Cacá Mourthé

 

 

 

 

 

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Primeiras Lembranças

Quando eu era muito pequenininha, a Clara (Maria Clara Machado) me levou para ver um espetáculo de bonecos, no Teatro do Aterro do Flamengo. Eu adorei! A peça tinha bonecos feitos pelo Neri, que era cenógrafo casado com Marie Louise Neri, artista plástica.

Essa coisa de arte, de teatro e de literatura começou muito cedo na minha vida. Eu morava em uma casa muito grande com meu avô, Aníbal Machado pai de Maria Clara, também escritor, minha avó, tia da Clara; meus pais e meu irmão. Ficava em Ipanema, na Rua Visconde de Pirajá. Mais que artista meu avô era uma pessoa fabulosa e muito humana. Todo mundo compartilhava de sua hospitalidade, de Camus, Sartre aos vagabundos da esquina. Ele recebia em casa sem fazer distinção.

Quando eu nasci o Tablado já tinha oito anos de existência. Desde meus 4 anos o programa de final de semana era sempre o mesmo. Pelas manhãs, aos sábados íamos à praia e aos domingos íamos à missa. À tarde eu ia assistir os ensaios da Clara ou vender os programas da peça em cartaz.

A primeira participação como atriz

Todo Natal íamos a Missa do Galo, mas antes da missa faziam um Auto de Natal, no Tablado. Num determinado ano resolveram montar A Noviça Rebelde, e me chamaram para fazer a caçula da família Von Trap, a Gretchen. Eu ficava sozinha em cena e quando a noviça ia embora eu tinha que dizer: “ai meu Deus, não sei por que me sinto tão só?” Eu devia ter uns cinco anos, e estava muito emocionada por estar no palco, com aquelas luzes me cegando, fiquei muito nervosa e acabei ficando paralisada. A peça parou e todos começaram a me soprar da coxia, até que eu falei com muita honestidade: “não sei por que eu me sinto tão mal. A plateia foi a baixo e começou a aplaudir! Essa foi a primeira vez!

Com onze anos comecei a estudar no Tablado. Tive aulas com a minha mãe Aracy, que dá aula até hoje para crianças entre onze e treze anos. Depois a partir dos catorze anos, eu estudei muitos anos com a Clara, com a Louise Cardoso, com o Carlos Wilson, o Damião, com o Bernardo Jablonski, até que com dezoito anos a Clara me convidou para dar aulas. Na época as turmas não eram divididas por facha etária. Um dia, a Sura Berditchevski, em uma reunião de professores falou para Clara que os adolescentes misturados aos adultos em sua turma não estava dando certo. Por acaso eu estava passando pela sala de reunião naquele momento e a Sura sugeriu que eu desse aula para os meninos. Clara ficou assustada, mas mesmo assim me chamou pra dar aula no Tablado e a partir daí as turmas foram divididas – de 11 a 13 anos, de 14 a 17 anos e de 18 em diante.

Eu dava uma aula uma vez por semana duas horas de duração, para eu dar essa única aula eu estudava a semana inteira! Lia todos os livros, bolava mil exercícios, assistia todas as aulas da Clara. Estudei muito teatro nessa época para poder ser digna do cargo de professora do Tablado, que tinham me dado. Acho que acabei me tornando uma boa professora pelo tanto que estudei nesta época.

Atriz Antes de Professora

Comecei como atriz em 1974, aos 14 anos e a dar aulas aos 18. A Clara era danada! Dura e muito exigente! Falei com ela que me sentia muito nova para dar aula e ela me disse que eu aos dezoito anos sabia muito mais de palco do que os adolescentes que estavam começando aos 14 anos e que nunca tinham subido em um palco. E acabou dando certo.

Clara não gostava muito de mim como atriz não! Ela me colocava como coro nas suas peças! Fiz coro durante muitos anos. Em 1977, ela me deu um personagem principal, Pluft, o Fantasminha, mas acredito que ainda não estava pronta pra fazer, meu Pluft não foi bom, foi um Pluft sem alma!

Em 2001, quando o CBTIJ fez aquela homenagem para a Clara e perguntamos como tinha sido as apresentações das cenas, ela disse: “- É, não foi vergonhoso!” (risos). Isso foi uma semana antes dela morrer. Foi a última homenagem a ela, viva.

