André Paes Leme. Foto Antonio Carlos Bernardes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Projeto Encontros & Oficinas

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O Percurso

Eu comecei a fazer teatro muito tarde, pelos 20 anos com um grupo de teatro amador. Antes disso, fiz sete anos de Colégio Militar e era muito distante do universo das artes.

Um dia, por acaso, encontro com uma amiga que me convida para uma reunião de um grupo que iria montar um Auto de Natal. Na verdade, o grupo só se tornou grupo de teatro, depois desse Auto, pois eu estimulei que eles continuassem o trabalho. Já foi uma função um pouco de diretor, não conduzindo, pois eu não tinha nenhuma experiência, mas de organização. Essa experiência durou muito pouco tempo, mas logo percebi que eu tinha uma grande identificação e decidi então prestar vestibular para direção teatral na UNIRIO.

Na época, eu já fazia a Faculdade de Direito na UERJ. Terminei o curso de direito, pois foi uma condição obrigatória da família para fazer teatro. Eu gostava de direito também, e sentia uma afinidade, principalmente na questão da oratória. Eu achava que tinha uma tendência para algum tipo de comunicação, de organização. Aliás, é isso que, em parte, me realiza no trabalho.

Eu fazia direito de manhã, em seguida, ia para o escritório fazer um estágio e depois, de terno, ia pra UNIRIO. Eu só tinha um terno e quando chegava na escola de teatro, o colocava numa mochila. Toda noite, eu ainda tinha de passar o terno pra usar no dia seguinte.

Esse amor pelo teatro não nasce pelo traço estético. Eu não fui fisgado pelo palco, pela linguagem teatral. Eu fui fisgado pelo encontro pessoal que o teatro me possibilitava. Pelo desabrochar de uma personalidade que se construiu muito num período em que se encontrou com o teatro. Eu acho que tive uma mudança na minha personalidade em muito pouco tempo, por ter encontrado as nuances das relações dentro do teatro, coisa que eu não tinha tido até então.

No período da UNIRIO, eu tive um encontro com o Grupo Mergulho no Trágico, fundado pelo José da Costa, hoje diretor da UNIRIO e que me marcou muito. Acredito que essa foi minha grande escola, pois era um grupo em que a gente fazia tudo. Fui assistente de direção, mas também organizava os ensaios, fazia luz, divulgação. Éramos todos operários do teatro. Como o grupo só montava tragédias gregas foi também uma grande oportunidade para um iniciante, como eu, estudar todas as tragédias. O convívio em grupo me fez aprender muito. Aprender uma ética e até uma forma de lidar com o teatro de uma maneira especial.

Depois que o grupo se desfez e de eu ter acabado a universidade, passei um ano sendo assistente do Luis Arthur Nunes, o que também foi uma escola. Certamente foi dali que eu tirei os primeiros passos estéticos que eu pude optar dentro do meu trabalho como diretor. Meus primeiros espetáculos nascem com uma visão próxima do momento que o Luiz Arthur vivia com o grupo que ele tinha na época, com o teatro narrativo, com o teatro épico, em A Vida Como Ela ÉCândido e outros espetáculos.

Em 1991 cruzou o caminho a área de formação acadêmica, o exercício de ser professor de teatro. Na verdade, mesmo antes de me formar eu comecei a dar aulas na Universidade da Cidade, onde leciono até hoje e anos depois fui para a UNIRIO, e assim nestes últimos quinze anos acabei combinando o trabalho de professor com o de diretor. Certamente uma coisa somou-se a outra.

Diretor x Professor de Direção

Eu dou aula em duas universidades em duas áreas diferentes. Numa de Interpretação e na UNIRIO de Direção. O aluno ator é um tipo completamente diferente do aluno diretor e o ensino deste é bem mais problemático. Eu já escutei que “direção” se aprende fazendo assistência. É importante conhecer a parte técnica toda, mas só fazendo assistência é que se conhecem as relações. Que teatro se aprende entre quatro paredes, naquela vivência. Não tem manual de direção que faça alguém se transformar num diretor. Quando o diretor se depara com um ator na sua frente é que o diretor vai saber como lidar com ele. Eu tento estimular que esse aluno-diretor encontre essa vocação, essas aptidões nessas relações com os atores, além do que, eles podem conhecer tecnicamente. É um trabalho de formação, onde além de ensinar alguns fundamentos, têm que estimular que o aluno rompa alguns limites da própria criatividade, da imaginação e descubra a personalidade artística que o conduza a um trabalho autoral autentico e genuíno, e não influenciado pela visão de quem está ensinando.

