médico psiquiatra e educador que era,escreveu e publicou um artigo sobre a literatura infantil de Monteiro Lobato, na revista Literatura e Arte.

Certa noite, enquanto os filhos do casal dormiam, Júlio e Tatiana conversavam na sala da casa da rua Itacolomy, quando o telefone tocou. Tatiana atendeu e uma voz, do outro lado da linha, perguntou:

– Aí é da casa de Júlio Gouveia?

– É. Quem quer falar com ele? – perguntou Tatiana.

– Aqui é Monteiro Lobato.

Tatiana, pensando que fosse trote, pois todos sabiam da admiração do casal pelo escritor, respondeu, irônica:

– Ah, é? Aqui é o rei George.

Monteiro Lobato sorriu e disse:

– Eu sou mesmo o Monteiro Lobato. Eu li o artigo do Júlio na revista Literatura e Arte e gostei muito. Posso ir aí hoje à noite?

Recuperando a fala, Tatiana respondeu que sim e lhe deu as boas-vindas. Às 21 horas do mesmo dia, Monteiro Lobato estava em casa do casal. Assim que viu Júlio Gouveia, Lobato disse:

– Na tua idade eu tinha a tua cara.

Tatiana e Júlio ficaram olhando para ele com os olhos arregalados e tornaram-se amigos, frequentando, inclusive, a sua casa.

Lobato morreu em 1948 e não viu o Sítio do Picapau-Amarelo na TV. Os direitos da obra foram cedidos ao casal por dona Purezinha, viúva do escritor.

No ano seguinte, em 1949, Tatiana e Júlio fundaram um grupo de teatro.

 

Capítulo IV – FUNDAÇÃO DO TESP

O TESP (Teatro Escola de São Paulo) foi um grupo de teatro especializado em espetáculos para crianças e adolescentes, onde jovens, totalmente inexperientes eram iniciados na arte de representar. O TESP foi um centro formador de novos artistas, que a partir dos ensinamentos de Tatiana e Júlio desenvolveram seus próprios trabalhos não só como atores, mas em outras áreas ligadas à Comunicação e à Arte, que funcionou na cidade de São Paulo, de 1949 a 1964, quando encerrou suas atividades,

Logo da TESP – Teatro Escola de São Paulo

De 1949 a 1951, o TESP se apresentou, todos os fins de semana, sem interrupção, em todos os teatros da Prefeitura da cidade, estreando no Teatro Municipal e  levando a montagem cada semana à outra sala, primeiro nos outros teatros do Centro, depois nos teatros dos bairros, e depois na periferia, em teatros onde os havia, e onde não os havia, em outros espaços cênicos, auditórios de bibliotecas, cine damas de bairro, clubes, e ainda em hospitais etc.

O logotipo do grupo TESP eram dois elefantes brancos, um rindo e outro chorando, como as máscaras da tragédia e da comédia. Os elefantes foram escolhidos porque o grupo ensaiava em um casarão caindo aos pedaços, ou seja, num “elefante branco”

Foram cerca de três anos de atividade ininterrupta, com toda uma série de montagens, cada uma das quais era vista desde pelo público “burguês” do centro até o dos mais distantes distritos da periferia, portanto para todos os tipos de platéia infantil e juvenil, das mais diversas classes sócio-econômicas. E sempre com a casa lotada só de crianças, sem adultos acompanhantes a não ser alguns monitores, já que a própria Prefeitura fornecia ônibus com os quais mandava buscar as crianças dos parques infantis. Isto além de anunciar, com alto-falantes, em cada bairro, o espetáculo a ser apresentado. Por sinal com entrada franca, mas com ingressos impressos e numerados, e até com programas impressos, o que conferia maior “respeitabilidade” ao acontecimento. Tudo isso, evidentemente, se constitui numa experiência tão fascinante quanto instrutiva para os seus realizadores.

Em 1951, o TESP foi convidado para se apresentar na recém-inaugurada PRF 3 TV, a TV Tupi.

Capítulo V – TRAPÉZIO SEM REDE

Em dezembro de 1951, na antiga PRF 3 TV Tupi, surgiram dois nomes que marcariam a história dos programas infanto-juvenis na América Latina: Tatiana Belinky e Júlio Gouveia.

Os 3 Ursos, 1951

O primeiro programa apresentado foi Os Três Usos, uma peça de Natal que estava sendo apresentada nos teatros da Prefeitura. E logo em seguida, dado o sucesso imediato, o grupo foi convidado para fazer um programa permanente na emissora. Era o Fábulas Animadas, teleteatro de um ato, baseado no fabulário e no folclore nacional e internacional. E, pouco depois, os programas de TV do TESP já eram três: a série Fábulas Animadas, que depois se transformou em seriado (tipo “novelinha”, em 50 a 80 capítulos), baseado em obras literárias de várias origens, entre elas: As Aventuras de Tom Sawyer, Heidi, Angélica, O Jardim Encantado, Pollyana, Pollyana Moça, O Pequeno Lode, O Jardineiro Espanhol – duas vezes por semana; a importante série Sítio do Pica-Pau Amarelo, primeira adaptação para televisão no Brasil, baseada na obra de Monteiro Lobato, fiel ao original e conservando as características de humor crítico do autor, com 360 episódios – uma vez por semana; e finalmente o Era uma Vez, no começo contos-de-fadas e histórias maravilhosas, depois rebatizado para Teatro da Juventude, a fim de ampliar a faixa etária e abranger uma temática mais diversificada, e que (diferente dos outros, que eram “capítulos” de meia-hora, quarenta minutos) era um grande teleteatro, com histórias completas de uma hora, hora-e-meia de duração, todos os domingos.  O programa Teatro da Juventude era exibido às 10 horas, mas como as crianças não queriam ir à missa, passou a ser transmitido às 14:30 horas e sempre com produção e direção de Júlio Gouveia, textos de Tatiana Belinky e o grupo semi-amador do TESP.

O Sitio do Picapau Amarelo

Não um programa, mas toda uma programação de tele-teatro ao vivo (ainda não existia o vídeo-tape), artístico, cultural e educacional – numa emissora comercial! – e que durou, sem solução de continuidade, cerca de 13 anos. E com uma audiência altíssima, alcançando “ibopes” de 60 e até 80%, isto com três emissoras já em funcionamento, provando que um programa “educativo” pode ter sucesso de público. E de crítica, como mostram os inúmeros prêmios de “Melhor do Ano” ganhos pelo TESP.

Como todo esse trabalho foi realizado antes do advento do videotape, pouquíssimas coisas ficaram documentadas. Recortes, fotografias, textos conservados pelos autores e a memória dos profissionais que com eles trabalharam. Todo o trabalho que Júlio Gouveia acabou por desenvolver foi reflexo de uma constante preocupação com a formação da juventude.

Tatiana, de inicio, se recusava a escrever. Ela achava que não sabia, que nunca tinha feito, não tinha aquela irresponsabilidade e leviandade que eu tinha: ‘Vamos fazer…’. E num belo dia, no terceiro episódio do Sítio, do Lobato, eu estava na máquina e quando faltava meia página para terminar, eu parei e chamei: ‘Tatiana, agora você acaba, estou cansado, não tenho mais ideia e não sei como terminar’. E ela terminou. E daí para frente era ela quem escrevia. Começou a escrever muito melhor do que eu, e, principalmente, muito mais depressa do que eu. Ela chegou ao recorde de datilografar uma peça no estêncil no tempo exato da duração do espetáculo. Quer dizer, se era uma peça de um seriado de trinta minutos, ela conseguiu, algumas vezes, datilografar no estêncil, diretamente, em trinta minutos.”, confidenciou Júlio Gouveia em entrevista concedida para o especial “TV-Novela: Quem Quiser Que Conte Outra”, exibido pela TV Cultura na década de 70.