Uma Clara durona

Fiz o Pluft em 1977, ela me deu o personagem apenas por falta de opção! Porque o Tablado naquela época estava muito sem dinheiro, então resolveu montar o Pluft em 15 dias. Foi meu primeiro papel grande, mas em quinze dias eu estava completamente despreparada, mesmo assim ela queria que eu mostrasse serviço. Clara só dirigia duas horas, de 21h às 23h. Tínhamos que chegar às 21h em ponto, Clara não gostava muito de ensaiar, gostava na verdade, era de ver a peça pronta ou de escrever.

No final da vida Clara ficou mais suave. Mas no início, na sua juventude, ela era muito brava! A Louise Cardoso, uma vez, num ensaio chegou dez minutos depois, o pessoal já estava em roda. A Louise chegou ao ensaio com o coração na boca, muito nervosa, porque sabia que Clara detestava atrasos. Quando ela entrou Clara parou de falar com a turma e olhou para Louise! Deu uma única olhada e a Louise nunca mais chegou atrasada na vida! A Clara era durona!

Em 1978 Clara montou Quem Matou o Leão?. Mas essa história começa em 1973. A Sura Berditchevski, José Lavigne, Louise Cardoso, Milton Dobim e eu formamos um grupo de palhaços, Irmãos Flagelo. Acho que foi o primeiro grupo no Rio de Janeiro contratado pelos Parques e Jardins para fazer espetáculos em praças. Nós ganhávamos muito bem naquela época. Fazíamos teatro na rua, em todo o grande Rio. Meu era a Tampinha.

O grupo surgiu aqui no Tablado a partir de um pedido da Anita Duvivier que era diretora do Patronato da Gávea. Ela solicitou a Clara, um grupo de palhaços para animar o aniversário do filho dela. Clara pediu que Sura organizasse e me incluísse porque eu estava meio perdida na vida. Essa festa puxou outras até sermos contratados pelo Parques e Jardins. Deu muito certo! Nós íamos com nossas malinhas e vestidos de palhaço para o subúrbio, para lugares longes. Ficamos muitos anos trabalhando com isso. Foi a primeira vez que eu ganhei dinheiro profissionalmente com teatro. Durou dos catorze aos dezoito anos.

O Zdenek Hampl, amigo da Sura, veio para o Brasil, com o espetáculo A Lanterna Mágica. Ele era um clown e nos ensinou muitas gag’s. Só andávamos de ônibus. Ninguém tinha carro. A Prefeitura não dava carro. Nós chegávamos cedinho no Tablado, nos maquiávamos e íamos vestidos de palhaçosfazendo brincadeiras no ônibus. Isso não era comum em 73, 74.

Houve uma época que faltava feijão preto no Rio de Janeiro, e o povo estava injuriado. Então nós fazíamos verdadeiras manifestações, levávamos a questão do feijão para a praça. Não tinha nada de política, mas era engraçado! Nós tivemos experiências maravilhosas.

A Clara adorava esse grupo! Sempre que nos apresentávamos na zona sul, Clara fazia questão de nos assistir e filmava em Super 8. Foi então que ela decidiu escrever uma peça para Os Irmãos Flagelo. Tempos depois Clara escreveu Quem Matou o Leão? baseado nesses palhaços.

O Cavalinho Azul

Em 1979, Clara remonta O Cavalinho Azul. Foi a terceira montagem. A primeira foi na década de sessenta. Eu fazia a menina e a Sura o menino. Nessa montagem, eu comecei a desconfiar do papel da crítica. Eu aprendi o que é a crítica teatral e qual a função do crítico no panorama do teatro. Para nós que “ralamos” pelo teatro, o que o crítico faz? Eu acho que ele não faz nada.

Quando estreamos, eu e a Sura ganhamos uma crítica fabulosa de um dos grandes jornais. Tinha um parágrafo falando do desempenho da Sura como Vicente e um outro falando bem de mim, como menina. Na semana seguinte, em um outro grande jornal saiu outra crítica do O Cavalinho Azul, chamando a Sura e eu de débeis mentais. Foi aí que eu entendi realmente o valor da crítica e essa subjetividade enorme! Quer dizer, não tem valor nenhum! É apenas a opinião de uma pessoa que tem o direito de gostar ou não do espetáculo!

