Crítica publicada no Jornal do Brasil – Caderno B
Por Lucia Cerrone – Rio de Janeiro – 16.04.1994

Barra

Pouca intimidade com o palco

Caça ao tesouro, piratas e fantasmas parecem ser os ingredientes certos de qualquer história destinada a agradar ao público infantil. No entanto, como em toda receita, a qualidade dos ingredientes e a habilidade de quem faz a mistura interferem no resultado final, que pode não ser o esperado. A Aventura ao Tesouro Fantasma é um desses casos.

Escrito em 1977, o texto de Evê Sobral sofreu algumas reformulações e acréscimos de personagens para finalmente chegar ao palco. No entanto, a trama central ainda sofre de uma ingenuidade amadora, só perdoada no caso de criações coletivas de jovens iniciantes, em suas apresentações de final de curso.

Tia Lalá e seus três filhos recebem o primo Zezinho para passar férias em família. O garoto é sorteado em algum concurso da TV e, para ganhar o prêmio, ou tesouro, ou viagem, tem que decifrar uma charada: “laranjas fantásticas dorme um estranho”. Embarcam todos (inclusive a vizinha!) para a Amazônia e vão parar num casebre abandonado, onde, numa placa novinha em folha, está o nome do proprietário (fantasma?) e a data 1746. Depois de entradas e saídas se descobre que na casa existem dois fantasmas. Um bonzinho, sem barba, e seu irmão gêmeo, o malvado, de barba. Mais entradas e saídas e eles encontram, dentro de um baú, guardadas desde 1746, duas laranjas, que só podem ser fantásticas mesmo, dada a sua aparência inalterada após tanto tempo. A descoberta do tesouro e o seu conteúdo, porém, já são outra história.

A direção de Evê Sobral se resume em explicitar as intenções por trás dos diálogos de seu próprio texto. Os atores, sem muita intimidade com o palco, dizem suas falas formando a inevitável fila indiana, muito comum no começo dos ensaios, quando cada um ainda não ocupou seu lugar em cena. Se o elenco não consegue, cabe ao diretor fazer a marcação rígida do espetáculo, até que tudo pareça o mais natural possível.

Pouco atraente, o cenário de Alexandre Vianna se revela confuso quando mostra, num quase telão chapado no fundo do palco, um mezzo a mezzo de floresta e casebre, por onde o elenco se espalha como se tudo fosse um só ambiente. Já os figurinos de Tereza Camargo são leves e funcionais. Mesmo assim, não se justifica o merchandising da personagem que, mesmo sentindo calor, não quer tirar o casaco comprado na loja da figurinista. Em outras propagandas gratuitas, personagens revelam ter cortado os cabelos em uma das lojas que apoiam o espetáculo e insistem em comer o sanduíche Mac, mesmo na selva amazônica. A aventura ao tesouro fantasma é um espetáculo que deve ser repensado por seu autor e diretor, para que as boas ideias e intenções não permaneçam ocultas em sua mente e possam ser partilhadas com o público.

A Aventura ao Tesouro Fantasma está em cartaz no Teatro da Praia, aos sábados e domingos. às 17h. Ingressos a Cr$2.500. Cotação:

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