“Imagine o trabalho que isto dava. Eu escrevia os roteiros num estêncil, copiava-os num arcaico mimeógrafo e Júlio distribuía para os atores e técnicos para um único ensaio. No dia seguinte, o programa era levado ao ar, ao vivo. Os atores tinham que decorar o texto, meu irmão Benjamim ficava se arrastando pelo chão com uma cartolina onde estavam anotadas as ‘deixas’ para os atores não se perderem; o sonoplasta tinha que soltar a música em sua pick-up no ponto exato, naquele sulco, naquele acorde e nada podia dar errado. Estavam previstos os imprevistos. Tínhamos três câmeras jurássicas, uma girafinha (grua) e nos virávamos com isso. Era um trapézio sem rede.”, explicava Tatiana.

Ricardo Gouveia, que interpretou o Rabicó e dirigiu o programa durante um ano após a saída do pai, me disse certa vez: “Quando o programa não começava bem, meu pai, no switch, pegava o microfone, fazia uns chiados com a boca como houvesse um problema técnico. O programa saía do ar e ele dirigia-se para os atores, ameaçava furar os olhos com sacarrolhas e dizia, furioso: ‘Agora vocês vão fazer direito.’ O programa voltava a ser transmitido e a história retrocedia para o início.”

Interessante notar que todos os programas, todas as histórias contadas e mostradas pelos teleteatros do TESP eram baseadas em literatura (nacional e internacional, clássica e moderna, fantástica, realista, histórica) e promoviam abertamente a leitura, sempre remetendo o telespectador ao livro: cada programa começava numa estante de livros: o narrador (o próprio Júlio Gouveia), tirava um livro da estante, dizia o título, o nome do autor, e começava a ler as primeiras linhas da história. Só então as câmeras passavam para o espetáculo propriamente dito. E o programa se encerrava voltando para o livro, com algumas palavras finais do narrador, e um “fechamento” clássico: para o “teatrão” dominical, que era uma história completa, era “… e assim terminou a história; entrou por uma porta, saiu por outra, quem quiser que conte outra“. E para os capítulos dos seriados, a conclusão era um “gancho”: “… então… bem, mas isto já é uma outra história, que fica para uma outra vez.”

Durante todos aqueles anos, os cinco programas semanais mantiveram altos índices de audiência e popularidade, e o TESP só deixou a TV porque seu diretor resolveu voltar ao seu consultório médico, tendo retornado em 1968 para outra emissora, a TV Bandeirantes, onde fez o Sítio do Pica-Pau Amarelo durante 14 meses, todos os dias, já em vídeotape. Depois disso, afastou-se definitivamente dessas atividades.

Mas o feedback daquele trabalho se faz sentir até hoje, quando pessoas de todas as idades vinham falar com Tatiana Belinky ou Júlio Gouveia, para lamentar que não existam mais aqueles programas, e dizer coisas como “devo a minha formação aos seus programas“, ou “seus programas me ensinaram a ler e a amar os livros.”

De modo que os seus realizadores sentiam e sabiam que fizeram um trabalho importante, que pegou várias gerações de crianças, baseado em toda uma “filosofia” elaborada ao fim dos primeiros três anos de teatro infanto-juvenil em palcos diversos, diante de plateias diversas, e que depois foi aplicada à televisão, para plateias infinitamente maiores.

Essa “filosofia”, válida até hoje, foi exposta por Júlio Gouveia num ensaio-tese apresentado no Primeiro Congresso Brasileiro de Teatro.  Bem… Mas isto é uma outra história que fica para uma outra vez…

Capítulo VI – PRIMEIRO CONGRESSO BRASILEIRO DE TEATRO

Em 1954, Júlio Gouveia apresenta, no Rio de Janeiro, um ensaio-tese no Primeiro Congresso Brasileiro de Teatro, ensaio este que segue abaixo:

O Teatro para Crianças e Adolescentes
Bases Psicológicas, Pedagógicas, Técnicas e Estéticas para a sua Realização

Capítulo VII – RESGATE DE UM TESOURO

Muito se falou do trabalho literário de Tatiana Belinky, mas muito pouco sobre sua dramaturgia. Para se ter uma ideia, apenas em 2012 foi reunido em um único volume 18 peças, que é um número muito pequeno se comparado à sua extensa obra dramatúrgica.

Em 2006, Tatiana me pediu para organizar e digitalizar suas peças para esta publicação que seria lançada pela editora Perspectiva e enfatizou: “Eu pago!”. “Que é isso, Tati?”, respondi.  “Me pagar por algo que terei imenso prazer em fazer? E que ainda irei aprender? Eu é que teria que te pagar!

Aos poucos fui reunindo as cópias dos originais datilografados e dos publicados na revista Teatro da Juventude e escaneando, pelo menos, uma obra por dia. Quando a tarefa estava quase concluída, um texto assinado por Carlos Ney publicado no  Teatro da Juventude, dos anos 60 me chamou a atenção devido ao seu estilo ser muito parecido com o estilo de Tatiana.  Perguntei para ela quem era este autor, e saboreando um cálice de vinho do Porto, olhou para mim e respondeu: “Sou eu! Carlos Ney é meu pseudônimo” .

Voltei para o meu apartamento, consultei os exemplares da revista e encontrei uns quinze textos assinados por Carlos Ney. Resumo da ópera: meu trabalho que estava perto do fim retrocedeu praticamente para o início e eu ainda tinha muitas páginas para digitalizar.

Faltando pouco para concluir minha tarefa, encontrei um texto assinado por Célia de Andrade. Ao vê-la online no bate-papo, disse para ela que não sabia que ela escrevia e ela me respondeu: “Eu não escrevi nenhuma peça na minha vida. O texto é da Tatiana.” Ao saber disso, consultei novamente a revista e encontrei almas peças assinadas por Célia que também entraram na fila para a digitalização.

Alguns dias depois, estive novamente com Tatiana e perguntei o motivo de ela escrever o texto e dar para outra pessoa assinar, e mais uma vez, ela me surpreendeu com sua resposta: “Porque não queria que meu nome aparecesse tanto.”

Em alguns exemplares da revista, de fato, só tem textos escritos por Tatiana: assinados por ela e por Carlos Ney, Célia de Andrade, Margarita Schulmann… Se alguém encontrar algum texto assinado por Ney, Andrade ou Schulmann, saibam que a autoria é de Tatiana Belinky.

Dos 52 textos que digitalizei, 18 estão publicados no livro Tatiana Belinky – Uma Janela para o Mundo, que teve como organizadora Maria Lúcia de Souza Barros Pupo e do qual Karin Mellone e eu fomos os colaboradores, lançado  pela editora Perspectiva em dezembro de 2012, como já mencionei.

Quando concluí a digitalização dos textos, em meados de 2009, enviei os arquivos para Malu Pupo desenvolver seu trabalho. E como não tinha mais material para digitar, com o passar das semanas fiquei com abstinência. Escanear ou digitar aquele calhamaço de páginas tinha virado um hábito, e como todo o hábito, virou um vício. E um vício que não queria deixar.  Então propus à Tatiana para resgatarmos os scripts do Teatro da Juventude para a TV (cujos roteiros, mimeografados em papel jornal, cuidadosamente encadernados em capa dura e separados por semestre e por volumes contendo 600 a 700 laudas cada – Encontrei em sua biblioteca quatro volumes, dos anos de 1959 e 1960, que somados, totalizaram 2978 laudas de roteiro). Ela, a princípio, não aprovou a ideia, disse que era muito trabalho e que não valia a pena perder tempo, mas depois mudou de opinião e me emprestou o material. Ainda bem que ela mudou de ideia porque não saberia como lidar com minha abstinência. Como os livros eram grandes não dava para escanear e para não comprometê-los digitei página por página, sem pressa de terminar, aproveitando cada momento. Depois de seis anos mergulhado nesta atividade, concluí meu trabalho.