Quem fez essa crítica ruim foi o Clóvis Levi, mas eu nunca briguei com ele. Ao contrário, vinte anos depois fomos juntos para a Rússia aprender Stanislavski e ríamos muito de tudo isso.

Participei depois, como atriz, em 1981, da peça Os Cigarras e os Formigas. A peça era um Romeu e Julieta, porque o cigarra Billy Rubina se apaixona pela filha dos formigas. Eu era Dona Pureza e fazia parte das alcoviteiras da praça, que ficavam fazendo as maldades. Os Cigarras eram muito livres e a mãe cigarra, meio hippie e vivia cantando. O casal formiga, Bernardo Jablonski e Bia Nunes, era certinho, metódico e chatérrimo.

A Clara fez uma crítica social muito interessante. Era um espetáculo musical, muito difícil. Este espetáculo teve sua primeira montagem no Tablado, com um cenário maravilhoso. Depois o Wolf Maia montou no Teatro Casa Grande com a Louise Cardoso. Acho que já está hora de montar novamente. É muito bom!

A Clara escrevia todo o dia de manhã, na sua máquina de escrever, mas por ter o palco do Tablado, as peças eram sempre incompletas, ou seja, completavam no palco um exemplo disso é Tribibó City, inicialmente só tinha oito páginas e foi no palco que a peça se tornou um grande sucesso

Ela fazia a primeira leitura com o elenco e partir daí surgiam várias ideias, como as músicas, que depois escrevia. O texto final só saía depois que a peça entrava em cartaz. Após a estreia ela não mudava mais o texto.

Em 1985 fiz O Aprendiz de Feiticeiro. Fizemos uma temporada aqui no Tablado e depois nos apresentamos na Pequena Cruzada. O Lionel Fisher fez uma nova montagem no ano passado.

Em 1986, O Tablado remontou Pluft. O Luiz Carlos Tourinho foi escolhido por Maria Clara para fazer o personagem, mas como tinha gravações de programas de televisão, ele aceitou com a condição que eu fosse o stand in dele. Como tinha feito muito mal da primeira vez, eu topei para me recuperar. Nesta montagem, eu estava mais segura, já tinha feito muita coisa. Rodagem de palco é algo que conta muito.

O meu primeiro Pluft era um personagem decorado sem alma! O Pluft da Louise Cardoso, por ela ser elétrica, era muito dinâmico, na verdade eu queria ter feito um Pluft agitado como a da Louise, mas a Clara me pedia que o fizesse com um ritmo lento. Depois veio o Luiz Carlos Tourinho, que também fez um Pluft dinâmico e ele tinha um trabalho de corpo fabuloso. Cacau fez um Pluft mais Chapliniano. Eu acho que cada Pluft traz a alma de cada ator. Isso ficou muito claro quando fizemos um exercício no ensaio, em que eu pedi que fosse feita uma cena muda, mas com todas as intenções, usando só o gestual e com os tempos da fala sendo respeitado. Aí ficou muito claro que a Cacau estava fazendo um Pluft Chapliniano e foi ótimo quando descobrimos isso.

De Maria Clara a Cacá

Desde pequenininha, já me chamavam de Cacá, por causa da Vânia do Tablado, que me deu este apelido. Eu morava na mesma casa da Clara e um local com duas Marias Claras não dava certo. Os amigos me ligavam e ela atendia ao telefone. Eu atendia as chamadas dela… Então como já me chamavam de Cacá em casa, em algum momento passei a ser Cacá Mourthé.

Cacá Diretora

Primeiro, eu comecei a dirigir espetáculos de final de curso, com os alunos do Tablado. Em 81, montamos A Gata Borralheira e em 82, Tribobó City. Mas a primeira direção que ficou em cartaz foi O Despertar da Primavera, em 1986, pois Clara gostou muito do resultado. Embora fosse um espetáculo pra jovens ficou em horário noturno. Foi um sucesso enorme e as pessoas pulavam o muro do Tablado, para conseguir entrar. Foi aí que surgiu a Claudia Abreu, Luisa Thiré o Michel Bercovicht, Alexandre Ackerman, Marcelo Olinto, e outros.

