Os efeitos fáceis e apelativos comprometem esta montagem de A Bruxinha Que Era Boa, de Maria Clara Machado.

Crítica publicada no Jornal do Brasil
Sem Identificação – Rio de Janeiro – 05.05.1978

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A Bruxinha é Boa, Simpática e Divertida. E Daí?

Ao escolher uma peça de Maria Clara Machado, o grupo que se apresenta no Teatro da Lagoa se ampara em terreno seguro, saindo com um mínimo de riscos, já que é inegável o domínio dramatúrgico da autora. Ao mesmo tempo, o público tem uma oportunidade de revisão de A Bruxinha que era Boa, peça menor na obra de Maria Clara, sem o sopro poético e a abertura para a fantasia de Pluft, O Cavalinho Azul ou A Menina e O Vento e sem o humor crítico de vários outros de seus textos – uma pecinha bem comportada e que não dá trabalho. Mas a bruxinha não se reduz a um meio maniqueísmo racista como tem sido às vezes acusada: o fato de ser loura entre malvados morenos é só um recurso simbólico de opor luz e sombra, nada mais. Na verdade, a história que se conta é a da validade de um comportamento desviante quando as normas do grupo não encontram legitimidade ética, e isso é importante de ser levado às crianças, por mais que a peça seja insatisfatória no desenvolvimento e aprofundamento da questão.

Esse superficialismo não impede que seja divertida, mas é muito acentuado pela montagem em si, muito mais voltada para os brilhos de efeitos fáceis e apelativos (as seguidas alusões a fórmulas de tevê chegam a ser irritantes) do que para uma acentuação de elementos do texto que mal chegam a passar para a plateia, por exemplo, que a mentira se alia à força para manter o Bruxo no poder. Os figurinos e os cenários são bons, o elenco faz o que pode e tem ótimo domínio corporal, mas a montagem parece não acreditar que a palavra possa ter algo a dizer à cabeça das crianças.

E quebra seu ritmo em sucessivos cortes, para uma coreografia calcada no Fantástico, animada por música insuportavelmente cantada em play back, recurso artificial, gélido e ridículo, ao condenar os atores a mimicar uma ensurdecedora eletrônica. O elenco está tão bem, tão afinado, tão senhor de si e a produção revela tais cuidados que é uma pena que todas essas qualidades, somadas a um razoável texto como ponto de partida, não redundem em um espetáculo que seja mais do que divertido e simpático. Mas será que o grupo pretendia ir além disso?