Obras de outros autores como Oscar von Pfull (A Mentira de Mércia), Ricardo Gouveia (Danielzinho e o Sono), Paulo Gonçalves (As Noivas e Maria Angélica, na verdade o mesmo texto com títulos diferentes e exibidos em duas ocasiões),  Maria Clara Machado (A Bruxinha que era Boa), Julio Dantas (A Ceia dos Cardeais)  e William Shakespeare (Timon de Atenas), Miroel Silveira (A Moreninha – adaptada do romance de Joaquim Manuel de Macedo), peças que foram transmitidas no programa, não foram digitadas por pertencer a outros autores.

Tatiana nunca soube contabilizar o número exato dos roteiros que escreveu, adaptou ou traduziu. A tabela em link, mostra os títulos dos teleteatros apresentados no programa Teatro da Juventude, nos anos de 1959 e 1960, com as datas em que foram transmitidos. Esses títulos são de apenas dois anos de programa. Os livros que contém os roteiros referentes aos anos de 1952, 1953, 1954, 1955, 1956, 1957, 1958, 1961, 1962, 1963 e 1964 se perderam, mas pela lista destes dois anos, dá – ou não – para se ter uma ideia de o quanto Tatiana produziu. Os roteiros em questão pertencem apenas ao programa Teatro da Juventude. Os seriados e os 360 episódios do Sítio do Pica-Pau Amarelo não foram contabilizados.

Relação dos Roteiros para TV, escritos em 1959 e 1960

Além desses roteiros de programas para TV, dois scripts me chamaram a atenção: o primeiro,  é um programa de transição entre a série Angélica e O Jardim Secreto e o segundo, o programa de aniversário do TESP, escritos em novembro de 1959 e com uma diferença de cinco dias entre eles. A digitação é fiel ao original, evidentemente, alterando-se apenas a ortografia.

SCRIPT 1 – Programa de Transição entre Angélica e Jardim Encantado – 24/11/1959

SCRIPT 2 – Programa de Aniversário do TESP – 29/11/1959

Depois de 13 anos de atividades na TV, os programas chegaram ao fim em 1964. Júlio Gouveia voltou para seu consultório e um ano depois Tatiana Belinky criou a Revista Teatro da Juventude.

Capítulo VIII – REVISTA TEATRO DA JUVENTUDE

Da TV para a Revista…

O depoimento a seguir, intitulado “Teatro da Juventude – A Volta” integrou o primeiro número da Revista Teatro da Juventude Anos Noventa, de agosto de 1995. Tatiana explica quais foram seus objetivos ao criar a Revista.

Quando nos idos de 1965 fui convidada pelo então presidente da CET, o saudoso Nagib Elchmer, para organizar um Setor Infanto-Juvenil na Comissão Estadual de Teatro, a primeira coisa que me ocorreu foi realizar um velho sonho: criar um Caderno de Teatro Escolar, estudantil e amador, nos moldes de publicações semelhantes em países da Europa e nos Estados Unidos. E assim nasceu a Revista Teatro da Juventude, com 10-12 textos teatrais por edição, divididos em três setores, segundo as séries escolares: Primário, Ginasial e Colegial e também teatro dirigido a universitários e amadores em geral.

Cada número da Revista trazia ainda artigos e textos de orientação para professores, diretores e outros educadores interessados. De distribuição gratuita, mas não excessivamente facilitada, a revista era acessível basicamente a escolas, clubes, grêmios culturais, bibliotecas, grupos teatrais e outras entidades comprovadamente interessadas e dispostas a utilizar a revista para os seus fins específicos: usar e divulgar o Teatro como o rico veículo educacional e cultural que é, estimulando a atividade teatral e “levando o teatro à escola e a escola ao teatro”.

A Revista Teatro da Juventude tinha intensa procura, esgotando-se cada edição (de 2500 exemplares) rapidamente, espalhada pelas escolas da capital e do interior do estado, por outros estados e até por outros países. É interessante notar que a Revista teve vida bastante prolongada, em especial considerando que, durante os sete anos de sua existência (com 43 números e mais de 240 textos teatrais publicados, além de dezenas de artigos), ela sobreviveu a três mudanças de Governo do Estado, entre 1965 a 1972, ano em que a sua publicação foi interrompida. E ela entrou num longo período de “sono letárgico”, durante o qual chegou a dar alguns débeis sinais de vida, mas não chegou a “acordar”, o que acaba de acontecer, exatos 23 anos após a sua fundação…

E agora, para as novas gerações, a Revista Teatro da Juventude volta, num retorno alviçareiro, com o mesmo formato, conservando até a bonita e sugestiva capa criada por Flávio Império para a revista original. E renascida, conservando principalmente o mesmo projeto, as mesmas intenções e características, abertas para as colaborações de velhos e novos autores, diretores, técnicos, professores e outros interessados, tanto com textos de teatro, “jograis”, leituras dramáticas etc, como com artigos, depoimentos e sugestões. E com o mesmo esquema de distribuição gratuita, mas seletiva.

Este primeiro número de “Teatro da Juventude Anos Noventa” traz textos e matérias selecionadas entre as centenas publicadas na sua vida pregressa – mesmo porque teatro não envelhece, e para uma nova geração de leitores tudo é novo. Do próximo número em diante contaremos com textos e artigos novos – além de peças de teatro clássico, brasileiras, portuguesas e traduzidas e/ou adaptadas de outras origens. Com esta volta, esperamos atingir e atender a muitas crianças, adolescentes e jovens (de todas as idades…), aos quais a atividade teatral muito tem a oferecer em termos de cultura e deleite estético-ético. – Tatiana Belinky , Teatro da Juventude – Ano I, Número I. São Paulo: CET/Imprensa Oficial, 1995. pg. 6.

Relação de textos publicados na revista, das edições de 1965 a1971

Relação de textos publicados na revista, das edições de 1995 a 2002

A Revista Teatro da Juventude Anos Noventa também teve sete anos de existência: de 1995 a 2002. Em 45 edições foram publicados 161 textos, além de inúmeros artigos, seções de cartas e dicas de leituras. Esses exemplares deram a oportunidade para novos dramaturgos divulgarem seus trabalhos. Na época dos 500 anos do Brasil, em 2000, inúmeros clássicos da dramaturgia nacional tiveram seu espaço reservado na revista, em 16 edições, dos números 23 a 38.

E lá se foram doze anos desde a última edição. Gostaria de acreditar que a Revista esteja novamente em um “sono letárgico”, como mencionou Tatiana, e que volte a ser publicada.

Na década de 80, no ano de 1985, Tatiana iniciou sua vida literária.

Capítulo IX – LITERATURA

Ética, estética e senso de humor foi a fórmula infalível que Tatiana usou para escrever suas histórias. Em 1985, Tatiana começou a escrever seus textos literários, seus próprios livros: A Operação do Tio Onofre foi o primeiro. Foi uma “revelação tardia”. Nunca soube quantos livros e quantas peças fez. “Sou muito frenética e preguiçosa porque faço as coisas bem feitas, mas rápido, depressa, “para me ver livre da incumbência”. Depois, quero passar para outra. Esse é o meu temperamento.”  Livros, entre originais, traduções, adaptações, etc, devem ser mais ou menos 250 títulos.
As crianças  que Tatiana visitava em escolas,  perguntavam:

– Por que você começou a escrever?