Depois do Despertar, a Clara me chamou para ser sua assistente, foi em O Gato de Botas. No início, Clara não acreditava em mim, sabe como é: Santo de casa não faz milagre. Mas quando ocorreu o sucesso do Despertar ela me chamou para ser sua assistente. Aí eu logo pensei: – “Vai acontecer à mesma coisa na questão da direção. Eu vou ser assistente durante muitos anos”. Só comecei a dirigir no Tablado, quando eu ganhei os prêmios com o Passo a Passo no Paço, que foi no Paço Imperial.

Antes disso já tinha dirigido, fora do Tablado, O Casaco Encantado da Lúcia Benedetti, foi um trabalho muito difícil, uma produção muito complicada.

Resumindo, fiquei assistente da Clara durante anos. O que fazer? Se a pessoa que está próxima de mim, dentro de casa, não acreditacomo é que os outros vão acreditar? Então percebi que o grande lance era deixá-la de lado e fazer coisas fora do Tablado, porque quando eu fazia sozinha dava certo.

Com o passar do tempo, volta e meia, Clara deixava o ensaio para mim porque ela ensaiava muito pouco. Eu aproveitava que ela não estava e inventava marcas, fazia mudanças e no dia seguinte ela dizia: “-Tô com inveja, essa marca é a minha cara!”

Um Grande Passo

O Lauro Cavalcanti, diretor do Paço Imperial foi ao Tablado e pediu para Clara escrever sobre a vinda da Família Real ao Brasil. Eu por acaso estava passando, ouvi, achei a ideia genial e me enturmei. Notei que a Clara estava com preguiça e me ofereci para escrevermos juntas. A Clara topou escrever comigo e o texto saiu em dez dias: Passo a Passo no Paço Imperial. Eu demorei muito para formar o elenco porque as pessoas ainda não confiavam em mim. Liguei para o Rio de Janeiro inteiro e recebi muito não, não desisti. Tinha de encontrar quarenta pessoas e aí passei muito tempo com o caderninho de telefones na mão.

O espetáculo foi um sucesso retumbante, com mais de mil pessoas assistindo e agora em 2004 me convidaram novamente para dirigi-lo no Paço Imperial.

Depois disso, tudo começou a fluir. Fiz A Coruja Sofia em 1994, Pluft, o Fantasminha em 1995, A Bela Adormecida em 1996, A Gata Borralheira em 1997, Número Faz Favor? em 1998 e A Bruxinha Que Era Boa em 1999.

Mas antes desses um outro espetáculo que marcou muito e que ficou onze anos em cartaz no Museu do Telefone foi Tudo Por Um Fio, só saiu de cartaz em 2004. Eu e Clara escrevemos juntas. Agora, eu vou roteirizar e dirigir um curta do Tudo por um Fio e O Numero Faz Favor? (uma outra peça que escrevi e dirigi no Museu do telefone). Estou muito feliz porque vou começar uma coisa nova.

Na época de A Menina e o Vento, Clara não estava ainda doente, mas já não tinha mais o pique de dirigir. Como eu já tinha dirigido e feito a assistência dela muito tempo, me colocou para dirigir. Foi uma passagem natural e fiquei como a diretora oficial das peças da Clara aqui no Tablado. Mais tarde recebi os direitos autorais de sua obra que ela deixou em testamento para mim. Lembro, de quando eu era pequena, Clara me chamar e dizer que sua obra ia ser minha, eu nem sabia o que isso significava. Então, de alguma forma ela me encaminhou para que isso acontecesse.

Convites

Eu amo dirigir. Adoro fazer teatro. Se tiver um palco, um ator querendo confiar em mim, eu topo e vou brincar muito, seja aqui, seja aonde for. É minha “brincadeira” predileta: montar peças. Nos últimos anos, comecei a ser chamada para dirigir outros trabalhos. Dirigi Pedro versus o Lobo no Teatro Municipal, a Priscila Camargo em Histórias da Mãe África entre outros.

