Critica publicada no Jornal do Brasil
Por Flora Sussekind – Rio de Janeiro – 14.05.1984

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Crianças:  Tá na Hora, Tá na Hora

Um Espetáculo-Alçapão

A remontagem de Tá na Hora, Tá na Hora dá início à estratégia de ocupação do Teatro Villa-Lobos no que diz respeito à área de teatro para crianças. De certo modo o ponto de partida da programação infantil parece ter sido o mesmo utilizado pelo Pessoal do Despertar para o horário noturno: o retorno a trabalhos já exibidos pelo grupo nos últimos anos. Mas, se no caso da programação adulta, este flashback foi realmente literal, reforçado agora pela representação de sketches musicais já vistos e revistos à sociedade, no caso do Grupo Navegando, o retorno ao Tá na Hora, Tá na Hora, montado originalmente há seis anos, permite algumas surpresas. A história se repete sim, mas se constitui numa oportunidade de o núcleo mais antigo do Grupo Navegando assistir ao modo como seus membros mais jovens concebem a peça.

Como se Lúcia Coelho, Caíque Botkay, Cica Modesto, Andréa Dantas saíssem propositalmente de cena. Não para rever o Tá na Hora, Tá na Hora, mas sim para assisti-lo pela primeira vez, só que com olhos de espectador. Talvez apenas um pouco mais atentos e emocionados do que o habitual. Atentos, sobretudo a bela leitura que Fábio Pilar faz da peça nessa sua remontagem; a direção musical de Charles Khan, em constante diálogo com as de Caíque nos trabalhos do Navegando, a garra deste Grupo Tá na Hora que está se formando, é onde se destacam como atores e manipuladores Fernanda Coelho e Felipe Camargo, em meio a um rendimento muito bom do restante do elenco. E deve ser fascinante para os responsáveis pela primeira versão da peça, inclusive para os próprios Fábio Pilar e Charles Khan, vê-la agora diferente. E ver, sobretudo que já se forma uma segunda geração Navegando, rica em atores, diretores musicais, como Charles e Mauro Perelmann, e agora deixa perceber a competência de Fábio Pilar para as tarefas acumuladas de diretor, cenógrafo e figurinista. Só por isso a remontagem de Tá na Hora, Tá na Hora já se mostraria bastante oportuna.

O mais interessante na atual versão da peça talvez seja a ênfase no ator. Não que se abandonem os bonecos. Isso seria impossível tendo em vista a representação necessariamente dupla (via ator e via boneco) de cada personagem exigida pelo texto. O que acontece nesta montagem de Fábio Pilar, um pouco sob impulso das dimensões do palco do Villa-Lobos, é que não só os bonecos utilizados são maiores, como o próprio espaço cênico real (do Villa-Lobos), mas também o ficcional; o circo onde se desenrola a rebelião dos artistas contra o empresário Bambolini e onde reaparece um lobo fugido da floresta. Dupla exigência a que se responde com uma eficiente manipulação e um bom trabalho interpretativo-coreográfico por parte dos atores. Há problemas, sem dúvida. Como a tentativa de cena de platéia por parte de D. Zilda, a domadora de sapos. Talvez a disposição da platéia, talvez a luz, talvez timidez da atriz, o certo é que a cena não funciona. E, motivo mais poderoso: talvez o texto não comporte cenas literalmente de platéia. Até porque os desdobramentos dos personagens já funcionam de maneira a transformar atores e bonecos em espectadores uns dos outros. Recorrer à plateia, ficcionalizá-la mais uma vez torna-se, então, redundante.

O melhor caminho mostra-se mesmo esse meio-tom, entre o descaramento constante e a magia, utilizado durante a maior parte do espetáculo e que lhe serve de fecho numa belíssima cena onde todo o elenco se transforma subitamente em objeto nas mãos de mágico invisível. Expulso do circo o empresário explorador, resolvido o retorno do lobo para a floresta e assumindo o controle do picadeiro pelos artistas, como se fecha o espetáculo que narra esta história? Com um passe de mágica. Um não. Vários.

Um por um, os atores se dirigem a um baú-alçapão e desaparecem de cena. Muito rápidos, no entanto, retornam ao palco para os aplausos, explicando assim ao público, sem palavras, quem fora o autor de tais desaparecimentos, quem dá vida a este misto de baú de guardados, palco e alçapão. Alçapão as avessas, responsável pelo retorno de espetáculo montado há muitos anos e de atores recém-desaparecidos diante do olhar espantado da platéia. Num diálogo simultâneo com a memória recente do espectador e com o passado do próprio grupo, que Tá na Hora, Tá na Hora se encarrega de reencenar.