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Todos os anos, desde 2001, comemoramos o dia 20 de Março como o Dia Mundial do Teatro para a Infância e Juventude, criado pela ASSITEJ. Depois de mais de três anos de lutas, em 2008, o CBTIJ conseguiu junto ao Congresso Nacional oficializar, através da Lei 10.722, o Dia Nacional do Teatro para a Infância e Juventude.

Tradicionalmente a ASSITEJ convida um artista para escrever uma mensagem comemorativa, que transcrevemos abaixo juntamente com a mensagem da presidente dessa entidade.

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Mensagem de Francisco Hinojosa (*)

Sem nenhuma experiência prévia, exceto por ter frequentado o teatro quando menino, aos 17 anos eu dirigi uma peça com um elenco de amigos e colegas. Ela foi apresentada informalmente na nossa escola e também em um espaço mais adequado, aberto ao público. A peça se chamava Prova de Figurino e tratava do tema das drogas e, sobretudo, como o título sugere, a mise-en-scène. Ela tinha sido escrita pelo meu pai, cuja vocação inata como um ator foi cultivada quando ele era jovem em esparsas apresentações para instituições de caridade. Nem ele nem eu seguimos o caminho do teatro, apesar de eu ter me tornado um leitor constante e público habitual de peças de teatro. Curiosamente, mais tarde eu reencontraria o teatro de uma maneira diferente: algumas de minhas histórias escritas para crianças têm sido adaptadas para o palco nos últimos vinte anos ou mais.

No começo, se os grupos eram formais, eu pedia que uma cópia da adaptação fosse enviada para minha aprovação. Mas, com o passar do tempo, eu preferi deixar isso de lado e dar liberdade àqueles que fazem seu trabalho com a consciência de que, durante a passagem do narrativo para o dramático, alguém tem que ceder. Algumas vezes, eu assisti montagens dessas adaptações. Em outras, eu soube delas através da imprensa ou de uma webpage. Algumas vezes, o conteúdo literal do texto é respeitado. Em outras, ele serve como uma fonte de inspiração para a criação de um novo trabalho.
A Pior Mulher do Mundo é a minha história que mais vezes foi adaptada para o teatro, seja como um monólogo, uma peça para marionetes ou uma peça de teatro de sombras, seja numa leitura dramatizada, numa peça escolar ou numa montagem profissional. O diretor de uma companhia de teatro certa vez me contou que eles tiveram que resgatar a atriz que fazia o personagem principal do meio de uma plateia enfurecida, composta por jovens que viram nela a verdadeira personificação do mal: realidade e ficção haviam se mesclado na imaginação coletiva. Durante uma apresentação, eu também testemunhei as reclamações que algumas crianças, familiarizadas com a história, faziam sempre que os atores seguiam o roteiro que toma liberdades em relação à história original.

Não há dúvidas de que uma história bem contada no palco fascina as crianças na plateia e de, alguma maneira, as transforma. Ao sair do teatro, após o espetáculo, o mundo parece diferente: a criança foi tocada por um espetáculo que permite ao público ver além da superfície. E com frequência, uma reação catártica toma conta delas, ao se verem refletidas em certos personagens ou situações. Ao contrário da solidão do ato de ler, uma vez que a história saltou para o palco, a experiência se transforma: agora ela é algo que está acontecendo diante dos nossos olhos, algo que nós podemos compartilhar com os outros. Já não somos mais as únicas testemunhas. O conto ganha vida além da nossa imaginação e, de algum jeito, nos transforma em protagonistas, porque nós confiamos nossas emoções e medos, nossos desejos e frustrações aos personagens. Uma vez postos em cena, ficção, música, dança, canções, poesia, jogos, magia e malabarismo são harmoniosamente reunidos, ao lado dos recursos típicos das artes cênicas: vestuário, iluminação, cenário, maquiagem, adereços. As contribuições feitas à nossa herança cultural – com ênfase na literatura e no teatro – invariavelmente levam a uma criança que exercita sua imaginação e que encontra um sentido maior na vida.

(*) Nascido na Cidade do México, 1954, é dos principais autores de Literatura Infantil no México. Logo após concluir seus estudos de Literatura, ele começou a escrever poesia, antes de começar a escrever também histórias curtas e romances para crianças. Em 1984, ganhou o Prêmio IBBY (International Board on Books for Young People) por seu livro A velha que comia gente (La vieja que comía gente), e publicou outros dez livros pelo Fondo de Cultura Económica. Este ano ele foi escolhido pelo Conselho Nacional de Arte e Cultura do México (Conaculta) como embaixador para representar e promover a literatura infantil e para público adulto no México.