O teatro para criança, no momento, está em baixa. Perdemos a crítica do jornal O Globo, que vergonha! Ainda bem que o Carlos Augusto Nazareth está no Jornal do Brasil. Nós não temos patrocinadores exclusivos. Acabaram-se os prêmios! As homenagens que o CBTIJ faz no Dia Mundial do Teatro para a Infância e Juventude é uma super iniciativa, mas temos que ter prêmios do governo e incentivos do estado. Ninguém incentiva nada! Acho que qualquer ação no momento é válida para revitalizar o movimento teatral infantil. Isso faz com que o teatro infantil vá perdendo o fôlego, aparecem menos grupos e menos dramaturgos. Tudo vai ficando sem graça. Os grupos que resistem, resistem às duras penas.

A última peça que fiz em 2005, O Rapto das Cebolinhas, foi feita com recursos do Tablado, não tivemos patrocínio. Além disso, hoje em dia, a educação está cada vez pior. Os pais estão cada vez mais distantes dos seus filhos, acho isso uma loucura! As crianças amadurecem mais rápido, a internet, a televisão deixa a criança sozinha sem saber que está sozinha. A televisão é ruim, mas a criança pode compartilhar com o adulto, mas qual mãe que tem tempo de ver Bob Esponja com seu filhinho? Acabam por assistir novelas ou filmes impróprios.

Quando os pais levam os filhos no teatro do Shopping, acredito que eles não se informam do que está em cartaz. Eles querem se livrar dos filhos para fazer suas compras e é a babá que fica com as crianças assistindo qualquer coisa. Aqui no Tablado, o público caiu, mas o que ninguém sabe é que não estamos dentro de shopping, mas temos muita qualidade.

Também acredito que os pais veem o teatro apenas como entretenimento e não como uma forma de educar, porque teatro para criança é essencialmente educativo. Educa sem ser chato, sem ser didático.

Por isso, é que para os pais, o conteúdo não interessa. As crianças veem televisão, internet ou teatro está tudo no mesmo pacote. Os pais não têm consciência que a criança através do teatro, aguça a imaginação, a fantasia e aprende a realidade de uma forma mais amena, através dos símbolos.

É por isso que eu adoro o teatro, acho que sou burra para realizar outras coisas. Minha inteligência se restringe ao palco, ao teatro às artes, graças a Deus. Quando eu consigo pegar um aluno, que acabou de entrar aqui no Tablado e quer apenas ser famoso e entrar para a TV Globo e quando consigo através dos exercícios, das aulas, despertar neste aluno a alegria, o prazer, o amor pelo ofício do teatro… Nem sei te dizer como eu fico feliz. Essa é a minha recompensa e eu consigo fazer isso com muitos deles.

É a mesma coisa quando dirijo um espetáculo. Quando eu consigo fazer com que ator chegue ali, onde é o personagem. Porque cada personagem é um pouco do que o ator traz, de sua alma. Se eu consigo que ele encare e veja qual é o filão deste personagem de acordo com o material que ele tem, eu fico feliz. O trabalho fica completo, mas é um trabalho pouco visível, porque é o ator que aparece. O trabalho do diretor fica escondido, mas a minha alegria é saber que as pessoas gostaram de assistir.

Tablado aos 55 Anos

Vejo o Tablado crescendo a cada dia. Acredito que a Clara plantou uma semente para muitos anos e deixou um espírito que cresce a cada dia, os alunos se programando para fazer ou inventar coisas, fazer esquetes! Tudo é muito dinâmico aqui no Tablado, Clara soube semear e ainda dará muitos frutos.

Por exemplo, este ano o Tablado vai fazer 55 anos. Em 1999 quando Clara ainda era viva comecei a pedir patrocínio para a reforma. As cadeiras aqui no Tablado são péssimas, já vi uma velhinha sentar numa cadeira e a cadeira virar com ela, dar uma cambalhota! É natural querer uma subvenção, uma ajuda qualquer do governo ou de alguma empresa para poder fazer a reforma. Um teatro que tem 54 anos, que formou tantos profissionais como o Tablado e é um marco na cultura nacional, não conseguir nada é muito estranho.