Vivo sempre num limite onde eu tento transmitir o que eu acredito como diretor, e alguma coisa que faça o aluno descobrir o que é ser o diretor. Muitas vezes que tem alunos que fazem coisas que eu detesto, mas eu percebo que o meu detestar é algo subjetivo. Que eu não posso entrar no mérito de estar certo ou errado. Porque é arte, é artístico. É subjetivo mesmo. Eu posso cair numa cilada que é impor uma visão pessoal do meu trabalho.

O que eu tento transmitir como fundamento nasce aonde nasceu o meu desejo de fazer teatro: é nas relações. É na ética de lidar com pessoas dentro do teatro. De um fazer tão importante para a minha vida pessoal e profissional. O que eu tenho como meta é que todo aluno-diretor tenha valores corretos, claros e éticos para lidar com as pessoas que irão fazer teatro com eles. Agora o produto artístico, eles dominando as ferramentas técnicas daquele teatro eu não tenho como interferir. Então, às vezes, a análise do momento artístico está totalmente contrária a uma visão minha, como diretor. Mas se ela está autêntica e legítima na visão desse aluno eu dou sempre os parabéns, porque ele foi capaz de apostar em algo em que ele acredita.

Eu acho que teatro é uma atitude política, pessoal, muito séria. Então você tem que ter muita certeza porque você quer apostar naquilo. A opção que você faz por aquele texto, por que aquele desenho de cena? Por que aquele jeito de fazer o trabalho nascer com aqueles atores?

Já o ensino para o aluno-ator é diferente. Eu tenho percepção que existe uma linha mestra mais clara, de uma técnica de interpretação que é fundamental para aquele ator dominar. Para que ele mais tarde descubra qual é o campo de teatro que ele quer atuar, qual é o estilo de teatro que ele gostaria de trabalhar. Mas antes disso tem muito chão para percorrer, para que ele domine as ferramentas básicas para ser um ator. Então eu percebo que minha atuação, como professor de atores, é às vezes um pouco mais incisiva, mais forte, no aspecto de tornar mais claro para esse aluno essa técnica.

Quanto ao aluno-diretor, como ele estará sempre acompanhado de uma equipe, ele pode se permitir de não ter o domínio completo da técnica, mas a questão estética tem que ser muito conhecida por ele, para que ele possa percorrer um caminho pessoal.

A gente descobre quando é professor, que só tem um jeito de aprender: é errando. E não se pode impedir que esse erro aconteça porque depois dele se formar, certamente ele vai se deparar com isso. Então é importante que ele erre, o professor corrija, mas que o aluno entenda o que está acontecendo. O erro é um grande caminho para se aprender. Como o fracasso de um espetáculo. Parece que sempre que eu erro num espetáculo, eu saio melhor no seguinte.

Os Espetáculos

Meus primeiros momentos artísticos foram com as tragédias do Mergulho no Trágico: Oréstia, As Troianas, Édipo, mas eu tinha um papel muito mais observador. A primeira direção que eu assino, dentro da escola, foi uma comédia do Plauto chamada Os Dois Menecmos, que já apontava para certo estilo, que é a revelação do fazer teatral constantemente.

Mas antes eu devo dizer que tiveram dois espetáculos que me marcaram muito: A Mulher Carioca aos 22 Anos, direção do Aderbal Freire-Filho e A Vida Como ela É, direção do Luiz Arthur Nunes. Dois espetáculos fundamentais que me inquietaram muito. Daí eu caminhei para esse teatro sempre muito aberto, revelado, desse fazer teatral sempre muito visível para o público, do trabalho do ator-narrador, entre outras coisas.

Voltando, ao espetáculo Os Dois Menecmos. Apresentamos-nos no Festival de Novos Talentos e fomos premiados. Isso foi muito marcante, principalmente por ser a primeira direção. Era uma comédia e certamente nasceu em oposição a todo trabalho que eu desenvolvi em relação a tragédias.

