Crítica publicada no Jornal O Globo, Rio Show
Sem Identificação – Rio de Janeiro – 11.04.1986

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A Arca de Noé: a paz e a música para curtir a indispensável poesia

A Arca de Noé abre amanhã para o público infantil o café-concerto do Teatro Cacilda Becker, que foi totalmente reformado. A plateia, de crianças e adultos, pode assistir aos espetáculos saboreando tira-gostos, cerveja e refrigerante. Esta montagem da Arca, com músicas de Toquinho e Vinícius de Morais, inspirada nos poemas do último, foi apresentada durante oito meses no Teatro dos Quatro, onde sofreu modificações devido à mudança da arena para palco italiano. No Cacilda Becker, A Arca foi pela terceira vez adaptada, mas se mantém fiel ao objetivo de ser apreciada, com calma, e, assim as poesias poderem ser curtidas como As Abelhinhas e O Relógio. A direção musical de Luiz Antônio Barcos cuidou de jogar várias vezes nos poemas “cantados”, aproveitando seus ritmos próprios, fato raro em teatro infantil.

Segundo Luiz Antonio, o roteiro de Maria de Lourdes Martinez é muito interessante e o espetáculo, como um todo, é completamente diferente do programa especial apresentado pela TV Globo, apesar de usar as mesmas músicas. Diz o diretor musical:

– Maria de Lourdes partiu do leão, animal poderoso, até chegar à pulga, passando pelos animais domésticos, a casa, e pelos animais de jardim, como as borboletas. São 21 cenas muito curtas, com muito pouco texto em que, sem didatismos, procuramos puxar para o lado dos ritmos brasileiros, chorinho, marcha rancho, xaxado, baião. Lembro-me de que minhas primeiras referências musicais foram Oh! Suzana e Bat Masterson. As cirandas só as fui conhecer quando comecei a estudar música.

O fato de já ter estado em cartaz durante oito meses não assusta a produtora Elvira Rocha, que acha que os pais são suficientemente preguiçosos para levar as crianças a teatros distantes de sua casa; portanto, da Gávea ao Largo do Machado, há uma vasta área ainda a ser coberta, o que justifica até um certo rodízio de teatros, que as produções de Elvira costumam fazer como A Fada que Tinha Ideias, de Fernanda Lopes de Almeida, direção de Eduardo Tolentino, que estreou em 82 mas que chegou a ficar em cartaz até 84, em diversos teatros, até em Niterói.

Alice Viveiros de Castro, que dirige A Arca de Noé, ressalta que o espetáculo faz ver à criança que o trabalho de ator é intenso e nele se baseia a unidade do musical. “Todos os adereços e objetos de cena, no início, estão guardados; aos poucos vamos tirando tudo do baú e no fim da apresentação tudo é novamente guardado no lugar”. E Alice acrescenta:

– O trabalho de preparação vocal foi intenso. Seis atores cantam sem microfones, apenas com um play back acústico, e as combinações podem chegar a quatro vozes diferentes. É engraçado porque achávamos que A Arca não iria atrair as crianças pequenas: elas adoram, e as maiores, que conhecem as músicas e os poemas, também. Os pais costumam cantar conosco. Em termos de coreografia, trabalhamos a tradição como base, sem limites e sem qualquer tipo de didatismo. O espetáculo é atual, é de hoje.

Ficha Técnica

Direção: Alice Viveiros de Castro
Roteiro: Maria de Lourdes Martinez
Músicas: Toquinho e Vinícius de Morais
Figurinos e Adereços: Sérgio Silveira
Direção Musical: Luiz Antônio Barcos
Coreografia: Renato Castelo
Iluminação: Aurélio de Simoni
Produção: Elvira Rocha
Elenco: Antônio de Bonis, Deoclides Gouvêa, Alice Viveiros de Castro, Fátima Valença, Marcelo Escorel e Nádia Carvalho