Então, ano passado, eu pensei numa campanha de amigos, que comprassem as poltronas. Assim vamos poder fazer uma reforma para os 55 anos do Tablado. E é isso que estamos fazendo agora. Tudo é muito trabalhoso. Eu gostaria de participar mais dos movimentos que o CBTIJ realiza, sinto vontade de trocar mais, de conversar mais com os amigos, mas, se eu fico lá com vocês eu não faço aqui. Mato um leão por dia, então vou fazendo o que eu posso por aqui.

Quando desfiz a casa da Clara, em Ipanema, achei alguns textos inéditos. Três deles, muito engraçados, adultos. Eram uns textos hippies que devem ser da década de 70, são muito interessantes, porém acho eu que “imontáveis”. Tinha um infantil, O Alfaiate do Rei, adaptação de um conto de Andersen. Lembro que a Clara não montou porque não sabia como ia fazer com o rei nu. Ela me perguntou: – Cacá como é que a gente vai fazer se o rei tem que entrar nu?”. Respondi para colocá-lo de cueca, ela retrucou dizendo que seria ridículo o rei de cueca quando a história é o rei nu. Acho que depois dessa conversa que a gente teve, ela resolveu desistir do texto.

A Clara estudou num colégio de freiras, foi bandeirante e era católica fervorosa. Teve uma educação muito rígida, que só mais tarde, nos anos 70, com a psicanálise ela se libertou. Foi nessa época que ela começou a desenhar e começou a se libertar um pouco, mas nunca perdeu sua mineirisse.

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Participação em Espetáculos para Crianças e Jovens

Como Diretor

Em O Tablado

2013 – Pluf, o Fantasminha
2012 – A Menina e o Vento
2009 – O Cavalinho Azul
2007 – O Dragão Verde
2006 – O Rapto das Cebolinhas
2005 – O Rapto das Cebolinhas
2004 – O Alfaiate do Rei
2003 – Pluft, O Fantasminha
2002 – Camaleão na Lua
2001 – O Cavalinho Azul
2000 – Jonas e a Baleia
1999 – A Bruxinha que Era Boa
1998 – A Gata Borralheira
1996 – A Bela Adormecida
1994 – A Coruja Sofia
1989 – A Menina e o Vento

Como Diretor

Em Outras Produções

2010 – Os Saltimbancos (Agosto)
2010 – Os Saltimbancos (Janeiro)
2010 – Histórias da Mãe África
2006 – A Polegarina e Outras Histórias
2004 – Passo a Passo no Paço
2004 – Histórias da Mãe África
2003 – Brincando de Orquestra
2001 – Caldeirão de Histórias
2000 – Visitas Dramatizadas no Museu do Telephone
1999 – Pedro Versus o Lobo
1998 – Número, Faz Favor?
1994 – Tudo Por Um Fio
1993 – Passo a Passo no Paço
1992 – Descobrindo Vidas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro
1991 – O Casaco Encantado

Como Atriz

1985 – Aprendiz de Feiticeiro, direção Maria Clara Machado
1981 – Os Cigarras e os Formigas, direção Maria Clara Machado
1980 – João e Maria, direção Maria Clara Machado
1979 – O Cavalinho Azul, direção Maria Clara Machado
1978 – Quem Matou o Leão? , direção Maria Clara Machado
1977 – Pluft, o Fantasminha, direção Maria Clara Machado
1976 – O Patinho Feio, direção Maria Clara Machado
1973 – Irmãos Flagelo, direção Sura Berditchevsky

Participação em Espetáculos Adultos

Como Atriz

1987 – Macbeth, direção Ricardo Kosovski
1992 – Mulheres de Trinta, direção Domingos de Oliveira
2003 – M 4.0 – Mulheres de Quarenta, direção Domingos de Oliveira

Participação em Cinema

Como Atriz

1984 – O Cavalinho Azul, direção Eduardo Escorel
1988 – Referência, direção Ricardo Bravo
1989 – Uma Rosa é uma Rosa, direção Luiz Eduardo Reis
1994 – Veja esta Canção, direção Cacá Diegues
2005 – Feminices, direção Domingos de Oliveira

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Entrevista realizada por Antonio Carlos Bernardes, no Tablado, em 13 de janeiro de 2006.
Colaboração na digitação de Bruno Bacelar. Fotos e material impresso: Arquivo Cacá Mourthé, O Tablado  e CEDOC/FUNARTE.