– Porque aprendi. Você não aprendeu a escrever? Foi assim. – sempre  dando uma  resposta brincalhona e bem-humorada.

– De onde você tira inspiração para escrever suas histórias?

– Inspiração eu tiro do ar. Inspiro e expiro. (risos) A ideia vem e eu pego. Eu uso meus “olhos de ver” e “ouvidos de ouvir”. Vejo uma coisa e escrevo. Quase tudo que escrevi, aconteceu realmente, não foi inventado. Quando você vê alguma coisa, não conta para alguém?

– Sim.

– É a mesma coisa. Só que em vez de contar, você escreve. Eu escrevo como eu falo, como se estivesse contando algo para alguém.

E continua:

– O livro é um “espetáculo” muito criativo. A pessoa que lê, ou ouve, faz a história do livro na sua cabeça. Ela cria tudo: cenário, figurino e até o rosto das personagens. O público é um co-autor. Criança pequena gosta muito de livro. Meus bisnetos vêm aqui em casa e sempre pedem livros. O ambiente em casa influi, lógico. É pena que no Brasil sempre se leu muito pouco, embora, atualmente se publique muita coisa para crianças. São milhares de títulos. É uma das fatias mais gordas, e eu nem falo da literatura escolar. Tem muita coisa boa, mas muita coisa ruim também, boba. A quantidade gera de tudo. As crianças na Bienal ficam sideradas, querem ver tudo, adoram, ficam loucas. Crianças de todos os tamanhos. E como gostam de ouvir histórias! Aliás, jovens e adulto também gostam de ouvir histórias. É só não ser chato, saber ler. Eu acho que todo o professor tem que ser ator, comunicador. Ler ou contar uma história não é a mesma coisa que fazer teatro, mas é uma técnica que precisa ser aperfeiçoada. São gestos pequenos, sem grandes projeções de voz, ela só precisa saber a medida, saber fazer vozes, enfim, sem ser um “blábláblá” chato.Hoje eu escrevo livros para crianças, leio para elas, raramente conto histórias. Leio mesmo… Eu sou a tal da Tatiana do livro, a vovó do livro… faço isso. Faço palestras para crianças, estudantes, universitários, professores, pais de alunos, que me convidam, me chamam muito. Também há um programa da Secretária de Cultura chamado: O escritor na Biblioteca, e O escritor na Cidade em que a Secretaria entra em contato com as secretarias de cidades do interior , organizam, me levam, me trazem, me dão cafezinho, me tratam muito bem e lá vou eu: contar histórias, conversar, ler,fazer palestras… Entre muitos outros, já fiz vários trabalhos para o Instituto Moreira Salles sobre teatro e literatura para crianças, conversando com o público, divulgando a minha experiência, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte. (1)

Suas obras infantis, referências no país, servem de estímulo à Educação e Cultura de nossa gente. Seu legado literário permanecerá para sempre em cada um de nós.

Em 2011 foi eleita imortal na Academia Paulista de Letras.

Tatiana em sua biblioteca

(1)  Trecho da entrevista concedida a Antonio Carlos Bernardes para o site da CBTIj, em 2000.


Capítulo X – ENTREVISTAS

Obs. Os depoimentos que seguem, foram retirados de diversas entrevistas traçam um painel sobre as ideias e pensamentos de Tatiana Belinky

Sobre os programas do TESP

TATIANA BELINKY (TB)  – Dizem que a televisão tira a criança do livro. E tira mesmo. Mas não os nossos programas, que eram todos baseados em livros. Todos os programas tinham início numa estante de livros. Entrava no quadro a mão de Júlio, (o narrador) que tirava o livro, abria, e começava a ler as primeiras linhas da história. E aí passava para a ação propriamente dita. Ao término da ação, voltava para o livro e Júlio encerrava com: “Entrou por uma porta saiu por outra e quem quiser que conte outra” para o programa Teatro da Juventude, do domingo, (que era uma história completa); e as histórias que tinham continuação, ele dizia: “Bem… mas isto é uma outra história que fica para uma outra vez…” Isso marcou muito. Os livros adaptados, que sempre dizíamos o título e o nome do autor, esgotavam as edições, repetiam edições e eram realmente lidos, porque as crianças me telefonavam, me escreviam, reclamavam que a adaptação não estava igual ao livro ou que o livro não estava igual à adaptação, mas conferiam. Vejo também pelo feedback, hoje, que toda essa geração de jovens intelectuais, professores, jornalistas, cineastas, gente de televisão, gente de teatro, uma grande parte foram os nossos meninos e uma grande parte se habituou a ler livros por causa desses programas. E isto,  hoje, eu digo com grande satisfação e orgulho. Na hora eu não pensei que fosse tão importante. Mas foi.”

Sobre o politicamente correto

TB – Nunca engoli essa coisa de políticamente correto. É muito bobo. Não pode dar nome aos bois? Não pode dizer que a jabuticaba é preta senão ela fica ofendida? Que é isso? De certa forma, nós éramos politicamente corretos – não havia esse nome bobo. Em nossas histórias havia personagens negativos e positivos. Não se falava que “Fulano de tal” é bom porque ele não fuma ou porque não bebe. Pode aparecer um personagem infeliz ou até negativo que bebe e que fuma, mas incidentalmente, não era assunto, não se falava disso. Ou então, fazer um personagem negativo com defeito físico; dizer que os vilões são sempre feios e herois são sempre bonitos? Não é por aí. Então, a gente tinha esse cuidado. Mas era completamente laico. Não havia dedo em riste: “isto pode”, “isto não pode”, “isso é bom isso mau, isso é feio, isso é bonito”. Não é por aí.”

Sobre a importância da leitura

TB – Eu lia muito. Com dez pra onze anos eu lia tudo. Eu tinha estante de livros no meu quarto quando tinha três anos. Eu nunca vi nem meu avô e nem minha avó sem livro na mão. Livro em casa era como tomar café da manhã. Nem era café, era chá.

Sobre um produto de qualidade

TB – O livro é um produto de qualidade, pelo fato de ser bem feito, bem apresentado e ter um conteúdo interessante para a criança. Com conteúdo e bom aspecto, o objeto livro vira um genuíno brinquedo cultural. E isso só vai acontecer se o adulto expuser a criança ao livro e deixá-la escolher.

Sobre a linha de contar histórias

TB – A linha a seguir continua a mesma: contar bem uma história, ser acompanhado e entendido. Nos últimos anos, tudo ficou muito rápido. A TV e os meios de eletrônicos não dão tempo para ninguém parar para pensar. O autor precisa se adaptar. Mas criança, propriamente, não mudou. Escrever continua a ser como conversar com elas, só que por escrito. E conversar com elas pode ser fácil para um adulto ou muito difícil, às vezes até impossível. Não basta aprender a escrever para crianças, entrar no ritmo da velocidade da narrativa da época se não se consegue levar a cabecinha dela a funcionar.Só é possível tentar compreender a criança tendo contato com ela. Quem faz isso não sente tanto a diferença entre públicos infantis de épocas distintas.

Sobre cuidados ao escrever

TB – Primeiro, respeitar a inteligência da criança. Elas entendem tudo muito bem, não são bobinhas. Muitas das clássicas fábulas com bichos se comportando como gente não eram escritas de olho no público infantil; eram antes críticas disfarçadas aos governos. Na Europa, fábulas eram muitas vezes metáforas, comentários sobre o mundo. E caíram no gosto das crianças.