Na época a UNIRIO tinha uma estrutura de produção muito sólida que permitia que os espetáculos saíssem da escola e que tivessem uma projeção que davam um retorno rápido, era como uma ponte para o mercado.

O segundo espetáculo, já fora da escola, foi o Alcassino e Nicoleta. Uma fábula francesa de autor anônimo medieval. Não era um texto teatral, era uma comédia cantada, do século XII.

Quando o espetáculo foi aprovado pelo CCBB, no projeto Teatro em Dia, fiquei desesperado. Na verdade eu queria fazer, mas não tinha certeza se saberia fazer. Mas era desafiante. E essa atitude de propor um trabalho que é tão obscuro ainda é o que um aluno-diretor tem que fazer. Por sorte, eu tive excelentes professores que também me ensinaram isso. E quando a gente está na chuva, tem que se molhar e tenta se superar. Alcassino e Nicoleta foi muito bem sucedido. E a partir daí outros espetáculos foram nascendo, como Baunilha e Trioleto, que era outra fábula e depois A Vida como Ela Era, baseada em contos do Arthur Azevedo. Um espetáculo muito gostoso.

Então essa série de espetáculos, ao mesmo tempo em que me identificava, parece que me aprisionou. Na verdade eu só vim encerrar este ciclo da narrativa com Engraçadinha, que era um projeto antigo, mas que eu só consegui realizar em 2002.

Acho que minha trajetória pontuou alguns momentos de desintegrar uma identidade artística. Nos primeiros cinco anos eu percorro com uma identidade com os espetáculos que já falei. Sofro uma pequena turbulência e me perco um pouco. O mercado começa a me absorver de uma forma que eu não mais avalio. Fiz então, alguns trabalhos que não respondem aos meus anseios artísticos, mas que completam necessidades econômicas e isso me faz perder um pouco um rumo. Até que em 1999 eu acabo dando uma parada. Fico um ano sem dirigir e sem saber pelo que me apaixonar artisticamente e vem nascer outro momento, que deixava de lado esse teatro mais metalinguístico, mais cômico, e fui dirigir um espetáculo adulto, chamado Pequenos Trabalhos para Velhos Palhaços, que fala sobre a vida de três velhos palhaços que estão procurando emprego e sobre a dor de ser abandonado. Foi um trabalho feito de forma cooperativada com grandes amigos, que tenho muitas afinidades e que ainda está vivo até hoje, seis anos depois e que cada vez que fazemos é um presente ver de novo.

Eu acho que esse espetáculo me ensinou não só artisticamente, mas como pessoa. Não só de pensar minha vida, meu futuro, mas como vencer desafios e não ter medo de fazer as coisas. Isso me traz um novo fôlego, mais energia, mas também mais cautela, mais precaução para não fazer qualquer trabalho.

Eu começo a estabelecer um pouco mais de sentido em estabelecer o que devo ou não fazer. Isso é muito difícil numa carreira, você negar trabalhos. Quando começam a te convidar, você se acha a pessoa mais sortuda do mundo, mas dali a pouco você vê que está completamente perdido em relação ao teu lado artístico.

Eu descobri que o teatro é muito mais arte que trabalho. E se você começa a fazer por fazer, você perde o porquê, o sentido daquilo. Eu não sei os outros diretores, mas eu tive um por que muito lento, difícil, fragilizado. Parecia que eu já tinha tão pouquinho e logo ficou tão múltiplo, que parece que eu já não sei quem sou artisticamente.

Esse espetáculo então renova esse olhar, aprimora meu senso crítico e me permite fazer menos, mas fazer com mais maturidade, com mais crítica.

Trabalhando para Crianças

Eu tive uma primeira experiência, muito boa. Na verdade, foi uma das minhas primeiras direções. Eu era assistente de direção de Vitor Lemos, que é um grande amigo, quando ele dirigia A Flauta de Pan, texto de Paulo César Coutinho, um autor muito bacana, já falecido. Só que ele teve que deixar esse trabalho e acabei assumindo a direção. Eu acabei também assumindo uma participação como uma bruxa furiosa, pois faltou um ator e eu acabei entrando no espetáculo. Era um papel muito pequeninho, mas adorei fazer.

Esse universo infantil me empolga, apesar de eu achar que não é a minha verdadeira aptidão, nem meu olhar ser tão aprimorado. Gostaria de desenvolver muito mais.