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Mensagem de Yvette Hardie (*)

Uma criança não vai sozinha ao teatro. O Dia Mundial do Teatro para Infância e a Juventude, celebrado no dia 20 de março, é um chamamento para reconhecermos que a criança depende dos adultos ao seu redor para estabelecer um contato crítico com as artes em geral, e com o teatro em particular. Por esta razão nós dizemos: “Leve Uma Criança ao Teatro Hoje”.

O teatro acontece num espaço e tempo específicos, e, por natureza, é transitório e pertence àquele momento em particular. Ele trata das relações invisíveis criadas naquele instante, as quais destravam o coração humano, plantando sementes de empatia e gerando uma espiral crescente de curiosidade e investigação, que causam impacto no desenvolvimento do ser humano como um todo e nos rumos que ele dará à sua vida.

Entretanto, estabelecer uma conexão com o teatro, compreender o valor do teatro, pode exigir esforço por parte do público. Não é uma função passiva ou receptiva. É uma atividade que requer atenção, envolvimento, abertura, curiosidade e pensamento crítico. Que demanda engajamento total – não apenas engajamento intelectual, mas também físico, emocional e, diriam alguns, espiritual. Quando esse envolvimento integral acontece, sentidos múltiplos são estimulados simultaneamente, gerando uma experiência rica, poderosa e transformadora.

Muitos pais compreendem o valor da leitura – sejam eles mesmos leitores ou não. Por entenderem o valor funcional da leitura, eles reconhecem sua capacidade de servir, para as crianças e os jovens, como um passaporte do mundo real para novos domínios. Os pais compreendem que a leitura não é algo para ser abandonado, apesar das etapas iniciais serem difíceis e muitas vezes frustrantes. Ao invés disso, eles sabem que a leitura é uma chave que pode abrir novos mundos para os jovens, que um pensamento surgido durante a leitura de um livro pode traduzir-se em um direcionamento para a vida… Eles se interessam o suficiente para correr atrás do livro que vai capturar a imaginação da criança de tal modo que ele vai conduzí-la através dos obstáculos da aprendizagem da leitura. Por que esse mesmo reconhecimento não é dado à experiência de ler o teatro?

O teatro não é algo para ser abandonado após uma experiência negativa. Tampouco é algo para ser enquadrado em uma forma ou tema particulares. Ele pode ser trabalhoso e frustrante, mas, ao mesmo tempo, atraente e encantador. Pode levar um tempo para o “leitor” do teatro compreender integralmente as múltiplas camadas de signos, sentimentos e significados que são apresentados. Mas como uma experiência essencial, o teatro oferece ao público a oportunidade de “verdadeiramente” ver o que há nele, através de um olhar inaugural, para enxergar o objeto, pessoa, relação ou signos de uma forma nova, e descobrir e interpretar seus significados por si mesmo.

O teatro é uma experiência única de construção de significados para a criança. Ele requer engajamento, e a qualidade desse engajamento vai se aperfeiçoar com o tempo, conforme a criança e o jovem ficam mais afinados com a experiência de assistir uma peça.

A ideia de alfabetização teatral não é uma ideia volúvel – é uma janela importante e universal para a leitura e compreensão do mundo. E com que urgência estas habilidades são necessárias num mundo que parece crescentemente hostil às crianças, e onde tantas delas são invisibilizadas e abandonadas em função da pobreza, guerra, conflitos ou deslocamentos. Essas crianças devem tornar-se nossa responsabilidade coletiva.

O desafio para artistas e ativistas da arte é garantir que todos os adultos responsáveis se engajem na campanha #LeveUmaCriançaaoTeatro, por compreenderem sua responsabilidade com crianças que, talvez, nunca venham a ter contato com o teatro, se não for pela sua intervenção e pelo seu trabalho para que todas as crianças tenham direito à alfabetização teatral, assim como elas tem direito de aprender a ler e escrever.

(*) Presidente da ASSITEJ

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Tradução dos textos: Cleiton Echeveste (CBTIJ/ASSITEJ Brasil)