Sobre mensagem e moral da história

TB – Claro que não é preciso empurrar uma verdade goela abaixo. Dizer à criança que ela tem de entender isso, que algo é certo ou errado. Muito faz quem não atrapalha, com seu dedo moralista. Aprendi bem cedo que tudo na vida tem vários aspectos. Tive um pai muito religioso, espiritualista, e uma mãe feminista, ateia e comunista. Eram tão diferentes, com opiniões muito diversas um do outro, mas eu percebiao quanto era comum ver que ambos tinham razão sobre a mesma coisa. Cada assunto comporta vários aspectos. Quando descobri Lobato, de cara quis ser Emília; ela também contesta a moral das histórias. Há uma passagem do Sítio, ao ouvir uma história em que a moral era “Fazer o bem sem olhar a quem”, Emília saltou indignada: “Fazer o bem a quem merece, isso sim”. Não é preciso querer ensinar algo à criança, porque ela no fundo não gosta de estudar, gosta é de aprender e apreender o ambiente, o mundo, a vida em volta. Quem não atrapalha já ajuda muito.

Evitar palavras difíceis?

TB – Não, pois nada é difícil para a criança. E, se a gente não usar, ela não vai conhecer nunca. Criança não precisa pesquisar dicionário, entende tudo pelo texto e pelo contexto, pesca de cara uma palavra desconhecida. De quebra, a segunda vez que encontrá-la já saberá o que é.

E palavras estrangeiras?

TB – Os brasileiros sempre usaram. E é preciso inventar palavras numa era de tantas mudanças como a nossa.

Sobre autores novos

TB – Há alguns autores muito bons. Ainda mais depois da virada que o Lobato deu. Ele instituiu o humor e o senso crítico, como mostra a atitude da Emília de defender a própria opinião. Os melhores autores de hoje aprenderam com ele. Do modo de falar, de reagir. Sei que brasileiro lê pouco, mas nos últimos anos publica-se muita literatura para crianças. Editoras que nunca pensaram nisso descobriram o mercado. As crianças se interessam e gostam de ler, se você der a oportunidade.

Sobre o grave problema dos livros

TB – Falta de assunto interessante, de estilo interessante de contar e uma apresentação ruim. Um livro em papel couchê, caro, brancão e brilhante, só atrapalha. Em livro bom até tamanho da letra, da margem e do entrelinhamento deve ser pensado. Hoje em dia muitos caíram nesta bobagem de fazer textos só com letras maiúsculas. É feio e indica que se jogou a toalha e se desistiu de ensinar a escrever.

Quando os pais sabem se um livro é bom?

TB – Quando se lembram quando foram crianças e interessando-se de fato pelo filho.

Crianças ainda interagem com os livros?

TB – Crianças letradas, sim, agem como as de meu tempo. Mas é preciso dar-lhes a chance, expô-las, deixar que peguem o livro em casa, na escola, na livraria. Tem gente que não deixa o filho chegar perto de um livro para não sujá-lo. O livro é um brinquedo que não acaba, pois toda vez que se lê é diferente. Livro é um bicho tão bom que, uma vez descoberto, não se deixa mais.

Literatura infantil é “mais fácil”?

TB – Não é verdade. É preciso talento para fazer algo bem feito, um ouvido para o ritmo. Pensar que criança é boba é bobagem. Quem diz isso não se lembra de si mesmo ou foi tão reprimido que desistiu de ser.

Método de criação

TB – Como diria Millôr Fernandes, sou escritora sem estilo, pois escrevo o que falo. Não penso muito. Não sei o que é essa coisa de escrever para uma faixa etária. O coração é maior que o útero, como se diz. Cabe sempre mais. É preciso observar. E se deixar ser. Abrir os olhos, os ouvidos, o nariz, ser curioso. Ao aceitarmos só o que nos dão, ficamos molengas. É preciso enxergar e ouvir; ser Emília, enfim. Emília, em minha opinião, é a maior figura da literatura brasileira. Capitu que me perdoe.

Capítulo XI. PRÊMIOS RECEBIDOS

1960 Prêmio de Melhor Escritora de TV pela Revista Manchete

1979 Prêmio pelos trinta anos de atividade em teatro e literatura infanto-juvenil pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA)

Prêmio de Mérito Educacional pela Câmara Brasileira do Livro (CBL)

1982 Prêmio Fernando Chinaglia, “Personalidade Cultural da União Brasileira de Escritores (UBE)

1988 Estátua de Bronze para a Personalidade Cultural do Ano, concedida pela

Fundação Nestlé de Cultura

1988 e 1990 Prêmio Monteiro Lobato de Tradução, concedido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ)

1989 Prêmio Jabuti para Personalidade Literária do Ano, concedido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL)

1991 Prêmio Jabuti concedido pela Câmara Brasileira do Livro para o livro Dversos Russos

Prêmio Homenagem Especial da Fundacem, de Teatro e Prêmio Francisco Igreja, pela União Brasileira de Escritores.

Prêmio ABRINQ, homenagem da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos – Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança pelo conjunto da obra

1993 Prêmio FNLIJ, categoria Criança, por A Saga de Siegfried

1995 Prêmio FNLIJ, categoria Criança, por Sete Contos Russos

1999 Prêmio FNLIJ, categoria Criança, por Os Dez Sacizinhos

2003 Prêmio FNLIJ, categoria Poesia, por Um Caldeirão de Poemas

2010 Agraciada com a Ordem do Ipiranga, atribuída pelo Governo do Estado de São Paulo

2011 Patronesse da Feira Nacional do Livro de Poços de Caldas (FLIPOÇOS), Minas Gerais

Eleita para a Academia Paulista de Letras

2012 Prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano, concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE)

CONCLUSÃO

Rosa, mãe de Tatiana, “se encantou” em 1970, com 77 anos. Suas últimas palavras foram: “o mais difícil é ser justo.”

André, seu filho caçula, “se encantou” em março de 1971, com 26 anos num acidente de moto, na Suíça. Seu corpo chegou em São Paulo em 16 de março de 1971, dois dias antes de seu aniversário de 52 anos. André foi ator e diretor e colaborou em um roteiro com Glauber Rocha.

Julio Gouveia, cardíaco, havia sofrido vários enfartes e era safenado, “se encantou”, levado por um infarto fulminante, em 12 de dezembro de 1989, aos 75 anos, menos de cinco meses antes em que comemorariam as Bodas de Ouro. Ele foi pegar um livro que caiu no chão e morreu em cima de Tatiana. “Foi a morte que ele sempre pediu. E ainda com um livro na mão”, disse Tatiana em entrevista.

Em 15 de junho de 2013, aos 94 anos, Tatiana também “se encantou” deixando uma legião de órfãos: Ricardo, seu filho; Fathia, sua nora; Júlio, Deborah, Nyrah, Aryeh e Gabriel, seus netos; Pedro, Eduardo, Luciana e Gabriel, seus bisnetos; além muitos outros familiares; seus  amigos, seus leitores e milhares e milhares de personagens que eternizou nas obras que escreveu durante toda a sua vida.

Tatiana repousa ao lado de Júlio e de André, no cemitério israelita da Vila Mariana, em São Paulo, como desejava e que confidenciou no livro Transplante de Menina:

Hoje – e há muito, muito tempo – eu não trocaria o Brasil por nenhuma espécie de “paraíso-terrestre” em qualquer outra parte do mundo. (E note-se que eu viajei muito, vi muitos países, coisas bonitas e interessantes…) E no Brasil, não gostaria de viver em qualquer outro lugar a não ser em São Paulo, essa “Pauliceia Desvairada”, essa megalópole caótica, fervilhante, dinâmica – e, sim, muito linda, onde cresci, estudei e lancei minhas raízes. E onde espero descansar, quando chegar o meu dia.” (Tatiana Belinky. Transplante de Menina. Moderna, São Paulo. pág. 12)

Clóvis Garcia, grande crítico teatral e professor da ECA-USP, escreveu sobre Tatiana: “Tatiana não é, pois, somente um autor de obras publicadas, fechado na sua torre de marfim, mas um centro irradiador de cultura e arte, sempre à disposição de quem dela precisa, sempre pronta a colaborar e estimular tudo o que possa contribuir para o nosso desenvolvimento cultural, prioritariamentea área infantil e juvenil. Assim tivéssemos mais Tatianas para o Brasil deixar seu subdesenvolvimento pois sem cultura não há crescimento, inclusive econômico, de qualquer nação.”