Eu também tive uma experiência, montando uma paródia de A Cinderela. Acho que não tive um resultado tão aprimorado artisticamente, mas que me aproximou novamente do infantil. Eu tenho uma preocupação com o fazer do teatro infantil. Eu sempre acho que estou sendo um pouco banalizante, tratando a criança de uma maneira mais infantil do que o necessário.

Mas, tive a última experiência, muito boa e que foi um trabalho sobre fábulas, que nasceu dentro da Universidade, de uma pesquisa com os alunos e eu montei um espetáculo chamado Confabulando. Trabalhamos com a narrativa a partir de seis fábulas, que eu costurei e adaptei e deu muito certo.

O interessante é que os pais saiam muito mais felizes que as crianças. As mais grandinhas gostavam, mas as menores não gostavam muito não. Eu realmente pensei que me faltava um pouco de mão. Mas é um espetáculo que eu vou reeditar em Portugal, pois acredito muito no poder poético que essas fábulas têm.

A Experiência em Portugal

Minha ida à Portugal não nasce de dificuldades do nosso panorama teatral e sim em função de questões pessoais e afetivas. Sou casado com uma portuguesa e resolvemos morar e trabalhar lá. Já montamos um espetáculo chamado Quase Amores, uma comédia romântica leve, mas quem tem uma teatralidade sofisticada, com soluções cênicas com um estilo que eu gosto de resolver.

Estamos trabalhando num Centro Cultural e nossa perspectiva é de construir um caminho mais longo que nos permita fazer outros espetáculos. Eu estou animado. Não vou cortar a relação com o Brasil. Estou licenciado da UNIRIO, mas continuo dando aulas. Venho pra cá, dou um módulo e volto. Quero continuar a dirigir aqui e lá até porque quero ver se nesses primeiros anos, lá em Portugal, dará certo.

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Participação em Espetáculos para Crianças e Jovens

Como Diretor

1990 – A Flauta de Pan
1991 – Os Dois Menecmos, de Plauto
1993 – Baunilha e Trioleto, Teatro Villa-Lobos – Espaço III
1994 – Alcassino e Nicoleta, fábula anônima, CCBB – Teatro II
1995 – Forrobodó, de Carlos Bettencourt e Luiz Peixoto, músicas Chiquinha Gonzaga
1997 – Vale a Pena Rir de Novo, Teatro Gláucio Gill
1997 – A Capital Federal, de Arthur Azevedo, CCBB – Teatro I
1997 – A Vida como Ela Era,  de Arthur Azevedo, Teatro da Cidade
1998 – Fábulas a Meia Luz
2000 – Cinderela
2002 – Aviso aos Navegantes, de Tomas Bakk, Teatro Planetário da Gávea
2005 – Confabulando
2013 – Forrobodó
, de Carlos Bettencourt e Luiz Peixoto, músicas Chiquinha Gonzaga, Teatro Sesc Ginástico
2014 – A História do Barquinho, de Ilo Krugli, Teatro Oi Futuro Ipanema

Participação em Espetáculos Adultos

Como Diretor

1990 – Medeia e Ifigênia– A Face Selvagem, a partir de Eurípides
1991 – Sangue Puro das Virgens, a partir de Eurípides
1993 – Arlequim Ainda Não Morreu por Colombina
1997 – O Burguês Fidalgo
2000 – Pequenos Trabalhos para Velhos Palhaços, de Matei Visniec
2001 – Engraçadinha – Seus Amores e Seus Pecados, dos 12 aos 18 Anos, de Nelson Rodrigues
2002 – Chega de Sobremesa
2002 – Um Pelo Outro
2003 – Na Geladeira
2004 – Carlos
2005 – Grande Otelo
2006 – Uma Última Cena para Lorca
2006 – Quase Amores, (em Portugal)
2007 – A Hora e Vez, de Augusto Matraga
2011 – Que o Diabo seja, Cego, Surdo e Mudo, de Nelson Rodrigues
2012 – Rubi, de Ferreira Goulart
2017 – Histórias que não Deviam se Contadas, de Rubem Fonseca, Teatro SESC Tijuca

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Entrevista realizada na Casa da Gávea, para o Projeto Encontros e Oficinas, em 12 de julho  de 2006.