Tatiana deixou muitos seguidores, mas nenhum – nenhum – chegará à sua altura.

Em 2007 aconteceu a inauguração do Núcleo de Televisão Infantil Tatiana Belinky, da TV Cultura, o maior centro de produção de televisão de qualidade para crianças e jovens da América Latina.

E como todo o término dos programas da TV, encerro este trabalho com um o fechamento clássico do programa e que atravessou gerações: “E assim terminou a história. Entrou por uma porta, saiu por outra e quem quiser que conte outra.”
Barra-de-divisao - 15 cm

BIBLIOGRAFIA DE TATIANA BELINKY

Literatura Infanto-Juvenil

1985
A Operação do Tio Onofre. São Paulo: Ática

1987
Limeriques. São Paulo: FTD
Que Horta. São Paulo: Paulinas

1990
Bidínsula e Outros Retalhos. São Paulo: Atual
As Coisas Boas do Ano. São Paulo: Paulinas
O Caso do Bolinho. São Paulo: Moderna
Quatro Amigos. São Paulo: Paulinas

1991
Saladinha de Queixas. São Paulo: Moderna

1992
Assim, Sim! São Paulo: Paulinas
Bumburlei. São Paulo: Saraiva
Ratinho Manhoso. São Paulo: Moderna
A Cesta de Dona Maricota. São Paulo: Paulinas

1993
O Que eu Quero. São Paulo: Paulinas
O Grande Cão-Curso. Rio de Janeiro: Salamandra
O Galinho Apressado. São Paulo: Paulinas

1994
O Caso do Vaso. São Paulo: Paulinas
Limeriques das Coisas Boas. Belo Honzonte: Formato

1995
Bom Remédio! Rio de Janeiro: Ediouro
Baba lagá no Pantanal. São Paulo: Olho d’água
Transplante de Menina: Da Rua dos Navios à Rua Jaguaribe. São Paulo: Moderna

1996
Que Tal? São Paulo: AM
A Aposta. São Paulo: Paulinas

1997
O Valentão de Orelhas Compridas. São Paulo: AM
Beijo, Não! São Paulo: Quinteto Editorial
Que Cardápio! São Paulo: AM
Os Dez Sacizinhos. São Paulo: Paulinas
A Saga de Siegfried: O Tesouro dos Nibelungos. São Paulo: Companhia das Letrinhas

1998
Stanislau. São Paulo: Ática

1999
Medroso! Medroso! São Paulo: Ática
Diversidade. São Paulo: Quinteto Editorial
Quem Parte e Reparte. São Paulo: FTD

2000
Coral dos Bichos. São Paulo: FTD
Desastreliques. Rio de Janeiro: José Olympio

2001
Mandaliques – Ilustrações de Guto Lacaz. São Paulo: Editora 34
O Livro dos Disparates. São Paulo: Saraiva
Sou do Contra! São Paulo: Editora do Brasil
A Lição do Passarinho. São Paulo: Ave Maria
Chorar é Preciso. São Paulo: Paulus
O Ogro. São Paulo: Saraiva
ABC. São Paulo: Elementar lelena, a Sábia dos Sortilégios e Outras Histórias do Povo Russo. São Paulo: Ática
As Três Respostas. Conto Inglês. São Paulo: FTD
O Diabo e o Granjeiro. Conto Alemão. São Paulo: FTD
O Gato Professor. Conto Chinês. São Paulo: FTD
O Simplório e o Malandro. Conto de As Mil e Uma Noites. São Paulo: FTD
Vrishadarbha e a Pomba. Lenda Indiana. São Paulo: FTD
O Cocheiro Erudito. Conto Judaico. São Paulo: FTD
História de Dois Irmãos. Conto Russo. São Paulo: FTD
O Samurai e a Cerejeira. Conto Japonês. São Paulo: FTD
O Rei que só Queria Comer Peixe. Conto Tibetano. São Paulo: FTD

2002
O Caso dos Ovos. São Paulo: Ática
O Grande Rabanete. São Paulo: Moderna
Acontecências. Belo Horizonte: Dimensão
Bregaliques. São Paulo: Paulus

2003
Brincaliques quase Travalínguas. São Paulo: Evoluir
Rita, Rita, Rita! São Paulo: Ave-Maria

2004
Cantiga do Tiribin-biribim. São Paulo: Editora do Brasil
Trazido pela Rede. São Paulo: Caramelo
Tudo Bem! Ou não? São Paulo: Noovha América
Olhos de Ver. São Paulo: Moderna
Mentiras… e Mentiras. São Paulo: Companhia das Letrinhas
Onde já se Viu? São Paulo: Ática
O Toque de Ouro. São Paulo: Editora 34
Tatu na Casca. São Paulo: Moderna
O Livro das Tatianices – Ilustrações de Laerte. São Paulo: Salamandra
Limeriques do Bípede Apaixonado. São Paulo: Editora 34
Miopia Aguda. São Paulo: Evoluir Cultural
Quem Quer? São Paulo: Evoluir Cultural
O Sabe Tudo e o Sabe Nada. São Paulo: Evoluir Cultural
E Agora? São Paulo: Evoluir Cultural

2005
Pisos e Pisadas — Choro e Choradeira. São Paulo: Evoluir Cultural
Bisaliques. São Paulo: Paulus
ABC e Numerais. São Paulo: Cortez
Pontos de Interrogação. São Paulo: Noovha América
17 é TOV. São Paulo: Companhia das Letrinhas

2006
Sustos e Sobressaltos na TV sem VT e Outros Momentos. São Paulo: Paulinas
O Malvado. São Paulo: Mercuryo Jovem
Limeriques dos Tremeliques. São Paulo: Biruta
Sete Vezes Sim! São Paulo: Biruta
Limeriques para Pinturas da Paz. São Paulo: Noovha América
Limeriques da Coroa Implicante. São Paulo: Paulinas

2007
Quem é que Manda? São Paulo: Noovha América
Salada de Limeriques. São Paulo: Noovha América

2008
Limeriques da Cocanha. São Paulo: Companhia das Letras
Aparências Enganam. São Paulo: Cortez
O Segredo é não Ter Medo. São Paulo: Editora 34

2009
Rimas de Ninar. São Paulo: Ática
Andrócles e o Leão. São Paulo: Manole
A Charada do Gorducho. São Paulo: Manole
História da Tigela Achada. São Paulo: Manole
O Papagaio e a Borboleta. São Paulo: Rideel
As Formigas. São Paulo: Rideel
Denteliques. São Paulo: Rideel
Os Dois Cabritos. São Paulo: Rideel
O Espantalho. São Paulo: Rideel
Conto de Outono. São Paulo: Rideel
A Bexiga de Borracha. São Paulo: Rideel
Terrores a Beça. São Paulo: Noovha America
Alegria. São Paulo: Rideel

2010
Litnenques para Pintura — Dalmau. São Paulo: Noovha America
Fábulas de Krylov. São Paulo: Brasiliense
Medoliques. São Paulo: Melhoramentos
Cacoliques. São Paulo: Melhoramentos
A Alegre Vovó Guida que é um Bocado Distraída. São Paulo: do Brasil
Abecê e Beabá. São Paulo: Evoluir Cultural

2011
Uma História Hebraica. São Paulo: Cortez
Brincadeiras. São Paulo: Salesiana
O Espirro do Vulcão. São Paulo: Siciliano
Rimandinho. São Paulo: Paulinas
Que Jejum! São Paulo: Noovha America
Trança-rimas. São Paulo: Noovha America
Eu Sou a Dita-cuja. São Paulo: Noovha America
O Otimistal Língua Viperina. São Paulo: Noovha America
Por que a Lua só Tem Luz Fria. São Paulo: Leya Brasil
Para Encher Linguiça. São Paulo: Caramelo
A Vingança do Zezinho. São Paulo: Evoluir Cultural
Língua de Criança: Limeriques às Soltas. São Paulo: Global
Me Poupa. São Paulo: Evoluir Cultural

2012
Agridoce Nostalgia. São Paulo: Paulinas

Antologias

1993
Di-versos Alemães. São Paulo: Scipione

1994
Di-versos Russos. São Paulo: Scipione

1995
Sete Contos Russos Recontados por Tatiana Belinky. São Paulo. Cia. das Letrinhas

1998
Salada Russa. São Paulo: Paulinas. 1998

1998
Di-versos Hebraicos. São Paulo: Scipione

2000
Clássicos Russos para Jovens. Rio de Janeiro: Thex

2003
Um Caldeirão de Poemas. São Paulo. Companhia das Letrinhas

2007
Um Caldeirão de Poemas 2. São Paulo: Companhia das Letrinhas

Dramaturgia (Traduções e Adaptações)

A Cidade dos Artesãos ou Os Dois Corcundas. Teatro da Juventude. Ano 1, nº 4-5, outubro/novembro 1965 (Adaptação de T. Gabbo. baseada numa lenda medieval belga)

A Dádiva. Teatro da Juventude. Ano 4, nº 25, dezembro de 1968

ANDERSEN, Hans. A Roupa Nova do Imperador. Teatro da Juventude, ano 5, nº 28. maio de 1969. (Baseada na tradução de Winifred Ward.)

A Promessa dos Reis Magos. Teatro da Juventude. Ano 1, nº 6-7, dezembro de 1965. (Adaptação de um conto popular espanhol.)

ASIMOV, Isaac. A Máquina de Contar Histórias. Teatro da Juventude, Ano 2, nº 8-9, fevereiro/março de 1966.

A Sopa de Pedra. Teatro da Juventude, ano 1, nº 1, agosto de 1995. (Inspirada em conto popular)

BAUM, L. Frank. O Mágico de Oz. Teatro da Juventude, Ano 4, nº 21, julho de 1968.

Barrie, James M. Peter Pan. Teatro da Juventude, ano 6, nº 32, 1970.

Beijo, Não! No, no, don’t kiss! Dramaturgia bilingue. São Paulo: Letras & Letras. 2001.

Ester, a Rainha. Teatro da Juventude, Ano 3, nº 13, agosto de1967. (Teatralização do Livro de Ester, da Bíblia)

HEIDERSTADT, Dorothy. A Menina que Veio do Mar. Teatro da Juventude, Ano 2, nº 12, dezembro de 1966. (Revista Plays)

HUGO,Victor. Os Castiçais de Monsenhor. Teatro da Juventude, Ano 2, nº 8-9, fevereiro/março de 1966.

LOBATO, Monteiro. Emília e o Palhaço. Teatro da Juventude, ano 7, nº 39, 1971. Moisés Salvo das Aguas. Teatro da juventude, Ano 3, nº 16, novembro de 1967.

O Macaco Malandro. São Paulo: Moderna, 2002.

O Peru de Natal. Teatro da Juventude, Ano 1, nº 6-7, dezembro de 1965.

Os Dois Turrões. Teatro da Juventude, Ano 1, nº 2-3, agosto/setembro de 1965.

PERRAULT, Charles. Gato de Botas.Teatro da Juventude, ano 5, nº 30, outubro de 1969.

PÚCHKIN, A. S. Mozart e Salieri. Teatro da Juventude, Ano 4, nº 18, março de 1968. Quem Casa Quer Casa – ou Não? Teatro da Juventude, ano 2, nº 8, outubro de 1996. Quem Tem Casa, Casa? São Paulo: Letras & Letras, 1992.

SHAKESPEARE, William. As Sete Idades do Homem.Teatro da Juventude, ano 6, nº 35, 1970. (Tradução do monólogo de Jaques. de Como Gostais.)

SÓFOCLES. Oedipus rex. Teatro da Juventude. Ano 1, nº. 4-5, outubro/novembro de 1965. (Baseada na adaptação de A. Averchenko.) Tamanho não é Documento. São Paulo: Paulinas, 2007. (Inspirado na fábula de La Fontaine.)

TCHEKHOV, Anton. A Gaivota. Teatro da Juventude, ano 7, nº 43

_____. Dos Males do Fumo. Teatro da Juventude, ano 5, nº 28, maio de1969

_____. O Urso. Teatro da Juventude, Ano 2, nº 8-9, fevereiro/março de 1966

TEATRO PARA A JUVENTUDE. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005. (Adaptações para teatro dos contos “Édipo Rei” [para os íntimos], “Os Dois Turrões” [baseada num conto popular], “As Orelhas do Rei” [inspirada em Nathaniel Hawthorne] e “Muitas Luas” [inspirada num conto de James Thurber])

THURBER, James. Quero a Lua. Teatro da Juventude, Ano 1, nº. 2-3, agosto/setembro de 1965, e nº 44, outubro de 2002.

Narrativas (Traduções e Adaptações)

ANDERSEN, Hans Christian. O Patinho Feio. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

____. História de uma Ervilha. Adaptação de A Princesa e a Ervilha. São Paulo: Paulinas, 2009.

____. História Molhada. Adaptação de A Pequena Sereia. São Paulo: Paulinas, 2009.

____. O Pinheirinho de Natal. São Paulo: Caramelo, 2011.

____. Uma Roupa muito Especial. Adaptação de A Roupa Nova do Imperador. São Paulo: Paulinas, 2011

____. História de Canto e Encanto. Adaptação de O Rouxinol do Imperador da China. São Paulo: Paulinas, 2012.

____. História de Feiura. Adaptação de O Patinho Feio. São Paulo: Paulinas, 2012.

BAUM, L. Frank. O Mágico de Oz. Adap. livre de Tatiana Belinky. S.Paulo: Paulinas, 2004

BAUMANN, Hans. Orfeu. São Paulo: Ática, 2000.

EROWNING, Robert. O Flautista de Hamelin. São Paulo: Martins Fontes, t 997.

BURNETT, F. Hodgson. O Pequeno Lorde. São Paulo: Editora 34, 2002.

CARROLL, Lewis. Alice no País das Maravilhas. São Paulo: ARX, 2010

COAT, Janik. Eu não Sou como os Outros. São Paulo: Ática, 2009

COLLODI, Carlo. Pinóquio. São Paulo: Martins Fontes, 1997

DOSTOIÉVSKI, Fiodor. O Crocodilo e Outras Histórias. São Paulo: Scipione, 2003

DICKENS, Charles. Uma Canção de Natal. São Paulo: Caramelo, 2011

EMERMAN, Ellen. Já é Shabat? São Paulo: Maayanot, 1994.

GOETHE, Johann Wolfgang von. Raineke – Raposo. São Paulo: Cia. das Letrinhas, 1998

GOGOL, Nicolai. A Feira Anual de Sorotchinski. São Paulo: Ática, 1993.

____. Almas Mortas. São Paulo: Perspectiva, 2008.

____. O Nariz. São Paulo: Ática, 1996.

GORKI, Maksim. Micha. Aparecida, SP: Santuário, 1992

GRIMM, Jacob & Wilhelm. A Casinha na Floresta. Porto Alegre: Kuarup, 1985.

____. Os Músicos de Bremen. Porto Alegre: Kuarup, 1987

____. Os Contos de Grimm. São Paulo: Paulus, 1989

____. Branca de Neve. São Paulo: Paulus, 1995.

____. Joãozinho e Mariazinha. São Paulo: Paulus,1995

____. Chapeuzinho Vermelho. São Paulo: Paulus,1995

____. O Gênio na Garrafa. São Paulo: Paulus, 1995.

____. O Gato de Botas. São Paulo: Paulus, 1996.

____. As Andanças do Pequeno Polegar. São Paulo: Paulus, 1996.

____. A Bela Adormecida no Bosque. São Paulo: Paulus, 1996.

____. O Rei Sapo. São Paulo: Paulus, 1996.

____. Rapunzel. São Paulo: Paulus, 1996.

____. O Lobo e os Sete Cabritinhos. São Paulo: Paulus, 1997.

____. O Ganso de Ouro. São Paulo: Paulus, 1997.

____. Sete de um Golpe Só. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

____. João e Maria. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

____. História de Lobo. Adap. de Chapeuzinho Vermelho. São Paulo: Paulinas,2009

____. História de Terror. Adap. de Joãozinho e Mariazinha. São Paulo: Paulinas,2009

____. O Mata Sete. Adap. de O Alfaiate Valente. São Paulo: Paulinas, 2011

____. Flauta Poderosa. Adap. de O Flautista de Hamelin. São Paulo: Paulinas, 2012

HAWTHORNE, Nathaniel. O Toque de Ouro. São Paulo: Editora 34, 2004

HOFFMANN, H. O Caçador Valente. São Paulo: Paulus, 1995

IRVING, Washington. Rip Van Winkle. São Paulo: Ática, 1994

JUKOVSKY, V. A Torre do Reno. São Paulo: Global, 2006

KIPLING, Rudyard. A Foca Branca. São Paulo: Editora 34, 2006

____. Rikki Tikki Tavi. São Paulo: Editora 34, 2006.

KRYLOV, Ivan. Fábulas Russas. São Paulo: Melhoramentos, 1986

____. Bicho é Boa Gente. São Paulo: Paulus, 1996.

LEBOVICA, Aydel. Como Será o Mundo? São Paulo: Maayanot, 1993

LEIBEL, Estrin. A História de Dani Três Vezes. São Paulo: Maayanot, 1994

LIESKOV, Nicolau. O Urso e Outras Histórias. São Paulo: Scipione, 1992

MAKARENKO, Anton. Poema Pedagógico. São Paulo: Editora 34, 2005

MALGOLM, Janet e Tchekov, Lendo Tchekov. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005

MOORE, Clement Clarke. A Véspera de Natal. São Paulo: Caramelo, 2011

NIEKRÁSSOV, Nicolai A. Vovô Majai e as Lebres. São Paulo: SM, 2004

PERRAULT, Charles. O Barba Azul. Porto Alegre: Kuarup, 1987

____. As Fadas. São Paulo: Martins Fontes, 1991

____. A Gata Borralheira. São Paulo: Martins Fontes, 1997

____. O Gato de Botas. São Paulo: Martins Fontes, 1997

____. A Bela Adormecida no Bosque. São Paulo: Martins Fontes, 1997

____. Sapatinho de Cristal. Adaptação de Cinderela. São Paulo: Paulinas, 2009

____. História de Gato. Adaptação de O Gato de Botas. São Paulo: Paulinas, 2012

____. História Sonolenta. Adaptação de A Bela Adormecida. São Paulo: Paulinas, 2012 POLLACK, Willian. Meninos de Verdade. São Paulo: Alegro, 1999

PUCHKIN, Alexandr. A História da Ursa Parda. São Paulo: Scipione, 1996

____. O Pope Avarento. São Paulo: Paulus, 1988

RHEAD, L.J. Robin Hood. São Paulo: Paulicéia, 1991

ROSENFELD, Diná. Um Garotinho Chamado Abrão. São Paulo: Maayanot, 1998

____. A Bondosa Pequena Rebeca. São Paulo: Maayanot, 1998

____. Tudo sobre Nós. São Paulo: Maayanot, 1994

SINGER, Isaac. Satã em Gorai. São Paulo: Perspectiva, 1992

SLADE, Peter. O Jogo Dramático Infantil. São Paulo: Summus, 1978

STEVENSON, R. Louis. Raptado. São Paulo: Círculo do Livro, 1997

STILLERMAN, Marci. Nove Colheres, uma História de Chanucá. S.Paulo: Maayanoc, 1999.

TCHEKHOV, Anton. Histórias Imortais. São Paulo: Cultrix, 1959

____. Contos da Velha Rússia. Rio de Janeiro: Ediouro, 1966

____. Os Mais Brilhantes Contos de Tchekhov. Rio de Janeiro: Ediouro, 1966

____. Os Contos de Tchekhov. São Paulo: Cultrix, 1985

____. O Homem no Estojo. São Paulo: Global, 1986

____. O Malfeitor e Outros Contos da Velha Rússia. Rio de Janeiro, Tecnoprint, 1987

____. Os melhores Contos de Tchekhov. São Paulo: Círculo do Livro, 1987

____. Cachtanca: Artista por Acaso. São Paulo: Atual, 1998

____. Cachtanca, a Aventura de uma Vira-lata. Belo Horizonte: Comunicação, 1983

____. Um Homem Extraordinário e Outras Histórias. Porto Alegre: L&PM, 2007

TOLSTAYA, Tatiana. No degrau de ouro. São Paulo: Companhia das Letras, 1990

TOLSTÓI, Alexei. Aelita. São Paulo: Editora das Américas, 1961

TOLSTOI, Lev Nikoláievitch. A História de Ivan Ilitch e Outras Histórias. São Paulo, Paulicéia, 1991

____. A Aposta. São Paulo: Paulinas, 1996

____. Histórias de Bulka. São Paulo: Editora 34, 2007

____. Senhor e Servo e Outras Histórias. Porto Alegre: L&PM, 2009

TURGUÊNIEV, Ivan. O Relógio e Mumu. São Paulo: Scipione, 1990

____. O Cão Fantasma. São Paulo: Editora 34, 2007

____. Primeiro Amor. Porto Alegre: L&PM, 2008

UNGERER, Toni. Uma Nuvem Azul. São Paulo: Global, 2011

ZÓCHTCHHNKO, Mikhail M. Causos Russos. São Paulo: Paulinas, 1988

Bibliografia Geral

BELINKY, Tatiana. Transplante de Menina da Rua dos Navios à Rua Jaguaribe. São Paulo: Moderna, 1995

________. Bidínsula e outros Retalhos. São Paulo: Atual, 1990

________. Acontecências. Belo Horizonte: Dimensão, 2002

________. Quem Tem Casa, Casa? São Paulo: Letras & Letras, 1992

________. TV sem VT e outros Momentos. São Paulo: Paulinas, 1997

GOUVEIA, Ricardo. Sabe-Tudo e o Espião. São Paulo: Letras & Letras

MELLONE, Dormiem Karin. Tatiana Belinky: A história de uma contadora de história. Dissertação de Mestrado, São Paulo, 2008

PUPO, Maria Lúcia de Souza Barros (org). Tatiana Belinky, uma Janela para o Mundo. São Paulo: Perspectiva, 2012

ROVERI, Sérgio.Tatiana Belinky – …E Quem Quiser que Conte Outra. São Paulo: Imprensa Oficial, 2007